3 fábulas chinesas para refletir

abril 6, 2020
As três fábulas chinesas que escolhemos para este artigo falam de grandes valores. A primeira diz respeito à solução de problemas, a segunda fala que devemos aceitar o fluxo natural dos processos, e a terceira é uma crítica à sede de poder.

A maioria das fábulas chinesas tradicionais para refletir foram criadas há vários séculos. Elas se mantêm em voga até hoje porque são veículos ideais para transmitir valores, de geração em geração, de forma muito didática.

Quase todas estas fábulas falam do mundo rural. Elas se referem à vida no campo e a valores como o trabalho, a humildade e o respeito. Boa parte delas tem como ponto de referência os reis, os sábios e os homens comuns.

No entanto, ainda que sejam muito antigas, a maioria delas tem um ensinamento que pode ser aplicado na vida atual. Por isso, hoje trazemos três fábulas chinesas tradicionais com morais enriquecedoras.

Das alturas da razão, a história parece uma fábula“.
-Théodore Simon Jouffroy-

1. Uma descoberta surpreendente

A primeira das fábulas chinesas conta que havia um homem muito trabalhador em uma aldeia de camponeses. Ele possuía terras férteis mas era limitado por um grave problema: ele não tinha um poço. A água ficava muito longe do seu território e isso trazia grandes dificuldades para ele.

Todas as noites ele tinha que caminhar mais de três quilometros para ir até o poço mais próximo. Ele voltava muito tarde, de madrugada, com vasilhas cheias de água. Isso fazia com que ele pudesse suprir as suas necessidades básicas e alimentar a terra, mas era muito desgastante. Seus vizinhos não o ajudavam.

Cansado da situação, o homem decidiu cavar um poço. Era um trabalho muito difícil para uma pessoa só, mas ele não tinha outra opção. Ele ficou mais de um mês trabalhando nessa tarefa e finalmente a completou: agora ele tinha um poço do qual saía uma água límpida e fresca. Um vizinho, curioso, perguntou a ele sobre seu trabalho. O camponês respondeu: “Cavei um poço e no fundo encontrei um homem”.

A notícia se espalhou rapidamente pela aldeia. Causou tanta comoção que o próprio rei daquelas terras mandou chamar o camponês para que lhe explicasse o ocorrido. “Meu senhor”, disse ele. “Antes de ter o poço, meus braços estavam sempre ocupados levando e trazendo água. Agora, meus braços estão livres para trabalhar na terra, e eu recuperei o homem que sou”.

Planta crescendo diante do sol

2. Os brotos que não cresciam, uma das fábulas chinesas para refletir

A segunda das fábulas chinesas conta que existia uma pequena aldeia em algum lugar muito remoto da Terra. Lá, havia um homem um pouco ganancioso que vivia com sua família em relativa harmonia. Era próspero em suas colheitas, embora nunca ficasse satisfeito com o que obtinha.

Em uma certa ocasião, ele plantou as sementes na terra com um cuidado especial. Queria obter uma colheita de uma semente de trigo de terras distantes que tinha ganhado de presente. Asseguraram a ele que este era um trigo de qualidade superior, com espigas mais gordas e um sabor maravilhoso. Por isso, o homem ocupou toda a sua terra com esse cultivo e começou a fazer grandes planos para o futuro. Ele era muito ganancioso e pensava que, quem sabe, poderia até comprar mais terras e viver com mais luxos.

No entanto, as semanas passaram e as sementes não floresceram. Havia alguns brotos mas, apesar dos seus cuidados, eles cresciam muito lentamente. Ao ver isso, o homem começou a ficar desesperado. Não podia esperar tanto tempo. Por isso, ele decidiu fazer algo. A ideia que teve foi arrancar as pequenas plantas que estavam nascendo. Pensou que isso as ajudaria a crescer.

Na manhã seguinte, no entanto, todos os brotos amanheceram mortos. O homem esqueceu que essa era uma semente especial e que demorava um pouco mais de tempo para crescer. Não sabia que tudo tem seu tempo e que alterar os processos da natureza só nos leva ao fracasso.

3. O príncipe e as pombas

Havia um reino no qual habitava um príncipe nobre e sábio. A terceira das nossas fábulas chinesas nos conta que a harmonia reinava naquelas terras. Todos amavam os seus governantes e eles sempre respondiam com leis justas e uma ajuda para que todos prosperassem. Naquele lugar, havia um ritual muito particular: sempre que era Ano Novo, os camponeses davam pombas ao príncipe.

Pássaros brancos voando

Justamente nessa data, um estrangeiro passou por ali. O forasteiro ficou curioso para saber do que se tratava aquele estranho ritual. Ele pôde observar como gente de todos os cantos chegava com pombas para o príncipe. Ele ficou ali por um tempo, pois estava realmente intrigado para saber o que o príncipe fazia com esse presente tão peculiar. Foi então que ele presenciou o momento no qual o príncipe reuniu todas as pombas numa gaiola, e depois as libertou. Os presentes aplaudiam e assobiavam.

No entanto, naquele momento um idoso abriu passagem entre a multidão e respeitosamente pediu permissão para falar. O príncipe escutou com atenção. O idoso perguntou a ele quantas pombas ele tinha conseguido reunir. O príncipe disse que por volta de 200.

O idoso então disse: “Para te trazer essas 200 pombas, os homens saíram para caçar e mataram umas 600. Que mérito você tem por libertar aquelas que ficaram vivas?”. O príncipe compreendeu seu erro e proibiu o ritual. O estrangeiro ficou com uma grande lição aprendida naquelas terras.

Sem dúvida, essas fábulas chinesas nos fazem refletir e, em algumas ocasiões, nos convidam a questionar a visão que temos do mundo, da sociedade e de nós mesmos de uma forma geral. Não podemos nos esquecer de que a mensagem chega para cada um de uma determinada forma, e esse é o poder das fábulas, chinesas ou não.

  • Birrell, A. (2005). Mitos chinos (Vol. 12). Ediciones AKAL.