A gestão do delírio na terapia

novembro 21, 2019
A terapia de alguns transtornos do espectro da esquizofrenia se complica quando os delírios estão presentes. Sendo assim, apresentamos neste artigo algumas recomendações para que o delírio seja um obstáculo recuperável pela intervenção, para finalmente poder abordá-lo.

É possível convencer uma pessoa em delírio de que o que ela pensa não é real? Para colocar uma terapia em prática, é preciso fingir acreditar no delírio do cliente? É possível evitar que o terapeuta entre no delírio de seu cliente? Tentaremos responder a essas perguntas e esclarecer como ocorre a gestão do delírio na terapia, independentemente do transtorno que esteja sendo enfrentado dentro do espectro da esquizofrenia.

Os delírios podem estar presentes em alguns transtornos psicóticos ou do espectro da esquizofrenia. É o caso do transtorno delirante – que se caracteriza por ter apenas o delírio como sintoma psicótico -, do transtorno psicótico breve ou da esquizofrenia.

Os delírios são crenças errôneas e más interpretações das percepções ou experiências. Além disso, são pouco ou nada sensíveis a mudanças, mesmo que sejam encontradas evidências do contrário e que não sejam compartilhadas por outro indivíduo da sociedade.

Um exemplo de delírio pode ser o da mulher que pensa que seu marido é infiel. Embora não tenha provas e tudo que a realidade oferece não sugira uma infidelidade, ela acredita nisso.

Entretanto, devido às suas más interpretações da realidade – isto é, devido ao seu delírio – a mulher não é capaz de deixar essa ideia de lado e continua pensando nisso.

Mulher preocupada com dores de cabeça

A confusão entre delírio e alucinação

É importante, principalmente na terapia, não confundir delírio e alucinação. A alucinação se refere a uma experiência de acontecimentos sensoriais sem um sinal ambiental à vista.

São totalmente involuntárias e muito desagradáveis, disruptivas, e causam muito estresse para aqueles que a sofrem. As alucinações envolvem os sentidos sem que haja um estímulo real e externo que justifique essa ativação.

Às vezes, as alucinações estão presentes no delírio. Por exemplo, uma pessoa com pensamentos de perseguição pode ouvir vozes e pensar que as pessoas que a perseguem colocaram alto-falantes em sua casa para deixá-la louca. Nesse caso, a pessoa estaria sofrendo um delírio e uma alucinação.

No entanto, também pode haver apenas alucinações – vozes que não param de insultar o sujeito isento de delírio, sabendo que são alucinações – ou apenas delírio – sem alterações visuais, olfativas, táteis ou auditivas.

A gestão do delírio na terapia

Os objetivos da terapia para uma esquizofrenia ou para um transtorno delirante são, talvez, diferentes das outras intervenções. Nesse caso, é de suma importância ensinar o cliente e lidar com o estresse e diminuir a vulnerabilidade de ter uma alucinação, um delírio ou uma crise psicótica.

Para isso, busca-se diminuir a ativação, além de reabilitar funções básicas que foram alteradas com a chegada da psicose: atenção, percepção, cognição, raciocínio, aprendizagem, etc.

Por sua vez, também busca-se treinar habilidades sociais, solução de problemas, estratégias de enfrentamento e restaurar o funcionamento cotidiano. Entretanto, isso não é tão simples quanto parece. Como trabalhar tudo o que foi falado anteriormente se não se trata de um delírio em primeira instância?

Tratamento do delírio

A terapia cognitivo-comportamental tem a tática verbal como primeira arma para lutar contra o delírio.

Nessa tática verbal, moldada em formato de reestruturação cognitiva, busca-se discutir as evidências que a pessoa tem de que o delírio é verdade, oferecer explicações alternativas e permitir que a pessoa seja capaz de encontrar essas explicações. Além disso, também são realizadas provas de realidade, caso seja possível.

No entanto, os fatores cognitivos envolvidos nas crenças de perseguição muitas vezes dificultam que a pessoa seja capaz de entender e encontrar as evidências. Portanto, muitas vezes as táticas verbais não são inteiramente úteis a princípio se esses vieses de atenção não forem abordados.

Embora precisem ser trabalhados na terapia, não será curto o tempo em que o terapeuta terá que conviver com esse delírio antes de poder mergulhar em seu conteúdo e nos testes de realidade.

Fingir acreditar ou não acreditar

Uma das posturas que podem ser adotadas na gestão do delírio na terapia é a de fingir acreditar no delírio da pessoa para fortalecer o vínculo terapêutico e fazer com que o cliente confie plenamente no terapeuta.

Isso não é nada recomendável, porque não buscamos reforçar a crença no delírio com uma prova de que alguém além do cliente também acredita no delírio.

Por isso, nem no princípio da terapia o terapeuta pode explicitar que acredita nas coisas que o cliente conta.

Entretanto, é realmente interessante fomentar o vínculo terapêutico. É provável que todo o círculo social e familiar do cliente com delírios já tenha tentado refutá-lo com evidências.

Sendo assim, o ideal é que o cliente não passe pela mesma situação na terapia; o terapeuta não vai conseguir formar um bom vínculo transitando por caminhos que os outros já percorreram. Por essa razão, a princípio é recomendável não entrar no conteúdo do delírio. Acreditar, apesar de não acreditar.

Não explicitar nenhum julgamento sobre o delírio será uma “tentação” na qual não cairemos até que o cliente esteja preparado para enfrentar a tática verbal. Além disso, qualquer intervenção será melhor se houver um vínculo entre o cliente e o terapeuta.

Uma coisa é certa: não conseguiremos construir esse vínculo dizendo que o que ele pensa não é real.

O psicólogo como outro ator na gestão do delírio

O delírio na terapia é colocado como problemático quando, após nossa recusa em acreditar, o cliente pensa que o psicólogo também está dentro do seu delírio.

Embora isso não aconteça com um delírio somático – quando uma pessoa acredita que seu corpo mudou, seu rosto está quadrado, seu braço é mais longo que o outro – ou um delírio de culpa – a pessoa pensa que cometeu um pecado terrível imperdoável – , poderia acontecer em um delírio de controle do pensamento, grandeza ou perseguição.

No caso do primeiro – delírio de controle de pensamento -, o sujeito pode acreditar que alguém está introduzindo em sua mente pensamentos que não são seus – esse delírio é conhecido como do tipo “inserção”.

Quando o cliente entende que o psicólogo é outra pessoa que não acredita nele e que seu objetivo é trazer provas de realidade pouco confiáveis, é possível que essa pessoa introduza o terapeuta em seu delírio.

Assim, o terapeuta passará a fazer parte dessa organização que age contra seus interesses e não poderá ajudar o cliente. É muito importante evitar isso!

É difícil que uma pessoa com delírio vá por conta própria para a terapia, e muito mais que a terapia dê frutos se a pessoa pensar que o psicólogo também está contra ela. Por isso, antes de entrar na tentativa de demonstrar que o que ela diz é impossível, recomenda-se ter paciência e não ir muito rápido.

É melhor, portanto, focar na parte cognitiva sem prestar atenção no delírio.

Como ocorre a gestão do delírio na terapia?

Jogar dentro do delírio

O fato do delírio e das crenças errôneas serem persistentes não quer dizer que a terapia seja inútil. Como entre os principais objetivos da terapia está melhorar o funcionamento e bem-estar da pessoa, o terapeuta pode se introduzir no delírio e trabalhar a partir dali.

Se a pessoa tiver um delírio de referência, no qual pensa que alguns detalhes, frases ou acontecimentos são mensagens dirigidas a ela, pode-se falar do impacto emocional dessas frases, do porquê a afetam e o que significam para ela, o que faz com que uma pessoa diga esse tipo de mensagem que ela escuta.

Em nenhum momento devemos acreditar no delírio e isso não deve ser explicitado. Trata-se de fazer uma reestruturação em um contexto diferente da “realidade”. Isso é feito na sua realidade.

Assim, não se concentrando tanto em negar ou não o delírio, mas em pará-lo e prestar atenção ao impacto emocional e cognitivo das mensagens desse delírio, pode-se obter uma melhoria. Por isso, nem sempre as melhores intervenções de gestão do delírio são as que atacam diretamente o problema.