O grito: uma forma de comunicação em muitas famílias

· setembro 10, 2017

O grito irrita o nosso cérebro, nos coloca em alerta e ataca o sutil equilíbrio das nossas emoções. Infelizmente, esta forma prejudicial de comunicação baseada em um tom de voz alterado é muito comum em várias famílias. Assim, o mal-estar e as agressões invisíveis afetam as pessoas provocando sequelas muito profundas.

O genial Jardel Poncela dizia que quem não tem nada a dizer, grita. No entanto, por mais curioso que pareça, há pessoas que não entendem outra forma de comunicação: gritam para pedir a roupa que está na sua frente, para chamar a atenção do filho que está ao seu lado ou mesmo para comentar o programa de televisão que está vendo com a família. Há pessoas que não sabem como se comunicar sem ansiedade, as suas ou as que projetam.

“Os homens gritam para não ouvirem o que dizem”.
 – Miguel de Unanmuno –

“Não posso evitar”, se justificam. Não conseguem evitar; levantar a voz está fora do seu controle porque é o timbre e o tom que ouviram desde a infância, porque através do grito conseguiram ser notados, marcaram território para mostrar autoridade e também, porque não, para canalizar a raiva, as frustrações e egos contidos à procura de válvulas de escape.

Nós sabemos que não adianta gritar para sermos ouvidos. Mas muitas vezes é necessário gritar porque é a única frequência que conhecemos para nos comunicarmos. Se você gritar, é muito provável que o outro responda da mesma maneira, dando lugar a uma dinâmica de relacionamento desordenada e coerciva.

Algo que, infelizmente, acontece em muitas famílias…

Leões bravos

O grito destrói silenciosamente os nossos relacionamentos

O grito, muito além do que pode parecer, tem um propósito muito específico na própria natureza, tanto dos seres humanos quanto dos outros animais: defender a nossa sobrevivência e a do grupo diante do perigo. Vamos dar um exemplo simples: estamos no meio da selva caminhando, desfrutando de um equilíbrio natural, e de repente ouvimos um grito. É um macaco-prego que emite um grito agudo que atinge o nosso cérebro.

Agora, esse grito não serve apenas como um “alarme” para o seu próprio bando. A maioria dos animais da selva, assim como nós, reagem com medo, com expectativa. É um mecanismo de defesa que controla uma estrutura muito específica do nosso cérebro: a amígdala. Basta ouvir um som ou uma voz aguda para que essa pequena área do cérebro a interprete instantaneamente como uma ameaça e ative o nosso sistema nervoso simpático para ativar a fuga.

Sabendo disso e entendendo esta base biológica e instintiva, podemos deduzir que, quando a pessoa cresce em um ambiente onde os gritos são constantes e onde a comunicação sempre ocorre com um alto tom de voz, o seu cérebro está em um estado de alarme constante. A adrenalina está sempre alta, a sensação de que devemos nos defender de “algo” nos coloca em um estado de estresse crônico, de angústia permanente e inquietante.

Como o cérebro reage ao grito

Por outro lado, o que intensifica ainda mais essa realidade é que um estilo de comunicação agressivo normalmente gera respostas defensivas com a mesma carga emocional, com o mesmo componente ofensivo. Desta forma, caímos consciente ou inconscientemente em um círculo vicioso e em uma dinâmica destrutiva onde todos acumulam sequelas nesta complexa selva das relações humanas onde a qualidade da comunicação é fundamental.

Famílias que se comunicam com gritos

Laura tem 18 anos e acaba de perceber algo que não tinha notado antes: fala em um tom de voz muito alto. Os seus colegas da faculdade sempre dizem que sua voz é a mais ouvida na sala de aula e que, quando estão em um grupo, a sua maneira de se comunicar parece ameaçadora.

“Todos os gritos nascem da própria solidão”.
 – León Gieco –

Laura quer controlar esse aspecto da sua personalidade. Ela sabe que não será fácil, porque na sua casa seus pais e irmãos sempre se comunicam desta maneira: com gritos. Não há necessidade de qualquer discussão, simplesmente esse é o tom de voz com o qual ela cresceu e se acostumou a ouvir. Ela também sabe que na sua casa, quem grita é aquele que se faz ouvir, e que é necessário levantar a voz porque a televisão está sempre ligada, porque cada um está distraído com os seus afazeres e porque não existe harmonia.

Neste caso, Laura precisa entender que não pode mudar uma dinâmica familiar de um dia para o outro. Ela não pode mudar os outros, nem seus pais e nem seus irmãos, mas pode mudar a si mesma. O que ela pode e deve fazer é controlar cognitivamente seu próprio estilo verbal para entender que quem grita agride o outro. Ninguém precisa aumentar a voz para ser ouvido e, muitas vezes, um tom de voz sereno e calmo produz melhores resultados.

As consequências do grito como forma de comunicação

Com este exemplo simples, queremos deixar algo muito claro: às vezes não podemos mudar quem nos educou, não podemos mudar o nosso passado ou apagar essas dinâmicas familiares onde o grito estava sempre presente, mesmo que fosse apenas para nos perguntar a hora ou como tínhamos nos saído na prova.

Não podemos mudar o passado, mas podemos evitar que esse estilo de comunicação nos caracterize no nosso presente, nas nossas relações de amizade ou de casal, nas nossas próprias casas. Lembre-se de que aquele que grita nem sempre é quem tem mais razão. Muitas vezes é mais inteligente quem sabe se calar e ouvir, e mais sábio ainda é quem sabe como e de que forma se comunicar.