Hannah Arendt: a biografia de uma pensadora pluralista

julho 23, 2019
Hannah Arendt foi perseguida por ser judia e também por ser alemã. Por muitos anos ela foi uma apátrida. Talvez por isso tenha desenvolvido um pensamento pluralista, longe do totalitarismo e ligado à democracia direta.

Hannah Arendt foi uma das maiores pensadoras do século XX. Embora fosse considerada uma filósofa, ela rejeitou essa categorização. Talvez ela fosse conclusiva e limitada demais para uma intelectual que teve interesses amplos e explorou diferentes áreas.

Pode-se dizer que Hannah Arendt foi uma das maiores especialistas em história sobre a questão judaica. Ao contrário de outros pensadores, ela abordou o assunto com muita amplitude e senso crítico, embora fosse de origem judaica e se definisse como judia, mesmo não sendo uma praticante da religião.

“O revolucionário mais radical se tornará um conservador no dia seguinte à revolução”.
– Hannah Arendt – 

Sua obra ‘As Origens do Totalitarismo’ é um verdadeiro clássico da teoria política. É um texto de quase mil páginas, no qual expõe o desenvolvimento histórico do antissemitismo, do racismo e do imperialismo.

No fim, descreve o que ela chama de “dominação total”, incorporada no nazismo e no stalinismo.

Hannah Arendt

Uma jovem brilhante

O primeiro nome de Hannah Arendt era, na verdade, Johanna. Ela nasceu em 14 de outubro de 1906 em Linder-Limmen (Alemanha). A sua família era judia e veio de uma região da Prússia, que atualmente faz parte da Rússia.

O seu pai era um engenheiro que morreu de sífilis quando Hannah tinha apenas 7 anos de idade. A sua mãe, Martha Cohn, era uma mulher de ideias liberais e queria dar à filha a mesma educação que os meninos daquela época recebiam.

Desde muito jovem, Hannah Arendt demonstrou uma incrível capacidade intelectual e uma natureza rebelde. Dizem que, aos 14 anos, ela já havia lido Emmanuel Kant e Karl Jaspers. No entanto, ela foi expulsa da escola devido a problemas disciplinares aos 17 anos.

Hannah viajou sozinha para Berlim, onde fez alguns cursos de teologia e filosofia. Ela começou a estudar por conta própria e, aos 18 anos, fez o vestibular da Universidade de Marburg e foi aprovada.

Hannah Arendt: uma intelectual judia

Um de seus professores foi o famoso Martin Heidegger. Os dois se apaixonaram e tiveram um romance que precisaram manter em segredo, porque ele era casado e já tinha filhos. A situação se tornou insustentável para Hannah, que teve que se mudar por um semestre para a Albert Ludwig University.

Finalmente, ela obteve um PhD em filosofia em 1928, depois de ter aulas com Edmund Husserl. O orientador de sua tese era Karl Jaspers, que se tornaria um de seus amigos mais queridos até a morte. Nessa época, ela também fez amizade com vários dos filósofos mais relevantes.

A ascensão progressiva do nazismo começou com um aumento gradual do antissemitismo. Hannah Arendt emprestou a sua própria casa para ajudar muitas crianças e jovens a fugir.

Em 1933, ela foi detida pela Gestapo e ficou presa por oito dias. Depois, partiu para a França, onde encontrou com o seu primeiro marido, Günther Stern, que já estava lá.

Apátrida e pensadora

Hannah Arendt foi uma das poucas intelectuais europeias que se manifestaram radicalmente contra o nazismo desde o início. Ao contrário de outros filósofos que tentaram se adaptar ao novo regime, ela viu nele um sério perigo desde o início.

Em 1937, Hannah se divorciou de Günther e, nesse mesmo ano, perdeu a nacionalidade alemã. Ela conseguiu tirar a sua mãe da Alemanha em 1939. Em 1940, casou-se com Heinrich Blücher.

Pouco tempo depois, foi enviada para um campo de detenção na França, por ser alemã sem ser. Ela conseguiu escapar e, junto com o seu marido e a sua mãe, emigrou para os Estados Unidos.

Nos Estados Unidos, trabalhou como jornalista, uma função que já havia exercido na Europa. Em 1951 tornou-se cidadã americana, embora sempre dissesse que a língua, a arte e a poesia a vinculavam à Alemanha.

Discurso de Hannah Arendt

Hannah Arendt: uma carreira brilhante

A aquisição da nacionalidade americana “a libertou” de sua condição de apátrida. Ela dizia que ter uma cidadania equivalia ao “direito de ter direitos”. Nos Estados Unidos, fez uma carreira brilhante e produziu os seus maiores trabalhos.

Em 1961 cobriu, como correspondente da revista The New Yorker, o julgamento de Adolf Eichmann, um criminoso de guerra nazista. O artigo que ela escreveu sobre o assunto foi intitulado ‘A Banalidade do Mal’. Isso deu origem a uma grande polêmica.

Apesar de tudo, a sua brilhante carreira continuou sem problemas. Já em 1959, ela foi a primeira mulher a lecionar na Universidade de Princeton. Em 1963, tornou-se professora da Universidade de Chicago e depois de outros centros acadêmicos.

O seu amado marido, com quem ela sempre compartilhou uma interessante cumplicidade intelectual, morreu em 1970. Quatro anos depois, ela sofreu um infarto do qual se recuperou. Hannah continuou trabalhando até 1975, quando outro infarto tirou a sua vida durante uma reunião acadêmica.

  • Arendt, H. (2005). Arendt sobre Arendt. H. Arendt, De la historia a la acción. Buenos Aires: Paidós.