Estanislao Zuleta, um psicanalista autodidata

· agosto 12, 2018

O nome de Estanislao Zuleta não é muito famoso fora da Colômbia, apesar deste filósofo e psicanalista ter sido nomeado assessor da ONU e ter alcançado uma considerável influência cultural. Ele nos deixou um conjunto de textos e conferências que continuam sendo tema de estudo para as futuras gerações.

Um dos aspectos mais interessantes da trajetória de Estanislao Zuleta é que ele foi um autodidata que rejeitou a educação formal. Também fez da oralidade a sua principal via de comunicação de conhecimentos. Por isso, mais do que textos, a maior parte de sua obra é formada por conferências, muitas delas transcritas.

“A pobreza e a impotência da imaginação nunca se manifestam de uma maneira tão clara como quando tentamos imaginar a felicidade. Então, começamos a inventar paraísos, ilhas afortunadas, países fantasiosos. Uma vida sem riscos, sem luta, sem busca pela superação e sem morte. E, portanto, também sem carências e sem desejo”.
– Estanislao Zuleta –

Estanislao Zuleta analisou, primordialmente, a política, a educação e as relações de poder na América Latina. O seu enfoque era fundamentalmente ético. Foi simpatizante das teses de Freud e Lacan, mas deu uma interpretação própria às suas ideias. Esta é uma das características da psicanálise: diz-se que existem tantas psicanálises quanto existem psicanalistas.

O início de Estanislao Zuleta

Estanislao Zuleta nasceu em Medellín (Colômbia) no ano de 1935. Sua família tinha uma clara orientação para os livros e a cultura. O pai morreu em um acidente aéreo quando ele tinha apenas 5 meses de idade. Esse acidente foi muito famoso e deixou uma marca muito forte, porque no mesmo avião estava Carlos Gardel, o ídolo de tango.

Durante a sua juventude, Estanislao Zuleta decidiu abandonar a escola porque a considerava um instrumento que estagnava as suas capacidades em vez de potencializá-las. Desde então, começou um processo de formação autodidata que nunca terminou. Ele foi seduzido pelos ensinamentos dos gregos clássicos, de Nietzsche, de Marx e de Freud. Ele combinou de uma forma muito particular estas grandes vertentes de pensamento.

Estanislao Zuleta

Seu grande mentor foi Fernando González, conhecido como ‘El Brujo de Otraparte’. Este pensador colombiano se caracterizou pelas suas reflexões inteligentes e por escandalizar a sociedade conservadora da época, além de incentivar o livre pensamento e a livre expressão. Estanislao Zuleta foi, talvez, o seu discípulo mais célebre.

A plenitude do filósofo e psicanalista

Apesar de não ter uma formação acadêmica formal, Estanislao Zuleta foi professor universitário durante quase toda a sua vida. Em 1980, a Universidade do Vale (Cali, Colômbia) lhe concedeu o título de Doutor Honoris Causa em Psicologia. Ao receber este prêmio, Zuleta fez um dos discursos mais famosos de todos os que ele pronunciou. Chamava-se “O elogio da Dificuldade” e se transformou em um texto famoso que inspirou muitas gerações.

Sua vida pessoal não foi exatamente um monumento à ordem e à moderação, justamente o contrário. Foram famosos os seus excessos com o álcool, além de noites em claro e conversas com poetas, escritores e intelectuais até a madrugada.

Apesar de tudo, uma de suas grandes virtudes que todos sempre destacaram foi seu rigor com a leitura. Ele deu a ela um lugar preferencial na educação, na política e no pensamento. Uma de suas obras mais conhecidas e apreciadas é, precisamente, o ‘Ensaio sobre a Leitura’. Nela, o psicanalista exalta não só o fato de ler, mas a importância fundamental de digerir aquilo que é lido.

O cotidiano de uma obra vibrante

Estanislao Zuleta frequentava bares e cafés. Lá, ele se sentava e jamais rejeitava qualquer pessoa que quisesse acompanhá-lo na conversa. Outro de seus ensaios faz uma apologia à conversa, já que ele foi um excelente representante dessa arte. Ele propunha que, na troca de ideias com alguém que pensa diferente, o único comportamento ético é buscar todos os argumentos que permitam concordar com o interlocutor, em vez de contrariá-lo. Se esses argumentos não forem encontrados, pode-se continuar tranquilamente com a sua forma de pensar.

Ele acreditava que, com a psicanálise, era possível mudar o mundo, e se aventurou em várias reflexões do tipo psicanalítico aplicadas à sociedade. Uma de suas obras mais interessantes é ‘Sobre a Idealização da Vida Individual e Coletiva’. Nela, ele mostra que tentar construir “paraísos sociais” só leva a criar sociedades autoritárias, em nome da perfeição.

Biografia de Estanislao Zuleta

Um de seus grandes amigos, Jorge Vallejo, escreveu uma biografia de Estanislao Zuleta alguns anos depois da sua morte. Ela recebeu o título de ‘A Rebelião de um Burguês’. Nela, vislumbramos um homem cheio de contradições, mas com uma lucidez e generosidade sem limites.

Atualmente, existe uma corrente de pensamento dedicada exclusivamente a estudar a sua obra. É um pensador que, embora não seja tão famoso, vale a pena conhecer e analisar.