A felicidade é um estado, não uma imposição

A felicidade é um estado, não uma imposição

Maio 24, 2016 em Emoções 6 Compartilhados
Mulher na chuva sentindo felicidade

Cada vez chegam mais mensagens dizendo como devemos ser felizes, porque tudo o que temos é o presente para aproveitar.

Ser otimista é uma qualidade da personalidade tremendamente útil para enfrentar novas mudanças ou mágoas que acontecem na vida, mas ser positivo não é suficiente. O otimismo extremo é tão nocivo quanto o pessimismo extremo. Principalmente porque a imposição deste otimismo perpétuo desmoraliza algumas pessoas. A ditadura da euforia envergonha os que sofrem.

Neste artigo vamos procurar entender quais aspectos são fáceis de detectar para distinguir a ditadura da felicidade e a convivência democrática de diferentes emoções, entre elas a felicidade.

“A felicidade da vida consiste em ter sempre alguma coisa para fazer, alguém a quem amar e alguma coisa que esperar.”
– Thomas Chalmers-

A felicidade e a publicidade

A felicidade muitas vezes está sustentada por um suporte de grande escala: a publicidade. Dizem para nós o que temos que comprar, o que temos que fazer, todos os livros de autoajuda que devemos ler para sermos felizes. Apenas gente bonita, saudável e feliz aparece nas revistas e tem sucesso.

Essa gente bonita, feliz e eternamente sorridente, nos faz entrever a nossa “amargura”. Seria, portanto, interessante comprar ou fazer o que eles fazem e dizem para ter mais felicidade. Eu, assim triste… não me encaixo nesta sociedade.

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“A minha felicidade consiste em saber apreciar o que tenho e não desejar com excesso o que não tenho”
-Leon Tolstoi-

Qual deveria ser a postura adequada? Simplesmente comprar o que precisamos e o que se adéque ao nosso perfil e capacidade financeira, reconhecendo que são prazeres temporais mundanos. As pessoas, quando estão felizes, se empenham em mostrar isso, mas entre o que mostram e a realidade existe uma longa distância.

Trata-se de se divertir com certas mensagens, mas não devemos tomá-las como verdadeiras. Muitas destas mensagens doentias de “beleza” levaram a doenças como a anorexia e bulimia. Não devemos permitir que isso aconteça com o modelo de felicidade, vivamos as nossas vidas com naturalidade.

A felicidade não é estar isento de problemas

A felicidade é um estado, um fluir, um instante que a vida pode nos presentear a qualquer momento e em qualquer circunstância. Pensar que os momentos felizes só podem acontecer em circunstâncias ideais é negar a grandiosidade de um dia de chuva, que é cinzento e um tanto desconfortável, mas também hipnótico. Mais ainda se o contemplamos ouvindo alguma das musicas de Gymnopedie de Erik Satie.

Você nunca saberá quando irá aparecer um momento de felicidade, e também não sabe se, de uma situação indesejada, aparecerá um momento de felicidade. O que é certo é que uma atitude aberta fará com que você não perca nada que é positivo.

A felicidade de conseguir aceitar todas as emoções

Hoje, mais do que nunca, medicalizamos as nossas emoções. Se são tristes, as consideramos intoleráveis e queremos afastá-las o mais rápido possível da nossa existência. Se são alegres, queremos estimulá-las e externalizá-las até a exaustão, ignorando a característica fundamental de uma emoção: costuma ser intensa e ter um caráter temporal.

Queremos que as nossas mentes abriguem o positivo e penalizem e expulsem o negativo. Como então diferenciar um estado agradável de outro que não é? O que seria da nossa sobrevivência se não pudéssemos ter memória de lembranças negativas? Como teríamos evoluído como espécie e como seres humanos?

É preciso analisar-nos como pessoas complexas que somos, capazes de albergar diferentes emoções. Que venham todas as emoções a nós e que as abracemos: é a única forma de viver plenamente. Se só damos espaço a sentimentos de euforia, acabaremos com indigestão.

felicidade e emoções

A felicidade imposta, sem ideais, é decepcionante

Não existe luta ou sonho que não implique dedicação e renúncia. Mesmo que, às vezes, tenhamos paixão pelos nossos sonhos e eles possam até motivar esta renúncia, não a entenderemos como tal, e sim como uma forma de andar pelo caminho em direção a ele.

Contudo, claro que teremos que deixar em segundo plano certos aspectos que nos importam para alcançarmos uma meta maior. Esse tipo de renúncia não nos sufoca, mas renunciar a passar mais tempo com as pessoas que amamos pode nos causar medo e mal-estar.

“A felicidade não é fazer o que se quer, e sim querer o que se faz”
-Jean Paul Sartre-

Poderíamos decidir estar sempre felizes e, portanto, renunciar a metas que sabemos de antemão que irão criar momentos complicados. Contudo, essa busca obsessiva pela felicidade, por se sentir bem o tempo todo, não é sinônimo de saúde mental: uma pessoa também precisa de tensão na sua vida, de decepções e incertezas.

Sentir-se bem como norma cultural pode nos levar a perder o sentido. Uma pessoa que tem uma esperança e luta por um ideal irá suportar mais mal-estar do que outra que tenha assumido o desejo de estar feliz o tempo todo como condição imprescindível. Uma existência que pode já ter perdido a essência e sentido por querer vivê-la estando sempre feliz.

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