Gênio Indomável, um filme que nos convida a refletir

29 Novembro, 2020
'Gênio indomável' nos apresenta um jovem violento de mente brilhante. Com seus diálogos, acabamos conhecendo em profundidade o passado atormentado do protagonista. Uma história claramente positiva com uma mensagem universal.

Por volta dos já antigos anos 90, o cineasta Gus van Sant contava com o apoio do público e da crítica nos círculos de cinema alternativo e independente. O cineasta possuía uma predileção por personagens marginais, por compartilhar as dificuldades de homens homossexuais e, inclusive, de ambientes tóxicos. Justamente por essa razão, foi bastante surpreendente quando Gus van Sant se desafiou a dirigir um filme tão conhecido e de sucesso como Gênio Indomável.

Era 1997, uma década na qual o cinema simples e claramente positivista inundava as telas norte-americanas. Neste sentido, Gênio Indomável é um filme com a clássica pegada dos anos noventa, com um enredo simples, sem muita intriga e com um desfecho previsível. No entanto, a mensagem nos conquista desde os primeiros minutos e nos convida a permanecer até o final.

O filme nos apresenta um jovem perturbado, carismático e com uma clara tendência para a violência. Will, contra todos os prognósticos, demonstra ter uma mente brilhante, um talento especial para a matemática e uma memória eidética.

Por conta de uma briga, Will terá problemas legais dos quais conseguirá sair com a ajuda do professor Lambeau, um ícone no campo da matemática que está disposto a lhe dar uma oportunidade.

A outra face da história é que o jovem deverá fazer terapia, mas não consegue bons resultados com nenhum psicólogo até que entra em contato com Sean, um antigo companheiro de Lambeau.

A história vai, de forma progressiva, nos apresentando os motivos que levaram Will a adotar seu comportamento violento, a não querer formar vínculos com nada nem ninguém. Robin Williams brilha de forma especial como Sean, um personagem que nos lembra bastante aquele que interpretou no filme A Sociedade dos Poetas Mortos, de Peter Weir, em 1989.

Um conjunto que funciona

Curiosamente, diferentemente de outros filmes similares, Gênio Indomável não provém de nenhum precedente literário; ou seja, trata-se de um roteiro original.

Naquela época, Ben Affleck e Matt Damon ainda não eram rostos tão conhecidos quanto são hoje. É verdade que ambos deram seus primeiros passos como atores com bastante sucesso mas, para muitos, eles ainda eram grande desconhecidos.

Diante de uma vontade de fazer algo diferente, algo em conjunto com os amigos, começaram a criar o roteiro de Gênio Indomável. Em um primeiro momento, o filme ia adotar um tom mais próximo do suspense policial, mas o resultado acabou se afastando bastante dessa ideia.

Além disso, a produtora demonstrou um certo receio em incluir os dois jovens atores no filme mas, por sorte, acabou cedendo. E dizemos “por sorte” porque um dos pontos mais fortes do filme recai, justamente, sobre as atuações. Já falamos sobre a excelente atuação de Robin Williams, mas a mensagem não teria penetrado tão profundamente apenas pelo trabalho de um único ator.

Na verdade, as cenas que Williams e Damon compartilham fazem parte do imaginário do cinema dos anos 90. Ambos interpretam perfeitamente seus personagens, tanto que seu relacionamento parece real.

Outro grande acerto que encontramos neste filme é sua trilha sonora, composta por um Danny Elfman que, nos anos 90, estava saboreando o gosto do sucesso. Talvez, em um primeiro momento, seu nome não nos diga muito, mas algumas das músicas mais conhecidas e amadas pelo público são assinadas por ele.

Suas colaborações com Tim Burton são extremamente conhecidas: Edward Mãos de Tesoura, Marte Ataca!, A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça, etc. Além disso, Danny Elfman também é o criador da conhecida sintonia de Os Simpsons. Em Gênio Indomável, Elfman consegue enfatizar as emoções dos personagens através da sua música.

Em suma, o filme possuía bons ingredientes que rapidamente o levaram ao sucesso. De 9 indicações ao Oscar, rendeu o prêmio de Melhor Ator para Robin Williams e de Melhor Roteiro Original para Damon e Affleck.

Cena do filme 'Gênio Indomável'

Gênio Indomável: uma mensagem clara

A história apresentada por Gênio Indomável funciona bem pois transmite uma mensagem positiva, otimista e de superação. Uma mensagem que, apesar disso tudo, pode acabar cansando a muitos pela sua previsibilidade nítida; no entanto, a forma como sua história se apresenta é muito eficiente.

O cinema norte-americano e de massas nos proporcionou uma infinidade de títulos desse tipo que, com o passar do tempo, acabaram caindo no esquecimento e se tornaram pouco credíveis, com mensagens que ficaram apenas na superfície .

Por que, então, Gênio Indomável sobreviveu bem ao passar do tempo? Porque possui um elenco que acompanha a força de seus diálogos, porque longe de mostrar uma mensagem cheia de artifícios, centra-se no lado humano de seus protagonistas.

Já vimos esta história infinitas vezes. A história do jovem que sobrevive nos subúrbios, atormentado pela escassez emocional e incapaz de controlar a seu comportamento violento que, finalmente, acaba superando os obstáculos e segue adiante. Não é nada novo , não é inovador e, ainda assim, nos cativa.

Memorável é a cena na qual, sentados em um banco, o personagem de Williams consegue deixar o jovem Will sem palavras, provando a ele que ninguém pode saber como ele se sente ou o que ele viveu e que, da mesma maneira, ele também não pode conhecer o resto do mundo.

Os livros e a filosofia nos ajudam a compreender e conhecer o mundo mas, no fim das contas, a verdade é que as experiências são próprias e subjetivas. Pouco por pouco, vamos assistindo ao progresso e ao processo de aprendizagem de Will.

O filme não mostra o jovem de forma superficial, mas nos aproxima dele através da figura do psicólogo. Um personagem terminará, eventualmente, abrindo seus olhos e sentindo empatia ele, pois, como todo ser humano, também carrega um fardo nas costas e também deve enfrentar seus demônios.

Esta mensagem de superação é capturada pelo espectador com muita facilidade. O conjunto do filme, apesar de não ter ação, termina nos entretendo e nos submergindo em uma espécie de reconciliação com o passado, de aceitação e perdão.

Um passado tempestuoso

O passado do protagonista tem consequências diretas em seu presente. Embora no início não entendamos bem o que acontece com Will, sabemos que algo aconteceu em sua infância, que o fato de ser órfão pode ter deixado sequelas irreparáveis.

Vemos isso em sua relação com os seus amigos, as únicas pessoas nas quais ele parece confiar, em sua atitude em relação ao trabalho e até em seu relacionamento com Skylar, uma jovem estudante de medicina.

Will parece não querer se envolver – nem sentimentalmente nem de qualquer outra forma – com nada nem ninguém. Ele prefere não ter responsabilidades, nem se deixa levar pelos seus sentimentos.

O abandono em sua infância lhe causou um medo irracional que o impede de manter algo estável em sua vida. Por isso, não quer ouvir as instruções do professor Lambeau, também não quer viajar com Skylar, e prefere seguir com sua vida como ele sempre fez..

A pressão social fica, por sua vez, retratada no filme. Às vezes, assumimos que uma pessoa com altas capacidades deve espremê-las ao máximo e desempenhar uma determinada profissão. Talvez devêssemos perguntar a nós mesmos quais são os desejos reais do indivíduo, e não o que nós consideramos melhor para ele.

Claramente, Will é especial, é um daqueles gênios que podemos contar com os dedos de uma mão entre toda a população do mundo, mas isso não significa que ele deva seguir um caminho específico.

Diante da pressão que Lambeau exerce, Sean reagirá a partir da compreensão, tentando fazer com que o jovem decida por si próprio o que é o melhor, que resolva seus conflitos do passado e construa seu próprio caminho.

Definitivamente, Gênio Indomável nos apresenta um filme absolutamente típico dos anos 90, positivo e com nada de novo. Mas sua importância se encontra na universalidade da sua mensagem, na forma como ele consegue transmitir emoções e, finalmente, no fato de conseguir transmitir uma mensagem otimista sem abrir mão do entretenimento.

“Nós escolhemos quem deixamos entrar em nosso mundo.”
– Gênio Indomável –