As feridas mais profundas não vêm das facas mais afiadas

As feridas mais profundas não vêm das facas mais afiadas

Janeiro 5, 2017 em Psicologia 3504 Compartilhados
As feridas mais profundas não vêm das facas mais afiadas

As feridas mais profundas não vêm das facas. Vêm das palavras, das mentiras, das ausências e das falsidades. São feridas que não se veem na pele, mas que doem, que sangram, porque são feitas de lágrimas tristes, dessas que se derramam na intimidade e com amargura silenciosa…

Quem foi ferido navega por um tempo à deriva. Mais adiante, quando o tempo costura um pouco essas fraturas, a pessoa percebe alguma coisa. Percebe que mudou, ainda se sente vulnerável, e às vezes comete o pior erro possível: criar uma sólida barreira de auto-proteção. Nela crava a desconfiança, logo o fio da raiva, e até o alambrado do rancor. Mecanismos de defesa com os quais evitar ser ferido mais uma vez.

Agora, ninguém pode viver eternamente na defensiva. Não podemos nos transformar em inquilinos das baias da nossa solidão, em expatriados da felicidade. Administrar o sofrimento é uma trabalho dilacerante e consciencioso, que como diria Jung, requer nos reencontrarmos com a nossa própria sombra para recuperar a autoestima.

Propiciar novamente essa união é uma coisa que ninguém poderá realizar por nós mesmos. É um gesto de delicada solidão que faremos quase em forma de iniciação. Somente aquele que consegue enfrentar o demônio dos seus traumas com coragem e determinação consegue sair renovado desse bosque de espinhos envenenados. A pessoa que emerge desse cenário hostil já não voltará a ser a mesma.

Será mais forte.

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O bálsamo da mente ferida

O bálsamo da mente ferida é o equilíbrio. É poder dar o passo para a aceitação para libertar tudo aquilo que pesa, tudo aquilo que dói. É trocar essa pele frágil e ferida por uma mais dura e mais bela que abriga o coração cansado de passar frio. Mas é preciso considerar que existem muitas raízes subterrâneas que continuam alimentando a raiz da dor. Ramificações que longe de drenar a ferida, a alimentam.

Odiar nossa própria vulnerabilidade é, por exemplo, um desses nutrientes. Há quem a negue, quem reaja frente a esta aparente fraqueza. Vivemos em uma sociedade que nos proíbe de sermos vulneráveis.

Contudo, um bálsamo para a mente ferida é aceitar suas partes mais frágeis, reconhecendo-se ferido, mas merecedor de encontrar a tranquilidade, a felicidade. O importante é gostar de si mesmo o suficiente para aceitar essas partes dilaceradas sem rancor. Sem se transformar em renegados do próprio afeto e do afeto alheio.

Outra raiz que alimenta a mente ferida é o ressentimento. Acredite se quiser, esta emoção tende a “intoxicar” nosso próprio cérebro a ponto de mudar nossos esquemas de pensamento. O rancor prolongado muda nossa visão da vida e das pessoas. Ninguém pode encontrar bálsamo algum no interior desta jaula própria.

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Essas feridas profundas e invisíveis habitarão para sempre o mais profundo do nosso ser. Contudo, temos duas opções. A primeira é sermos cativos da dor eternamente. A segunda é arrancar a couraça para aceitar e sentir a própria vulnerabilidade. Somente assim chegarão o fortalecimento, o aprendizado e o passo libertador para o futuro.

Todos estamos um pouco quebrados, mas somos todos corajosos

Todos arrastamos nossos pedaços quebrados. Nossas peças perdidas nesses quebra-cabeças que não conseguimos terminar. Uma infância traumática, um relacionamento amoroso doloroso, a perda de um ser querido… Dia a dia nos deparamos uns com os outros sem perceber essas feridas invisíveis. As batalhas pessoais que cada um conquistou definem o nosso perfil de agora. Fazer isto com coragem e dignidade nos enobrece. Nos torna, diante dos nossos próprios olhos, criaturas muito mais belas.

Seremos capazes de nos reencontrar. Os cantos quebrados do nosso próprio interior nos afastam completamente desse esqueleto interno no qual a nossa identidade se sustentava. Nosso valor, nosso próprio conceito. Somos como almas difusas que não se reconhecem no espelho ou que convencem a si próprias de que já não merecem amar ou ser amadas novamente.

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Dicas para curar as feridas com coragem

Em japonês existe uma expressão, “Arigato zaishö”, que literalmente se traduz como “obrigado esperança”. Contudo, durante muito tempo lhe foi dada outra conotação realmente interessante dentro do crescimento pessoal. Ela nos mostra a sutil capacidade que o ser humano tem de transformar o sofrimento, o rancor e as amarguras em aprendizado.

  • Abramos nossos olhos do interior para criarmos esperanças novamente. Porque focar na ruptura que as feridas produzem nos afasta completamente da oportunidade de adquirir conhecimento e perspicácia.
  • Para conseguir isto, é preciso ser capaz de evitar que os próprios pensamentos se transformem no martelo que, vez após vez, bate no mesmo prego. Pouco a pouco, o buraco ficará maior.
  • Deter os pensamentos recorrentes de angústia, rancor ou culpa é sem dúvida o primeiro passo. De forma semelhante, é bom também focar toda a atenção de amanhã.
  • Quando estamos nesse quarto escuro onde apenas nos acompanham a amargura e o rancor, as perspectivas de um futuro se apagam, não existem. Pouco a pouco nos acostumamos com a luz, com a claridade do dia, para criar novas esperanças, novos projetos.

É possível que ao longo da vida tenham nos “enterrado” com o véu da dor que essas feridas invisíveis provocam. Contudo, lembre-se: somos sementes. Somos capazes de brotar mesmo nas situações mais adversas para dizer em voz alta “Arigato zaishö”.

Imagens cortesia de Miho Hirano.

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