Enso: o círculo Zen da plenitude e da iluminação

· outubro 10, 2018

O Enso, ou círculo Zen, simboliza a plenitude do simples. Representa o infinito contido na perfeição da harmonia. Poucos símbolos espirituais são tão magnéticos para o espectador e, ao mesmo tempo, poderosos para quem os pinta. Pois só quem tem a mente livre de pesos e iluminada pelo equilíbrio interno é capaz de traçar um círculo perfeito, mas nunca fechado.

Os mestres budistas costumam dizer que o Enso não pode ser explicado. Na verdade, só há um modo de entendê-lo com todas as suas nuances, em toda a sua essência: experimentando-o.

Este símbolo não é um simples círculo e também não é uma forma de arte. Sabemos que é cada vez mais comum o uso desta expressão minimalista da escola zen como tatuagem. No entanto, sua implicação vai muito além disso.

Enso é um estado de mente. É o ponto de harmonia perfeita onde o corpo e a mente ficam livres para poder despejar sua perfeição interna através de um gesto, de um movimento.

Ele tem o papel de expressar um estado pessoal no qual tudo é completo, onde tudo e nada existe no momento presente e pode ficar contido na forma de um círculo que permanece aberto. É onde se deixa uma abertura para despejar aquela pequena parte que nem sempre fica aberta para o infinito. 

Criar um Enso japonês exige prática e calma mental. Porque um Enso é pintado em uma pincelada contínua, em um só traço e com somente uma oportunidade de completá-lo. Não se pode voltar atrás para corrigi-lo.

Enso: o círculo Zen da plenitude e da iluminação

Enso, a arte do círculo e o equilíbrio interior

Os círculos sempre tiveram uma importância mágica, simbólica e espiritual. O próprio Carl Jung passou grande parte de sua vida fascinado por esta forma e, em especial, pelo conceito das mandalas.

Tanto é assim que, em seus momentos livres ou quando precisava manter distância de seus problemas, costumava desenhar círculos. De acordo com ele, simbolizavam a formação e a transformação da própria mente. De acordo com este célebre psiquiatra suíço, através destas formas encontramos a calma, mas também o impulso para ir além. 

Já para o Budismo Zen, o círculo Enso recorda o momento perfeito no qual a mente é livre para deixar o corpo, para que o espírito se eleve. Por essa razão, só uma pessoa mental e espiritualmente completa é capaz de desenhar um verdadeiro Enso. 

É, por assim dizer, o reflexo de sua iluminação expressado através de um desenho, do pulso firme e seguro de um artista capaz de evocar sua perfeição interna.

Se você estiver se perguntando sobre a origem deste símbolo, devemos voltar no tempo até o século 28 a.C. na China, momento em que esta ideia surgiu. Este conceito foi importado, mais tarde, para o Japão pelos monges budistas.

Shinjinmei, um poema oriental que contém a essência do budismo Zen, descreve o Enso como um vasto espaço onde não falta nem sobra nada. Também explica que a prática de desenhar estes círculos surgiu quando um monge pediu ao seu mestre que explicasse, com palavras, o que era a iluminação. O mestre respondeu que algo assim não pode ser descrito com palavras nem letras. Depois, pegou um pincel e um papel de arroz e desenhou o círculo.

Enso: o círculo Zen da plenitude

O Enso e o universo que gira

A forma de círculo está arraigada em quase todas as culturas. No entanto, este símbolo vai muito além de seu traço. Isso porque uma infinidade de tradições evoca nele a representação perfeita do próprio mundo, do movimento, e também do epicentro onde tudo se une e se concentra. Simboliza a serpente que morde sua cauda num ciclo infinito.

É a lua cheia atraindo as marés em seu contato com a natureza, é a xícara vazia de chá onde pode-se ler o futuro e inclusive a roda do Dharma contendo a sabedoria do Budismo. O Enso é, essencialmente, o próprio universo em movimento.

“O Enso não depende da linguagem, então deve-se deixar de lado o intelecto e se comunicar de forma mais profunda. É simples, porque mais que um círculo, é uma experiência muito exigente porque não há explicação. Você tem que vivê-la. Um Enso é feito de forma decisiva, uma vez e sem correção. Mas não é um ato criativo. Desenhar um círculo Zen é uma experiência criativa sem usar a criatividade.”

Como desenhar um Enso

Para desenhar um Enso é preciso partir de uma ideia: fukinsei, a negação da perfeição. Trata-se simplesmente de capturar o momento presente através da atenção plena. Devemos libertar a mente de pensamentos, limpá-la de toda preocupação para experimentar este contato autêntico consigo mesmo, onde gravamos em um só movimento o traço do círculo.

Devemos nos afastar da pretensão de que saia “um círculo perfeito”. Porque nós não estamos buscando a perfeição, não é preciso pensar em nossa habilidade, esforço ou no resultado. É preciso deixar fluir, se deixar levar. 

A arte Zen é uma expressão externa do estado interno. Portanto, para desenhar ou pintar um autêntico Enso, é necessário um trabalho contínuo para alcançar a calma e o equilíbrio. Só quando estivermos verdadeiramente preparados daremos forma a este círculo imperfeito que representará com perfeição o momento presente.