Terapia de reminiscência: memórias e emoções que curam

junho 26, 2019
A terapia de reminiscência nos ajuda a iluminar o sentido da vida através das memórias e das emoções evocadas em cada fragmento da nossa biografia.

A terapia de reminiscência se coloca como uma abordagem muito positiva dentro do contexto da gerontologia. É um modo de integrar o passado ao presente através das lembranças e das emoções. Isso, de algum modo, devolve à pessoa a sua vitalidade e realidade.

Dessa forma, é possível fortalecer a identidade e iluminar o sentido da vida ao resgatar o que fomos ontem, resolvendo inclusive questões pendentes.

Um dos maiores desafios que nossa sociedade atual enfrenta é, sem dúvida, o envelhecimento da população. A expectativa de vida, como sabemos, está cada vez maior.

Nossos recursos médicos e sanitários, o estilo de vida e a alimentação fizeram com que conseguíssemos chegar a idades muito mais avançadas.

Agora, algo que por si só pareceria altamente positivo carrega também um desafio muito significativo: há algum modo de chegar a estas idades com uma maior saúde psicológica?

Sabemos que as demências do tipo Alzheimer e outras são condições que minam por completo a qualidade de vida dessa população. No entanto, a gerontologia também enfrenta outros problemas, como a solidão ou a insatisfação com a vida.

Frequentemente vemos pessoas que terminam sua vida profissional e se aposentam aos 60, 65 ou 70 anos, mas ainda têm cerca de 20 anos de vida ou mais pela frente. O modo de olhar para o envelhecimento está mudando, considerando idades muito mais avançadas já que hoje temos idosos muito mais velhos.

Por isso, muitas pessoas se veem obrigadas a repensar sua velhice e seu futuro, pois o modo como seus próprios pais um dia encararam a terceira fase da vida parece não fazer mais sentido.

“Precisamos de um segundo projeto de vida, e não só entretenimento para preencher de alguma forma o tempo livre que surge com a aposentadoria”.
-F. Javier González-

Casal de idosos felizes

A terapia de reminiscência: conceitos e estratégias

O célebre geriatra e psiquiatra Robert Butler (1963) foi o primeiro a descobrir o exercício da reminiscência como uma ferramenta psicológica útil e eficaz para os idosos. É um modo de rever a própria vida e de se adaptar a cada ciclo da nossa existência.

Ele a descreveu como um “retorno à consciência das experiências passadas e, mais especificamente, a problemas e conflitos não resolvidos, para olhá-los em perspectiva e dar a eles um novo significado“.

De alguma forma, e se pensarmos bem, esse exercício é algo que fazemos muito frequentemente ao longo das diversas etapas de nossas vidas. No entanto, já foi demonstrado que essa abordagem é muito benéfica principalmente quando chegamos a idades avançadas.

Além disso, estudos como os publicados na Revista de Neurologia, realizados pelos doutores Irazoki e García-Casal, revelam que a terapia de reminiscência é muito significativa também para os processos cognitivos que acontecem em pessoas com demência.

Vejamos mais detalhes.

Em que consiste esta terapia?

A terapia de reminiscência é uma técnica de estimulação cognitiva. Dessa forma, segundo Carvallo, Arroyo, Portero e Ruíz (2012) trata-se de um conjunto de atividades de intervenção neuropsicológica que buscam potencializar a neuroplasticidade no idoso – o que é especialmente útil em processos de comprometimento cognitivo.

  • Esse tipo de terapia pode ser desenvolvida de forma individual, com uma só pessoa, ou também em grupo.
  • São usadas fotografias, ou também é possível convidar diretamente a pessoa para evocar oralmente momentos do seu passado. É possível trabalhar a memória episódica (memórias pessoais e específicas como o nascimento do filho, trabalhos, viagens…), assim como com a memória semântica (dados históricos relevantes sobre os quais podemos falar).
  • O terapeuta deverá promover a experiência emocional de cada lembrança, bem como estimular que a pessoa trabalhe sua linguagem expressiva, compreensiva, a atenção focada…

O objetivo, como podemos imaginar, é promover uma revisão da vida, alcançando um significado existencial perante a experiência. Busca-se também resolver conflitos pessoais e alcançar uma paz interna adequada.

Adulto pegando na mão de um idoso

O que podemos conseguir com a terapia de reminiscência?

Quando trabalhamos ou compartilhamos tempo com pessoas idosas, há um fato que costuma ocorrer. Nem todos são conscientes das excepcionais proezas que realizaram na vida. Frequentemente, seus olhares só se situam no presente no qual, talvez, a solidão pese demais, assim como a doença e as dores.

É, portanto, necessário conseguir fazer com que os idosos alcancem a consciência dos seus feitos, seus sucessos, dos filhos que eles deram ao mundo, das dificuldades que conseguiram superar, do trabalho que foi realizado, da felicidade que sentiram a partir das coisas mais simples…

Conseguir que se conectem de novo com aquilo que foram, aquilo que arrancava um sorriso ou mesmo aquilo que um dia foi uma preocupação tão grande e que agora carece de relevância, é a chave para reconstruir e dignificar sua pessoa.

  • A terapia de reminiscência fortalece a identidade do idoso.
  • Ajuda a gerir lutos e assuntos não resolvidos do passado.
  • Melhora a autoestima.
  • Reduz a angústia vital e melhora a adaptação ao presente.
  • Otimiza a relação familiar ao encontrar esse significado vital de forma que, de algum modo, o resultado é recordar o quão importante são para os filhos, os netos, os irmãos, os amigos, etc.
Terapia de reminiscência

Para concluir, assim como pudemos ver, a terapia de reminiscência é uma grande ferramenta de intervenção em pacientes com comprometimento cognitivo.

É um modo de abrandar o processo na medida do possível, de melhorar os estados emocionais e de contribuir para a melhora da qualidade de vida nos idosos.

No entanto, retornando ao que falamos no início, caberia ainda destacar que necessitamos, sem dúvida, de outras abordagens, estratégias e tipos de assistência. Nossa população futura contará com um setor muito amplo de idosos e adultos com idades avançadas.

Eles merecem a melhor atenção e ferramentas para seguir aproveitando seu dia a dia do melhor modo e com a melhor assistência.

Não é necessário apenas entreter o aposentado ou aposentada. Devemos criar novos projetos que tragam mais dignidade a eles.

  • González-Arévalo KA. Terapia de reminiscencia y sus efectos en los pacientes mayores con demencia. Psicogeriatría 2015; 5: 101-11.
  • Subramaniam, P., & Woods, B. (2012). The impact of individual reminiscence therapy for people with dementia: systematic review. Expert Review of Neurotherapeutics12(5), 545–555. https://doi.org/10.1586/ern.12.35