Como os pais afetam a nossa saúde mental?

· outubro 30, 2018

O ambiente familiar pode ser um substrato envenenado capaz de gerar muito sofrimento. Muitas vezes, os pais afetam nossa saúde mental: há dinâmicas nas quais eles nos inserem desde cedo em situações de estresse, angústia, humilhação ou desamparo. São realidades difíceis que nos acompanham na idade adulta.

Oscar Wilde afirmou em uma de suas obras que quase ninguém sabe o que acontece dentro de um lar. Muitas vezes, uma casa com suas janelas e portas fechadas é o cenário ideal para que aconteça a história mais aterrorizante, na qual a mãe, o pai ou qualquer outro familiar dá forma a um drama invisível, que muitas vezes passa despercebido pelo resto da sociedade.

Além disso, há um fato que não deve passar despercebido. O impacto de uma criação deficiente e o consequente dano psicológico podem ser transmitidos de uma geração à outra, conforme definido em um estudo da Dra. Anne-Marie Conn, do Centro Médico da Universidade de Rochester.

Ou seja, os traumas gerados pela falta de apego, o abuso, a violência física ou psicológica ou qualquer outra condição que afete o desenvolvimento psicoemocional da criança não param por aí.

Eles transcendem, afetam a saúde mental, alteram, inclusive, nosso desenvolvimento cerebral e podem até levar a transtornos psicológicos que, por sua vez, podem afetar a educação dos filhos.

“A saúde mental precisa de muita atenção. É um grande tabu que tem que ser enfrentado e resolvido”.
-Adam Ant-

Quando os pais afetam nossa saúde mental

Quando os pais afetam nossa saúde mental

De uma forma ou de outra, os pais afetam nossa saúde mental. Assim, um ambiente familiar seguro, rico em nutrientes emocionais e favorecedor de identidades e autoestima nos dará a oportunidade de chegar à idade adulta com habilidades psicológicas excepcionais.

Por outro lado, os estilos de criação deficitários aumentam a probabilidade de que nosso tecido psicológico seja seriamente afetado.

Além disso, sabemos que, atualmente, a principal causa dos problemas emocionais e comportamentais das crianças mais novas ainda são o ambiente familiar e as dinâmicas nele envolvidas.

De fato, um estudo publicado recentemente no Journal of Family Psychology e realizado pela Universidade do Texas mostrou que uma simples palmada no bumbum pode ter consequências muito negativas.

Qualquer gesto, palavra e comportamento em que a agressividade esteja implícita ou explícita deixa uma marca, altera o comportamento da criança e, o pior de tudo: essa ação fica impressa no cérebro da criança.

Assim, quando elas crescem nesses ambientes ou sob a sombra de certas estratégias educacionais que os pais assumem como adequadas, mas que não são (palmadas, estilos agressivos de comunicação, educação autoritária…), geralmente apresentam certas características:

  • Baixa autoestima.
  • Assumem que as próprias necessidades não são importantes.
  • Entendem que expressar as emoções é algo negativo e incorreto.
  • Aceitam que essas dinâmicas (agressividade, abuso, falta de respeito…) são comuns e até permissíveis.
Menina triste

Por outro lado, o fato de crescer nesses contextos faz com que cada experiência se cristalize de uma maneira determinada.

Haverá, sem dúvida, alguém que superará o peso dessa sombra obscura de sua vida. No entanto, boa parte das pessoas é mais vulnerável e verá sua saúde mental seriamente afetadaVejamos de que maneira.

Maneiras como os pais afetam nossa saúde mental

Uma das formas mais comuns por meio das quais as pessoas acabam manifestando o impacto de uma infância traumática, assim como de uma família disfuncional, é através do estresse crônico.

Estados de estresse permanente

Quando uma criança vive em um ambiente instável, onde não sente o apego de uma figura de referência, onde se sente insegura e não amada, ela sofre de estresse.

Esse tipo de estresse é agudo no início, mas à medida que se prolonga no tempo, adquire um estado mais incisivo, latente e permanente.

Assim, o estresse crônico acaba, inclusive, por alterar a funcionalidade do cérebro, afeta a atenção, a memória, muitas vezes se traduz em hiperatividade, em má gestão emocional…

Relacionamentos codependentes

Experimentar essa falta de afeto precoce faz com que muitas dessas pessoas desejem fortes relações emocionais, nas quais se sintam validadas e seguras.

No entanto, o medo constante de perder esse vínculo as mergulha em estados obsessivos, no medo que as leva a cair em vínculos codependentes.

Os pais afetam nossa saúde mental de muitas maneiras diferentes. Entender que o estilo de criação e a educação têm um sério impacto na vida da criança (e do adulto de amanhã) é algo com o que todos deveríamos nos preocupar diariamente, através de comportamentos, da linguagem e do exemplo dado.

Angústia permanente e desamparo

Crescer sem a segurança de uma família afetuosa, de um ambiente enriquecedor para desenvolver uma identidade forte, favorece o surgimento de sérias deficiências psicológicas.

A autoestima falha e, acima de tudo, a esperança falha. Assim, é comum experimentar um pessimismo crônico e uma angústia que sinaliza uma ausência.

Além disso, o desamparo aprendido é uma realidade psicológica bastante comum. A pessoa assume que qualquer coisa que faça não mudará nada. Ele ou ela assume que carece de controle sobre sua própria vida.

Mecanismos psicológicos para “esconder” um passado traumático

A mente é hábil. O cérebro muitas vezes não consegue lidar com o peso do trauma e faz uso de determinados mecanismos psicológicos para enfrentar o dia a dia sem que essa sombra ofusque a realidade.

No entanto, o que ele faz é focar os quadros patológicos que definem os transtornos psicológicos. Os mais comuns são os transtornos dissociativos: trata-se de um tipo de alteração onde a identidade, a memória e a percepção do ambiente são afetadas. 

É um efeito do estresse pós-traumático muito comum e que tem como origem o já mencionado peso de um trauma.

Passado traumático

Para concluir, como podemos ver, os pais afetam nossa saúde mental de muitas maneiras diferentes. Sair desses buracos negros requer mais do que apenas tempo.

Implica coragem, implica ter força e nos permitirmos contar com uma ajuda profissional e especializada que nos apoie quando se trata de recuperar o controle e criar uma realidade mais saudável, digna e satisfatória.