Frases de Bakunin: uma pequena grande revolução

dezembro 2, 2019
As frases de Bakunin nos aproximam da anarquia como posição filosófica. Ela não é caos, desordem ou libertinagem, e sim uma perspectiva que pretende instaurar o nível máximo de autonomia possível na sociedade.

As frases de Bakunin escandalizaram seus contemporâneos e, por mais estranho que pareça, continuam causando estupor em muitos. Este russo é considerado o pai do anarquismo e um dos expoentes mais firmes do ateísmo.

Mijail Bakunin foi um filósofo muito simpático, dado a amizades e à vida boêmia. Grande admirador de Hegel e crítico das ações despóticas do czar russo no século XIX. Também não foi muito afeiçoado às ideias de Karl Marx, que considerava autoritário.

Nas frases de Bakunin há reflexões sobre muitas realidades humanas. No entanto, é claro que ele dá uma ênfase especial ao tema do poder. Basicamente, questiona o poder do Estado e da religião. Estas são algumas de suas afirmações mais interessantes.

“Minha liberdade, minha dignidade de homem, meu direito humano, que consistem em não obedecer a nenhum outro homem e em não determinar meus atos de forma diferente das minhas próprias convicções”.
-Mijail Bakunin-

Não há autoridade infalível

“Não reconheço autoridade infalível. Uma fé semelhante seria fatal para a minha razão, para a minha liberdade. Me transformaria imediatamente em um escravo estúpido e em um instrumento da vontade e dos interesses alheios”.

Esta é uma das mais emblemáticas frases de Bakunin. Resume perfeitamente a sua postura diante do poder. É também uma afirmação na qual declara sua eterna irreverência diante de todo tipo de autoridade absoluta.

Se existisse uma autoridade infalível, a liberdade seria apenas uma palavra. Essa autoridade infalível seria a encarregada de dizer o que se deve e o que não se deve fazer. Para que usar a razão individual se a autoridade detém a verdade?

Sombra de homem

A pluralidade de deuses

“A pluralidade de deuses que os gregos tinham é uma garantia contra o absolutismo. Além disso, não existia essa contradição lógica moralmente monstruosa entre o bem e o mal”.

Esta é uma das frases de Bakunin que pode ser um pouco chocante para algumas pessoas. Muito além das convicções religiosas, o que esta afirmação propõe pode ser dividido em duas partes. Na primeira, torna equivalentes o monoteísmo e o absolutismo.

Na segunda parte, fala sobre o contraste entre o bem e o mal como uma contradição lógica e moralmente deplorável. Declara, assim, que o bem e o mal são conceitos relativos que nunca existem em seu estado puro. A verdadeira ética é reflexiva, e não preceptiva.

A liberdade coletiva nas frases de Bakunin

“A liberdade não pode ser mais alcançada do que em sociedade e na mais estreita igualdade e solidariedade de cada um com todos”.

Nesta afirmação, Bakunin faz referência a um fato fundamental. A liberdade é um bem que só existe em sociedade. Um indivíduo isolado não pode falar de liberdade, pois não existe um ponto de referência diante do qual ser livre.

A liberdade é social porque o poder também é um fenômeno social. Os dois conceitos se complementam e coexistem. Alguém é livre na medida em que há autodeterminação e que esta não implica exclusão ou isolamento.

Outra das frases de Bakunin sobre a liberdade

“Eu sou verdadeiramente livre quando todos os seres humanos que me rodeiam, homens e mulheres, são igualmente livres”.

Nesta frases, Bakunin insiste no significado coletivo da liberdade. Isso quer dizer que, quando a liberdade individual se baseia na opressão ou escravidão dos outros, não pode ser chamada de liberdade em sentido estrito.

Para que alguém seja plenamente livre, é necessário que não exista restrição das liberdade dos outros. Nesse sentido, uma sociedade livre é aquela na qual todos podem tomar suas próprias decisões sem estarem sujeitos aos demais.

O dever sagrado

“Considerei que o mais sagrado dos meus deveres era me rebelar contra toda opressão, independentemente de quem fosse o autor ou a vítima”.

Esta é uma das frases de Bakunin que transmite bem a sua filosofia do anarquismo. Diferentemente do que muitos pensam, o pai da anarquia não era um propagandista da desordem, e sim da autonomia e da autodeterminação.

A palavra anarquia se aplica atualmente de forma um pouco confusa. Muitos pensam que ela é sinônimo de caos e libertinagem. Em seu sentido essencial, esta postura advoga pela abolição de toda forma de autoritarismo.

As relações entre as pessoas

Liberdade política e liberdade econômica nas frases de Bakunin

“Liberdade política sem igualdade econômica é uma pretensão, uma fraude, uma mentira; e os trabalhadores não querem mentiras”. 

Esta é uma ideia do século XIX que se mantém vigente quase dois séculos depois, embora estejamos muito longe de ver suas condições transformadas em realidade. Fala da profunda correlação que existe entre o político e o econômico, particularmente em termos de liberdade.

A igualdade econômica é um dos ideais do socialismo. Mais do que um absoluto, se refere à ideia em torno da abolição de exploradores e explorados. Verdadeiramente, quem depende decisivamente dos outros para o seu sustento não tem liberdade política plena.

Um golpe é um golpe

“Quando o povo está sendo golpeado com uma vara, não será mais feliz se disserem que a vara é do povo”.

Esta poderia ser considerada uma das frases de Bakunin com maior visão de futuro. Na sua época, não existiam regimes socialistas ou comunistas. Eles surgiram no mundo mais adiante, embora apenas de maneira formal em muitas ocasiões.

Bakunin se adianta a isso e questiona a capacidade de repressão destes regimes que se fingem igualitários. Em muitas oportunidades, são poderes que agem em nome do povo, mas que se impõem de forma similar aos sistemas que criam ou mantêm a desigualdade.

A perspectiva de Bakunin poderia ser mais ética do que propriamente política ou econômica. Sua rejeição absoluta a toda forma de poder é mais ideal (utópica) do que uma realidade que possa estar ao alcance dos povos.

Ainda assim, continua sendo interessante ler e conhecer sua forma particular de pensar.

  • Bakunin, M. A., & Díaz, C. (1975). La libertad. Proyección.