Falar consigo mesmo: uma prática muito terapêutica

Falar consigo mesmo: uma prática muito terapêutica

janeiro 17, 2018 em Psicologia 3194 Compartilhados
Falar consigo mesmo: uma prática muito terapêutica

Falar consigo mesmo em voz alta tem pouco a ver com insanidade, bem como estabelecer um diálogo interno para diminuir tristezas e abrandar preocupações. Para além disso, poucas práticas são mais terapêuticas. Porque, afinal, todos vivemos com nós mesmos e se comunicar com seu próprio ser é algo vital, algo catártico e emocionalmente necessário para nos cuidarmos como merecemos.

Com grande acerto, Aldous Huxley dizia que há apenas uma pequena parte do universo que podemos conhecer em profundidade e melhorá-la, essa parte é nossa e nos pertence: nós mesmos. No entanto, por mais curioso que pareça, nem sempre damos a atenção que essa parte merece. Nós nos descuidamos como alguém que deixa seu diário pessoal na gaveta, como quem deixa as chaves de casa em bolsos alheios.

“Nem sequer o melhor explorador do mundo faz viagens tão amplas como o homem que desce às profundezas de seu coração.”
– Julien Green-

Além disso, conforme os psicólogos explicam, todos nós fazemos uso do diálogo interno; porém, fazemos da pior maneira possível. Um exemplo: Ethan Kross, conhecido cientista da psicologia emocional da Universidade de Michigan, se deu conta de que o ser humano é irremediavelmente propenso à auto conversação negativa.

Ele mesmo percebeu isso uma manhã enquanto estava atento ao seu celular. Sem se dar conta, ele atravessou uma faixa de pedestres com o semáforo vermelho. Depois de se esquivar por pouco de um carro que estava prestes a atropelá-lo, ele se surpreendeu ao pronunciar seu próprio nome em voz alta, recriminando o quão estúpido ele poderia ser.

A maioria de nós faz isso. Quando algo não sai como esperamos ou quando cometemos um erro, não demora para sair essa ávida voz da consciência dizendo o quão desajeitados ou inúteis somos. E é esse persistente diálogo interno negativo que nos leva a sérios estados de desamparo e a contornar perigosamente o abismo da depressão. Vamos evitar isso: mudemos o discurso.

Menina deitada em peixe voador

Falar consigo mesmo, o segredo para a saúde

O professor Ethan Kross, mencionado acima, realizou uma série de experimentos na Universidade de Michigan, com os quais concluiu algo tão interessante quanto útil: as pessoas que conversavam consigo mesmas e que começavam seus diálogos pronunciando seu nome tinham mais sucesso em suas vidas, mostravam maior segurança pessoal e aparentavam ser mais felizes.

Isso pode parecer ingênuo à primeira vista. Entretanto, conversar com si mesmo nos permite algo que não podemos deixar de lado. O cérebro funciona muito melhor, sua capacidade de percepção torna-se mais habilidosa e também administramos de forma adequada nosso mundo emocional. Portanto, não estamos frente a nenhuma fórmula sem embasamento. O diálogo interno tem um benefício claro comprovado pela ciência, e há muitos estudos que nos demonstram isso.

Vejamos mais dados em detalhes.

O diálogo consigo mesmo melhora nossa capacidade intelectual

Falar consigo mesmo não nos tornará mais inteligentes de um dia para o outro. O que vai acontecer é que melhoraremos nossa capacidade intelectual. Ou seja, potencializaremos nossa atenção, nossa capacidade de reflexão, decidiremos melhor, nossa concentração estará mais focalizada e controlaremos as distrações.

Algo tão simples quanto dizer a nós mesmos “Maria, concentre-se mais e pense sobre o que você vai fazer com esse problema” ou “Carlos, você está desperdiçando seu tempo inutilmente, acalme-se e reflita sobre o que está acontecendo” nos ajudará sem dúvidas a melhorar muitos de nossos processos cognitivos.

“Há três coisas extremamente duras: o aço, os diamantes e conhecer a si mesmo.”
– Benjamin Franklin – 

Mulher se pintando diante do espelho

Falar consigo mesmo melhora a autoestima

Cada um de nós vive em um determinado ambiente e com uma série de pessoas com as quais o mesmo fica melhor ou pior. No entanto, além de todo esse contexto, compartilhamos a vida com nós mesmos. Por que nos excluir então dessa equação? Por que não sairmos com nós mesmos durante o dia para tomar um chá ou um café e falar sobre como estão as coisas?

Ninguém nos chamará de loucos, e quem o faz certamente perde uma das melhores técnicas de autoajuda e de crescimento pessoal. Estas são algumas pequenas amostras disso:

  • Falar consigo mesmo nos permite “focar o momento presente com as emoções presentes” para tomar consciência delas, compreendê-las e gerenciá-las.
  • O diálogo interno também é uma poderosa fonte de motivação, a mais sincera, a mais confiável e a que nunca deve falhar. Então, mesmo nas situações mais adversas, nada pode ser mais energético do que dizer a si mesmo “Vá em frente, Angela, você está tendo dificuldades, mas você não pode desistir agora, vamos lá”
  • Por outro lado, algo que também nos explicam em uma publicação do “Quarterly Journal of Experimental Psychology” é que, ao falar em voz alta, ativamos um “interruptor” no córtex cerebral, onde se baseia a consciência do “eu”. Desse modo, desenvolvemos um controle psicológico melhor para pensar com maior clareza e de forma mais eficiente.
  • Igualmente, ao dar lugar a essa voz interior mais calma e segura, ganhamos perspectiva e relativizamos os pensamentos negativos e persistentes.

Menina com cabelos ao vento

Para concluir, algo que convém ter em mente sobre os benefícios de falar consigo mesmo é que isso só será possível se formos capazes de controlar a conversação interna negativa em primeiro lugar. Essa que pouco a pouco nos sussurra que “por mais que você tente vai dar errado” ou que “você se equivocou novamente, está claro que você não tem solução”.

Vamos evitar isso. Afinal, não há nada pior do que nos transformarmos em nossos piores inimigos. Recordemos, por exemplo, a maneira como Sócrates definiu os pensamentos: “são uma conversa honesta que a alma tem consigo mesma”. Procuremos então não maltratá-la. Vamos cuidar dela como o bem precioso que é e falemos com ela de forma positiva, construtiva e afetiva.

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