A história dos dois escravos

outubro 21, 2019
Na história dos dois escravos, encontramos uma reflexão sobre liberdade e poder. É poderoso aquele que exerce domínio sobre os outros, ou aquele que é capaz de ter controle sobre si mesmo?

A história dos dois escravos fala sobre um reino distante governado por um sultão reconhecido em todos os lugares por sua nobreza e generosidade.

O governante não cobrava impostos desproporcionais ao seu povo; pelo contrário, fazia tudo que estava ao seu alcance para melhorar a situação dos mais necessitados. Também era muito sábio na hora de decidir.

O reino desfrutava de paz e harmonia. A pobreza, que em outros tempos havia pintado a paisagem cotidiana, havia desaparecido e os cidadãos gozavam da ajuda uns dos outros. Eles amavam e respeitavam o sultão, que governava há 40 anos.

A história dos dois escravos conta que, naquela época, ninguém imaginava que tudo mudaria de repente.

O sultão tinha um filho que havia educado cuidadosamente. Ele sabia que era seu sucessor e queria que seu legado continuasse. Por isso, conseguiu um professor que o instruiu pacientemente sobre a arte de governar.

Ele não queria que se perdesse toda a harmonia que haviam conseguido com tanto esforço no reino. Sabendo que já era velho, ele entendeu que seu filho logo o sucederia.

“Um homem só tem o direito de olhar o outro de cima quando precisa ajudá-lo a se levantar”.
-Gabriel García Márquez-

O filho do sultão se torna o herdeiro

O sultão era sábio o suficiente para intuir que sua morte estava próxima. Por isso, ele chamou seu filho e anunciou que iria abdicar do trono. Aproveitou para lembrá-lo de que a arte de governar é um exercício de inteligência no qual a firmeza deve ser combinada com a sensibilidade necessária para ouvir o povo.

Em seguida, lhe recomendou que, diante de qualquer dúvida ou dilema, sempre consultasse seu coração.

Da mesma forma, o sultão explicou que ser soberano também significa ser humilde. Somente conhecendo e compreendendo os interesses e necessidades próprios, o governante também poderia governar bem.

Também insistiu que o poder tinha a capacidade de obscurecer o julgamento e distorcer a razão. A única maneira de evitar isso era mantendo o espírito livre e o coração limpo.

Conforme conta a história dos dois escravos, o filho do sultão ouviu atentamente e prometeu ao pai que viveria à altura do reino que ele iria herdar. No dia seguinte, foi coroado em uma cerimônia luxuosa. Apenas três semanas depois, o velho sultão morreu em sua cama.

Mesquita muçulmana

O governo do filho do sultão

A história dos dois escravos conta que o filho do sultão começou a governar como havia feito seu pai. No entanto, pouco tempo depois, pensou que era hora do seu reino se expandir.

Por isso, começou a invadir as nações vizinhas e em pouco tempo seus territórios se expandiram significativamente. As companhias militares também lhe deixaram novos povos submetidos, a quem ele escravizou. Pensava que seu próprio povo seria melhor se tivesse escravos.

O novo sultão sentia-se cada vez mais poderoso. Por isso, decidiu continuar expandindo seus domínios até onde fosse possível. A guerra contínua acabou com a tranquilidade que havia no reino e os habitantes ficaram irritados e desconfiados.

A ambição começou a dominar a todos, principalmente o sultão, que já não era mais o jovem gentil de antes.

Segundo a história dos dois escravos, alguns habitantes tentaram se rebelar contra o novo soberano. Pensavam que ele estava agindo mal e ansiavam por tempos passados. O governo os descobriu e não teve piedade deles.

O ensinamento da história dos dois escravos

Vários anos se passaram e chegou um momento em que todos temiam seu novo sultão. Ninguém se atrevia a contradizê-lo, um tipo de droga que o embriagava cada vez mais. Ele pensava que era o homem mais poderoso do planeta e que todos em sua nação tinham a obrigação de seguir suas ordens, fossem elas quais fossem.

Para medir seu poder, um dia ele decidiu sair pelas ruas da capital vestido com seu melhor traje montado em seu cavalo mais imponente.

O sultão passeou com seu cavalo pelas ruas principais. Quando o viam, todos inclinavam a cabeça e se curvavam. O silêncio era quase absoluto. Quando passaram por um humilde povoado, um homem em farrapos saiu de casa.

Ele olhou para o sultão fixamente e não se abaixou ou ofereceu sua reverência. O novo sultão olhou para ele com desprezo e ordenou que ele se abaixasse.

A história dos dois escravos

O homem perguntou se ele não se lembrava dele. Ele havia sido seu professor quando o sultão era apenas uma criança. O soberano não prestou atenção e insistiu para que se ajoelhasse.

Com isso, o homem respondeu: “Por que devo me curvar a você se sou dono de dois escravos que são seus mestres?” O sultão empalideceu de raiva. Tirou o sabre para atacar o homem. Antes de dar o primeiro passo, ele ouviu as palavras que o sultão nunca esqueceria: “Você é escravo da ira e da ganância, dois mestres que eu domino”.

  • Grüner, E. (2017). El fin de las pequeñas historias (Vol. 65). Ediciones Godot.