A história sombria do hospital psiquiátrico Aston Hall

maio 12, 2020
Hoje sabemos que no hospital psiquiátrico Aston Hall eram realizadas algumas terapias com o chamado “soro da verdade”. Esse fato, junto com as diferentes denúncias sobre o que ocorria nesse lugar, nos convidam a pensar que o local que a princípio seria apenas um sanatório foi, na verdade, praticamente uma casa do terror.

O hospital psiquiátrico Aston Hall ficou muito famoso depois que várias denúncias de diferentes pessoas que ficaram internadas por lá vieram a público. Isso aconteceu em 1993; na época da internação, os afetados ainda eram crianças e adolescentes. Pouco depois ele foi demolido, e em seu lugar foi feito um complexo residencial.

Talvez nunca possamos saber o que realmente aconteceu no hospital psiquiátrico Aston Hall. Afinal, temos apenas a os testemunhos confusos de quem foi tratado por lá na época em que Kenneth Milner era superintendente do hospital. Aparentemente, os pacientes foram drogados arbitrariamente e isso alterou as suas memórias. Hoje, Milner está morto e, com a sua morte, foi enterrada também a possibilidade de ouvir o seu relato.

Podemos ouvir falar do hospital psiquiátrico Aston Hall como um lugar no qual eram realizadas algumas experiências com a mente humana. Não está claro se isso é verdade ou não. O que se sabe é que os pacientes foram tratados com o chamado “soro da verdade”, aparentemente não para participar de pesquisas, mas porque se pensava que esta era uma forma de tratamento válida.

“Quando uma pessoa está sob a sua influência, está em um estado extremamente sugestionável. Há um alto risco de que a pessoa diga o que o interrogador quer em vez de dizer a verdade”.
-Michael Mosley-

Mulher com transtorno psiquiátrico

O hospital psiquiátrico Aston Hall

O hospital psiquiátrico Aston Hall foi construído em 1930 no condado de Derbyshire, na Inglaterra. Seu propósito era tratar as crianças e jovens classificados como “especiais”. Ou seja, menores de idade com problemas de comportamento. Era uma opção intermediária entre um reformatório e uma instituição de saúde. Aparentemente, seu funcionamento estava dentro dos parâmetros para os quais foi desenhado.

A questão é que, em 1993, um grupo de investigadores publicou na Internet uma série de fotografias do hospital psiquiátrico Aston Hall. Pouco depois de fazê-lo, começaram a surgir comentários de pessoas que haviam sido internadas no local quando eram adolescentes. As mensagens falavam de uma série de abusos que incluíam denúncias de estupro e métodos desumanos de tratamento.

O hospital foi fechado e o edifício demolido. Nunca foi dada uma explicação para essa decisão de demolição. O que ficou foi apenas um eco das denúncias que foram realizadas no espaço vazio. Alguns jornalistas pegaram para si a tarefa de investigar um pouco o que aconteceu, e foi assim que alguns detalhes do que havia ocorrido nesse sombrio hospital vieram à tona.

A narcoanálise

Durante a Segunda Guerra Mundial, teve início o uso de um medicamento que foi chamado de “soro da verdade”. Tratava-se do amital de sódio, um composto químico muito poderoso que tem um efeito de desinibição. Isso quer dizer que, quando alguém consome essa substância química, perde o controle sobre os mecanismos de repressão e autocontrole. Ou seja, perde-se o poder de escolha. Esse método foi chamado de narcoanálise.

Durante a guerra, esse medicamento foi usado como um tratamento de emergência para os soldados que entravam em estado de choque. Isso acontecia quando eles passavam por experiências muito traumáticas. Estas eram, muitas vezes, reprimidas – ou seja, esquecidas. No entanto, tais experiências retornavam em forma de paralisia, parcial ou total, ou estados profundos de abatimento que impediam a pessoa de funcionar normalmente.

Quando isso acontecia, os psiquiatras militares usavam o “soro da verdade”. Ao administrá-lo, conseguiam vencer a repressão dos soldados. Eles se lembravam das experiências traumáticas e assim ocorria uma espécie de catarse que, em seguida, levava a um estado de equilíbrio, pelo menos parcial. Era como abrir uma ferida infectada para limpá-la e permitir a sua cicatrização.

Jovem sentindo medo

Um tratamento questionável

O soro da verdade não só permite que o muro de contenção da mente seja derrubado, mas também provoca uma perda de livre arbítrio. Uma pessoa sob a sua influência é altamente influenciável.

Segundo os especialistas no tema, assim como a substância traz algumas memórias à tona, também é possível que construa memórias falsas. As pessoas sob o efeito de amital de sódio eram muito sugestionáveis.

No hospital psiquiátrico Aston Hall, esse fármaco foi usado de modo sistemático. Há denúncias inclusive de possíveis abusos sexuais. Há relatos de que algumas pacientes eram obrigadas a ficar nuas, e depois recebiam o remédio para que ficassem confusas. Os especialistas indicam que as memórias que emergem sob a influência desta substância podem ser induzidas ou modificadas.

Uma das pacientes de Aston Hall descobriu no tratamento que seu pai havia abusado sexualmente dela. Dessa forma, ela o denunciou, e realmente acreditava nisso. No entanto, para o resto da família isso era completamente improvável. Após várias décadas, a suposta vítima começou a duvidar das suas próprias memórias. Hoje em dia, ela pensa que talvez essa memória tenha sido implantada na sua mente de alguma maneira.

Outros pacientes do hospital psiquiátrico Aston Hall acreditam que a terapia com o soro da verdade foi útil para eles. Na verdade, nós nunca saberemos se realmente foi. Afinal, estamos falando de pessoas com a memória alterada. A única coisa que sabemos, no momento, é que a narcoanálise traz riscos demais para ser considerada uma forma de terapia válida.

Picnon-Rivière, E. (1948). Teoría y práctica del narcoanálisis. Revista de psicoanálisis, 5(4), 1036-1051.