Guarda compartilhada ou unilateral: o impacto na criança

29 Maio, 2020
A guarda compartilhada é o tipo menos escolhido por muitos pais em processo de divórcio. No entanto, o que os dados nos dizem sobre os seus benefícios e dificuldades?

O divórcio é um daqueles eventos capazes de gerar um grande número de emoções. Nesse contexto, a psicologia jurídica presta uma atenção especial a uma das partes mais vulneráveis: as crianças. Quando um casal se separa, surgem muitas perguntas em torno dos filhos: “Onde eles vão morar?”, “Quantas vezes vão ver cada um de seus pais? Devemos escolher a guarda compartilhada ou unilateral?”

Embora as condições nem sempre permitam, às vezes fica nas mãos da emoção um problema que pode ser resolvido pelos psicólogos: apesar das diferenças, se o caso permitir, a guarda compartilhada é recomendada? A unilateral pode não ter nenhum impacto na criança? Existem diferenças em seu bem-estar comparando os dois casos?

Os efeitos da guarda compartilhada na família

O que a literatura científica diz sobre isso?

Tejeiro e Gómez (2011) elaboraram uma meta-análise, Divorcio, custodia y bienestar del menor: una revisión de las investigaciones en Psicología, e suas pesquisas concluíram algo que a comunidade científica parecia esperar: existem diferenças no bem-estar da criança se esta estiver envolvida em um processo de guarda compartilhada ou unilateral.

Ambos os autores destacam aquilo que Bauserman (2002) já afirmou após selecionar 33 estudos com os melhores atributos paramétricos: as crianças em guarda compartilhada estavam melhor “adaptadas” do que aquelas em situações de guarda unilateral. Ele comparou a adaptação de crianças em guarda compartilhada com a apresentada em famílias intactas. Essa pesquisa é apresentada no final do artigo.

Algumas das diferenças entre as guardas que as várias meta-análises revisadas sugerem são:

  • Maior envolvimento dos pais com guarda compartilhada.
  • Menos depressão em caso de guarda compartilhada.
  • Mais problemas de adaptação emocional na guarda unilateral.
  • Menos rivalidade entre irmãos e maior autoestima na guarda compartilhada.
  • Maior tendência da criança de sentir-se rejeitada por um dos pais na guarda unilateral.
  • Melhor autoconceito, locus de emoção e relacionamento com os pais na guarda compartilhada.

Outros estudos revisados, no entanto, também incluem resultados em que o tipo de guarda não tem efeito sobre a saúde emocional das crianças.

Os efeitos da guarda compartilhada na família

A guarda compartilhada parece benéfica não apenas para os filhos, mas também para os pais separados. Assim a concebe Marín Rullán (2015), que afirma que baixos níveis de conflitos e altos níveis de comunicação representam um padrão cooperativo nos pais, graças ao qual eles têm níveis mais altos de satisfação do que os pais que não o apresentam.

O conflito entre os pais é, talvez, o que mais causa um impacto negativo sobre os filhos. Portanto, muito do bem-estar deles envolve a capacidade de ambos os pais se darem bem. Muitas vezes, embora se possa pensar que a guarda compartilhada é a melhor alternativa para a criança, ela também pode levar a um maior contato entre duas pessoas cujo relacionamento está deteriorado. No entanto, Tejeiro e Gómez também incluíram essa variável em sua meta-análise, constatando que a guarda compartilhada diminui o nível de conflito entre os pais.

Outra dúvida que a guarda compartilhada pode suscitar é em relação à obrigação de ver um ex-marido ou ex-esposa a cada determinado período e de não ser capaz de curar feridas abertas. Estudos sugerem que isso nada mais é do que um medo irracional. O nível de afastamento dos pais, medido por Pearson e Thoennes (1990), tende a aumentar após dois anos, independentemente do tipo de guarda.

O que acontece com essas famílias 12 anos depois?

Essa foi a pergunta que Emery, Laumann, Waldron, Sbarra e Dillon (2001) se fizeram quando decidiram analisar o que acontecia nas famílias daqueles pais que tiveram que escolher entre guarda compartilhada e unilateral (na segunda, os conflitos entre os pais eram maiores). Entre as conclusões a que chegaram, a mais impressionante foi de que os pais das crianças que viviam sob guarda unilateral estavam muito pouco envolvidos na vida do outro.

Além disso, esses autores descobriram que os pais com guarda compartilhada tendiam a fazer mais mudanças em suas vidas e, portanto, também na vida da criança. No entanto, isso não implicava maiores conflitos entre os pais, já que estava relacionado a aspectos como flexibilidade e cooperação.

O impacto na adaptação da criança

Bauserman, em sua meta-análise Child Adjustment in Joint-Custody Versus Sole-Custody Arrangements: A Meta-Analytic Review, mede os níveis de adaptação da criança nos diferentes tipos de guarda. A adaptação a que se refere inclui:

  • Adaptação comportamental: transtornos de comportamento.
  • Adaptação emocional: depressão, ansiedade, problemas no locus de controle, autoconceito…
  • Autoestima.
  • Relações familiares e parentais.
  • Rendimento acadêmico.

A constatação de que todas essas categorias se apresentam mais altas na criança em guarda compartilhada do que na guarda unilateral sustenta que a primeira tem um impacto mais positivo na criança do que a segunda.

Menina triste com a mão no rosto

Guarda compartilhada: benéfica e complicada

Após um processo complicado, sofrido e que às vezes marca muito os envolvidos, talvez a guarda compartilhada não seja a escolha que os pais prefiram em um primeiro momento. Mesmo que seu interesse seja o de garantir que seu filho tenha a vida mais normal possível, eles não sabem como gerenciar essa guarda.

Em relação a essa dificuldade, Marín Rullán parece claro:  quatro fatores cuja presença pode marcar o sucesso ou o fracasso da guarda compartilhada. São eles:

  • Comprometimento e dedicação: além das disposições de um tribunal.
  • Apoio ao outro progenitor: respeito pelo vínculo entre o outro progenitor e o filho, e envolvimento ativo e separado de ambos os pais.
  • Distribuição flexível de responsabilidades.
  • Características psicológicas: os comportamentos cooperativos tendem a emanar mais de pessoas que não são narcisistas ou vulneráveis, que são empáticas e têm atitudes parentais positivas.

Sabendo dos resultados que derivam de ambos os tipos de guarda e levando em consideração as experiências de pais e filhos, talvez a questão não seja a escolha entre a guarda unilateral ou compartilhada, mas como fazer os pais adquirirem as habilidades necessárias para lidar bem com a guarda compartilhada após o divórcio.

  • Bauserman, R. (2002) Child Adjustment in Joint-Custody Versus Sole-Custody Arrangements: A Meta-Analytic Review. Journal of Family Psychology, 16(1), 91-102.
  • Emery, R., Laumann, L., Waldron, M., Sbarra, D. & Dillon, P. (2001). Child Custody Mediation and Litigation: Custody, Contact, and Coparenting 12 Years After Initial Dispute Resolution. Journal of Consulting and Clinical Psychology, 69(2), 323-332.
  • Marín Rullán, M. (2015). La influencia de las actitudes parentales sobre el bienestar del menor y la elección preferente de la custodia compartida: una disertación. Psicopatología Clínica, Legal y Forense, 15, 73-89.
  • Tejeiro, R. y Gómez, J. (2011) Divorcio, custodia y bienestar del menor: una revisión de las investigaciones en Psicología. Apuntes de Psicología, 29(3), 425-434.