Faith Ringgold, uma mulher que abraçou o seu destino

outubro 1, 2019
Faith Ringgold utilizou seu talento para propagar sua experiência e dar visibilidade ao racismo na sociedade norte-americana. Descubra como esta artista criou arte a partir de sua própria experiência como vítima da discriminação racial.

Faith Ringgold é uma artista norte-americana conhecida por apresentar suas próprias formas de arte. Entre suas produções destacam-se as esculturas macias, ou seja, máscaras e colchas que ilustram contos.

A arte e o ativismo de Ringgold andam de mãos dadas. Sua arte atacou diretamente os preconceitos e sempre serviu como declaração política utilizando a força do choque dos insultos raciais.

Seu trabalho ressalta a tensão étnica, o descontentamento político e os distúrbios raciais dos anos 60. Suas obras proporcionam uma visão crucial das percepções da cultura branca em relação aos afro-americanos.

Fazer colchas tem raízes na cultura de escravos do sul, na era da Guerra Civil. Desse modo, a artista tomou o tradicional ofício de fazer colchas e reinterpretou sua função para contar histórias de sua vida e de muitos outros membros da comunidade negra.

Infância e juventude de Faith Ringgold

Faith Ringgold recebeu o nome de Faith Willie Jones e nasceu em 8 de outubro de 1930 na cidade de Nova York. Seu pai, Louis Jones, era motorista de caminhões, enquanto sua mãe, Willi Posey Jones, trabalhava como designer de moda.

Seus pais conseguiam ganhar o suficiente para satisfazer as necessidades básicas de seus três filhos.

Faith Ringgold não pôde ir regularmente à escola por problemas de saúde. Por ser asmática, passou a maior parte da sua infância em hospitais ou em casa. Durante esta fase, desenvolveu seu amor pelo desenho. Mais tarde, estudou arte no City College de Nova York.

Quadro de Faith Ringgold

Casou-se em 1950 com Robert Earl Wallace, um pianista de jazz, mas o casamento não durou muito tempo e eles acabaram se divorciando em 1956. Teve duas filhas com Wallace, Barbara e Michele. Faith voltou a se casar, desta vez com Burdette Ringgold, em 19 de maio de 1962.

Após a sua graduação, Faith trabalhou como professora de artes no City College de Nova York. Além disso, trabalhou no Wagner College e no Bank Street College of Education nas décadas de 60 e 70.

Primeiras obras plásticas da artista Faith Ringgold

No começo dos anos 70, abandonou a pintura tradicional e começou a fazer pinturas acrílicas sobre telas com exuberantes bordas de tecido, como as das thangkas tibetanas.

Além disso, trabalhou com sua mãe no design de máscaras elaboradas com tecido, miçangas e ráfia. Estas máscaras tinham suas raízes na tradição tribal africana e, atualmente, são conservadas como os primeiro trabalhos da artista.

Com a ajuda de sua mãe, Faith se envolveu na produção de retratos em tamanho real de personagens famosos, como Adam Clayton Powell, Wilt Chamberlain, jogadores de basquete e outras personalidades provenientes de Harlem; por essa razão, esta produção ficou conhecida como “The Harlem Renaissance”.

Ao mesmo tempo, Faith promoveu a arte africana na universidade. Em suas aulas, ela ensinou sobre design de jóias, roupas e miçangas de origem africana.

O tema político na obra de Faith Ringgold

Faith Ringgold sentia-se profundamente atraída por questões políticas, especialmente as vinculadas à exploração das mulheres. Estas motivações políticas estiveram, por sua vez, influenciadas pelo auge do Movimento pelos Direitos Civis.

A artista conseguiu transferir para a arte o sofrimento de uma comunidade que ela mesma viveu em sua própria pele.

“Me tornei feminista porque queria ajudar minhas filhas, outras mulheres e aspirar algo mais do que um lugar por trás de um bom homem”.
-Faith Ringgold-

Assim, Ringgold conseguiu dar visibilidade à injustiça social através das pinturas que fez na década de 60. Desde este período, suas obras de maior destaque foram American People e Flag Story Quilt.

Seu trabalho se inspirou principalmente nas obras dos escritores James Baldwin e Amiri Baraka. Ambos autores escreveram sobre a discriminação e a luta dos negros nos Estados Unidos.

“Nenhum outro campo criativo é tão fechado para quem não é branco e homem como as artes visuais. Depois que decidi ser artista, a primeira coisa que precisei acreditar era que eu, uma mulher negra, podia penetrar nesta área e que, além disso, poderia fazer isso sem sacrificar a minha negritude, a minha feminilidade e a minha humanidade.”
-Faith Ringgold-

As colchas de contos

Faith ampliou o campo das belas artes e conseguiu fazer com que a costura, o tecido e a composição de telas ecoassem no mundo artístico. Ela foi a primeira artista a desafiar estas limitações e elevar a arte do tecido nas instituições.

O conceito destas colchas evoluiu a partir da arte de tecido introduzida pelos escravos africanos na América. Eles usavam as colchas, além de seu propósito básico de esquecer, com o objetivo de conservar suas memórias. De alguma forma, estas “telas” funcionavam como quadros de mensagens.

O enfoque plástico de Faith promoveu o artesanato feminino através destas colchas narrativas. Nelas, mostrava uma série de imagens junto a descrições que narravam a história.

Echoes of Harlem foi a primeira de mais de 30 colchas feitas desde 1980. Cada uma delas é narrada adotando a estrutura dos contos infantis, e cada parte da colcha corresponde a uma página.

Uma de suas colchas de contos mais famosas é Tar Beach. Nela, é possível apreciar a representação de uma família reunida em sua varanda em uma noite quente de verão.

Os adultos conversam enquanto as crianças brincam e dormem em suas mantas. A filha sonha em voar livremente sobre todas as barreiras. Essa cena é emoldurada pela ponte George Washington ao fundo.

Algumas outras colchas populares de Faith são Who’s afraid of aunt Jemima? e Street Story Quilt. Who’s afraid of aunt Jemima? descreve a vida de uma mulher africana que se tornou uma grande mulher de negócios.

Apesar de viver em New York, o trabalho de Faith sempre esteve longe da arte norte-americana contemporânea. Isso se deve principalmente ao seu foco ser a cultura negra e a discriminação racial, por isso não é de se estranhar que suas obras não interessassem aos círculos mais conservadores e elitistas.

Obras de Faith Ringgold

Compromisso social e reconhecimentos

Faith também é conhecida por seu ativismo social, e lutou enormemente pelos direitos dos artistas africanos no Museu Whitney de Arte Americana em Nova York.

Sua luta se concretizou em atividades do Comitê de Arte de Mulheres fundado pela artista Poppy Johnson e pela crítica de arte Lucy Lippard. Como ativista social, usou a arte para fundar e fazer crescer organizações como Where We At, que apoiam as artistas afro-americanas.

Sua fundação Anyone Can Fly dedica-se a expandir o olhar da arte para incluir artistas da comunidade africana. Além disso, a fundação se dedica a apresentar os mestres da arte afro-americana para crianças e adultos.

Suas obras mais recentes abordam o preconceito de uma forma diferente; ela não usa mais as imagens de confrontamento para atacar os preconceitos, mas opta por subverter os preconceitos proporcionando modelos positivos aos jovens afro-americanos.

“Você não pode se sentar e esperar que alguém lhe diga quem você é. Você precisa escrever isso, pintar e fazer isso”.
-Faith Ringgold-

Faith Ringgold se tornou a primeira mulher negra a expor individualmente no The Spectrum Gallery, em Nova York, em 1967 e 1970.

Suas conquistas como artista, professora e ativista foram reconhecidas com inúmeras honras. Ela tem quase 75 prêmios, incluindo o reconhecimento de doutorado honorário em Belas Artes.

  • Farrington, L. E. (1999). Art on Fire: The Politics of Race and Sex in the Paintings of Faith Ringgold. Millennium Fine Arts Pub.
  • Tesfagiorgis, F. H. (1987). Afrofemcentrism in the Art of Elizabeth Catlett and Faith Ringgold. Sage, 4(1), 25.
  • Graulich, M., & Witzling, M. (1994). The freedom to say what she pleases: a conversation with Faith Ringgold. NWSA journal, 6(1), 1-27.
  • Millman, J. (2005). Faith Ringgold’s Quilts and Picturebooks: Comparisons and Contributions. Children’s Literature in Education, 36(4), 381-393.