3 erros de percepção, de acordo com o budismo

Para os budistas, os erros de percepção surgem de desejos e apegos que nos fazem trabalhar com uma cópia muito distorcida da realidade. O preocupante é que esses erros também causam sofrimento.
3 erros de percepção, de acordo com o budismo

Última atualização: 23 Setembro, 2021

O budismo, uma corrente que às vezes é entendida como filosofia e outras vezes como religião, concentra sua atenção em como, às vezes, nossos próprios sentidos nos traem. Os erros de percepção condicionam nossos pensamentos e podem ser, em grande parte, a origem do nosso sofrimento.

Frequentemente, os erros de percepção mencionados no budismo derivam da incapacidade de ir além das aparências. Essa limitação surge, ao mesmo tempo, dos desejos, apegos e da ênfase no “eu” como princípio de tudo. Essas são falhas cognitivas que formam uma espécie de “ciclo alucinatório de sofrimento”.

Por que as percepções equivocadas geram sofrimento? O budismo diz que elas levam as pessoas ao caminho errado, buscando o que nunca encontrarão e experimentando uma cadeia de frustrações que escurecem a imagem e a aumentam de tamanho. Três desses erros de percepção são os seguintes.

Se as portas da percepção fossem limpas, tudo pareceria ao homem como é, infinito.”
-William Blake-

Mulher triste duvidando de si

1. Ver a permanência no mutável, um dos erros de percepção

Uma das grandes diferenças entre o pensamento budista e o pensamento ocidental está no conceito de mutável e imutável. No Ocidente, especialmente hoje, a ideia do estável, e até mesmo do eterno, é muito atraente. Inclusive, muitas queixas vêm da tristeza porque algo acabou, se perdeu ou mudou.

O mais paradoxal é que os ocidentais também se tornaram uma fábrica de realidades fugazes. Tudo é temporário, tudo é descartável, tudo está continuamente sendo levado e deixado. No entanto, tais mudanças ocorrem dentro do arcabouço de eixos como o consumo, a produtividade e a ideia da felicidade como algo a “ter” constantemente.

Ver a permanência no mutável é uma das percepções equivocadas que causam sofrimento. O budismo afirma que a falta de permanência é uma realidade essencial que está presente em tudo, até nas pedras. Tudo está em movimento, e rejeitar essa verdade leva ao apego, que desde o seu surgimento tem medo e sofrimento implícitos.

2. Encontrar prazer no sofrimento

Quando falamos de prazer no sofrimento, não estamos nos referindo a uma estrutura de caráter masoquista. Estamos falando da dependência de situações que causam dor, o que a princípio seria uma contradição.

Por natureza, o ser humano quer se afastar daquilo que causa dor ou dano, mas não é esse o caso. Essa situação é vista claramente em quem mantém laços tóxicos, seja com outras pessoas ou com algumas situações. Os vícios, por exemplo, engendram essa contradição de encontrar prazer no sofrimento.

Para os budistas, há um erro de percepção aí, porque na realidade o que é percebido como prazer não o é. O que está realmente satisfeito é o vínculo de dependência, porque ajuda a encobrir o medo. É um prazer inoperante cuja base é um sofrimento duradouro.

Mulher triste com um coração

3. Detectar beleza no abjeto

Para os budistas, o belo vai além de uma forma. A beleza se descobre na particularidade de cada realidade e na compreensão dela. Isso se dá por meio da contemplação, ação que permite compreender a essência de algo e apreciá-lo em toda a sua plenitude. A beleza enriquece porque supõe a descoberta da maravilha que cada ser, vivo ou não, contém em si.

Por mais estranho que pareça, o abjeto também pode passar por belo quando um dos erros de percepção está presente. O erro é ver a beleza de fora, de um olhar periférico que não entra na essência, mas permanece na forma. Dessa forma, qualquer vileza acaba sendo atraente aos olhos de quem não desconfia.

O abjeto é a base e desprezível. No mundo de hoje, há muitas coisas que assumem belas formas e, assim, encobrem a vileza que as habita. Um casaco de pele às custas da vida de um animal, por exemplo. Ou uma “pedra preciosa” que vem do sangue, do suor e da destruição do planeta. Um espetáculo que põe em causa a dignidade. Existem muitos exemplos.

Os erros de percepção surgem de mentes escravizadas. Por sua vez, a escravidão aumenta com a dependência da mente e suas armadilhas e a independência do vazio mental que dá lugar à contemplação. Uma contemplação que, por sua vez, permite uma compreensão para além do cognitivo. Seguindo o critério budista, esse vazio leva à iluminação.

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  • Calle, R. A. (2002). Las Parábolas de Buda y de Jesús: es necesario desarrollar una percepción singular que permita aprehender lo Incondionado, limpiando la visión mental de obstrucciones e ignorancia. Susaeta Ediciones.