Entrevista com Rafael Santandreu: “Se você controlar seu pensamento, controlará suas emoções”

junho 25, 2019
Tudo o que acontece em nossa mente nos influencia. O psicólogo Rafael Santandreu fala sobre o poder do diálogo interno em nossas vidas.

Toda entrevista de Rafael Santandreu é um exercício de aprendizagem e descoberta. Em seu último livro, ele nos oferece um manual prático para a transformação pessoal e a autoterapia. Trata-se de um trabalho muito complexo e original para adquirir estratégias valiosas baseadas na psicologia cognitiva.

Ele é autor de livros muito conhecidos pelo público, como A Arte de não Amargar a Vida e Os Óculos da Felicidade. Santandreu enfatiza, com a sua habilidade de nos fazer entender a origem das nossas insatisfações da vida, nossa felicidade e a forma como nossos pensamentos moldam a realidade.

Nós somos o que pensamos, e a qualidade de tudo aquilo que acontece em nossa mente impulsionará a felicidade e o nosso potencial como seres humanos.

Entrevista com Rafael Santandreu

Em nossa entrevista com Rafael Santandreu, nos aprofundamos na importância de entender o modo como interpretamos as coisas que acontecem conosco, incluindo as mais adversas.

Como psicólogo, formador, divulgador e terapeuta especializado em terapia breve estratégica, Rafael Santandreu é uma figura de referência que nos convida a questionar a nós mesmos.

Graças a ele, criamos termos como a terribilite e a necessilite, ideias que nos obrigam a olhar para o nosso interior para entender como podemos limitar nosso potencial humano.

Da mesma forma, Santandreu nos presenteia com interessantes enfoques filosóficos para nos mostrar como a base da felicidade e da psicologia positiva também se nutre dos nossos clássicos.

O enfoque que ele nos propõe responde, mais uma vez, ao que estamos acostumados: uma lição original e inovadora para nos permitir crescer. É o despertar da nossa alegria interior, uma viagem que, sem dúvida, sempre vale a pena realizar.

“As pessoas mais fortes e mais felizes fazem uso de um diálogo interno cuidadoso, inteligente, e acima de tudo, consciente”.
– Rafael Santandreu-

A psicologia cognitiva que você pratica se baseia em modificar o diálogo interno?

Bom. Preste atenção ao fato de que Epiteto, o filósofo do século I, disse: “O que acontece conosco não nos afeta, e sim a forma como falamos sobre o que acontece”.

Isso significa que você não fica deprimido porque sua namorada te deixou; você fica deprimido porque diz a si mesmo: “Estou só! Nunca voltarei a ser feliz! Preciso da minha namorada!”.

Na realidade, a maior parte das adversidades tendem a nos afetar muito pouco, mas como ativamos um diálogo interno muito negativo, elas provocam ansiedade ou depressão.

Mulher pensativa debruçada na varanda

As pessoas mais fortes e felizes têm um diálogo interno especial?

Sim. Elas nunca “terribilizam”. Ou seja, consideram que há adversidades na vida e se incomodam um pouco, mas não tanto a ponto de impedir a felicidade. Estão convencidas disso. Mas é claro que existem grandes adversidades, como ter um câncer ou perder um familiar.

Um dos meus modelos de força emocional foi Stephen Hawking, o cientista na cadeira de rodas. Ele não podia se mover de forma alguma, por conta de sua paralisia, e também não conseguia falar. Mas ele dizia (através do seu computador) que sua doença era apenas um detalhe.

Considerava que enquanto pudesse fazer as coisas valiosas por si mesmo e pelos demais, podia ser feliz. E, assim, se transformou em um dos cientistas mais importantes de todos os tempos. Acima de tudo, era uma pessoa muito feliz.

Todos nós podemos aprender a ser assim?

Asseguramos que se você adquirir a filosofia pessoal de pessoas como Stephen Hawking, seu mundo emocional mudará: não se afetará mais pelas pequenas adversidades e terá muito espaço mental para aproveitar a vida. Tudo está no diálogo interno, nas suas crenças sobre a vida.

O que as crenças representam em nossa filosofia de vida?

Um dos princípios fundamentais é combater a “necessitite”, a crença de que você precisa de muitas coisas para ficar bem. A verdade é que só precisamos de água e comida para o dia a dia.

Tudo além disso é acessório e prescindível: ter um relacionamento, um trabalho, por exemplo, não é importante para a felicidade. A única coisa essencial é não se queixar e apreciar o que você possui.

E a saúde? É disso que precisamos para estarmos serenos e bem

É claro! A saúde é a primeira coisa que perdemos quando ficamos mais velhos. Apegar-se à saúde é absurdo. Te garanto de que podemos ser felizes até mesmo com uma doença grave.

Você tem o exemplo de Stephen Hawking e muitos outros. Mais uma vez, o que conta é o que você diz a si mesmo: se terribiliza ou não terribiliza.

Muita gente se deprime diante da morte de um ente querido, mas garanto que essa depressão é o produto de seu diálogo interno sobre a morte.

Eu acredito que a morte seja boa e até mesmo bonita. Por quê? Porque os acontecimentos naturais são bons e necessários. A minha morte e a dos meus entes vivos é um acontecimento benéfico.

O importante não é viver muito ou pouco, mas ter uma grande vida. No entanto, as pessoas se deprimem porque não têm mais a pessoa por perto para amá-la. Mas o mundo está cheio de pessoas maravilhosas para amar. São seus irmãos.

Ame-os como você amou as pessoas importantes em sua vida que não estão mais mais vivas. Eles te indicaram o caminho e você pode replicá-lo em outras pessoas fantásticas que habitam este planeta.

Você acha que a psicologia cognitiva tem uma forma de pensar “correta” diante de qualquer adversidade?

Sim. Meus livros, por exemplo, são uma coleção de princípios filosóficos que vão convencê-lo de que você pode ser feliz em qualquer adversidade. Você encontrará muitos argumentos que, juntos, irão levá-lo a dizer: “Não há nada que possa me fazer infeliz!”

De fato, Epiteto, o filósofo que mencionava, foi escravo…

Exato: nasceu escravo! Seus pais já eram e o venderam ao nascer. Seu mestre, Epafrodito, o levou a Roma. Apesar disso, ele foi feliz. Ele dizia a si mesmo: “Enquanto puder fazer coisas valiosas por mim e pelos demais, serei feliz.”

Assim como Stephen Hawking. Aí podemos ver que o segredo da felicidade está em seu diálogo interno. Se você controlar seu diálogo todos os dias, aprenderá a ser feliz.

Trata-se de um treinamento diário?

Sim. A psicologia cognitiva pedirá a você que revise o que diz todos os dias diante das adversidades.

Por exemplo, se você estiver preso no trânsito… não diga: “Que inferno! Vão para o inferno!” diga: “Está tudo bem… o trânsito é normal. Posso fazer mil coisas bonitas para desfrutar da vida nesse momento, como cantar uma música, ligar para a minha mãe e conversar um pouco, etc.”

Mulher tentando gerenciar seus pensamentos

Você tem que revisar seu diálogo sobre as adversidades, pequenas ou grandes?

Exato. Na próxima vez que estiver no trânsito, você vai se surpreender como isso vai te afetar menos. E faça isso com tudo.

Outro exemplo: se alguém disser algo desagradável, trabalhe para que não o afete: “Não preciso que todas as pessoas me tratem bem o tempo todo; não tem importância se alguém me insultar: na realidade, esse é um problema dela, não meu”.

Eu estou simplificando porque, na verdade, nós temos que dizer muito mais argumentos para que as coisas não nos afetem, mas essa é a dinâmica.

Quanto tempo demora para mudar o diálogo interno geral e começar a se sentir um pouco melhor?

Durante o primeiro mês trabalhando duro nessa revisão de diálogo interno já é possível notar mudanças muito significativas. Após aproximadamente 3 meses, a pessoa se sente 80% melhor.

Para chegar a 100% vai demorar um pouco mais, pode ser que demore um ano ou dois. Mas é necessário ir trabalhando nisso diariamente.

O resultado é que a pessoa se sente mais feliz, não se estressa com pouco, se arrisca a fazer muitas outras coisas e aprecia o que a vida tem de mais bonito.