A humildade intelectual, o valor de ouvir novas ideias

20 Julho, 2020
Reconhecer que não sabemos tudo e que não somos possuidores da verdade absoluta é praticar a humildade intelectual. É o que nos permite continuar aprendendo e crescendo em um nível pessoal e social.
 

Todos estamos sujeitos a cometer o erro de pensar que nosso ponto de vista é o mais correto e que somos possuidores da verdade absoluta. Às vezes, podemos até sustentar a forte convicção de que somos especialistas em um assunto e de que ninguém sabe mais do que nós – ou, pelo menos, de que sabemos mais do que as pessoas ao nosso redor.

Seja devido a anos de experiência, dedicação ao estudo de um tema específico ou simplesmente “porque é assim” – como muitos afirmam -, não deixamos espaço para dúvidas. Nós nos fechamos em nossas convicções e é impossível nos tirar de lá. É como se tivéssemos recebido o prêmio de especialistas universais, e qualquer objeção é rotulada como um disparate.

É engraçado como, às vezes, nos apegamos tanto à crença de saber tudo sobre um assunto. Ou talvez não, talvez sejamos uma daquelas pessoas que preferem navegar no oceano da indecisão ou, pelo menos, estar abertas ao que os outros podem nos dizer. O ponto é que, seja para os outros ou para nós, a humildade intelectual costuma brilhar pela sua ausência. Vamos nos aprofundar um pouco mais nesse assunto.

“Humildade não é pensar menos a respeito de si mesmo, mas pensar menos em si mesmo.”
-C.S. Lewis-

O que é a humildade intelectual?

Temos o péssimo hábito de superestimar o quanto sabemos. Nos apegamos ao que acreditamos e desprezamos o que os outros nos oferecem. Em vez de enxergar uma possibilidade de enriquecimento, o que vemos é um ataque. Em geral, acreditamos que somos melhores ou mais corretos que os outros, algo que pode ser observado com mais clareza em contextos políticos, religiosos, e mesmo quando se fala de estilos de vida.

 

Com relação a essa capacidade de voluntariamente colocar uma venda em nós mesmos para ficarmos cegos intelectualmente, o jornalista e escritor Ryszard Kapuściński afirmou: “Se dentre as muitas verdades você escolher apenas uma e persegui-la cegamente, ela se tornará uma farsa e você um fanático.” E não faltava razão. Escravizar-nos a uma crença e outorgar a ela o poder de verdade absoluta dificulta a mudança e impede nosso crescimento pessoal e social. Em suma, isso nos limita.

Diante desse cenário, parece que os cientistas descobriram – ou melhor, trouxeram à luz – um conceito – ou antídoto – conhecido como humildade intelectual. Trata-se da capacidade de ser flexível no âmbito do conhecimento, isto é, de estar aberto a novas ideias.

A humildade intelectual seria algo como uma tendência a ser receptivo a outras perspectivas, aceitar que estamos errados e cultivar uma mentalidade aberta.

Colegas de trabalho

Origens do conceito de humildade intelectual

Esse conceito que, à primeira vista, parece tão novo, tem suas raízes em Sócrates e, mais tarde, no filósofo e teólogo Nicolau de Cusa.

  • Na obra Diálogos de Platão, podemos ver como Sócrates estava em uma constante busca pela verdade e reconhecia sua ignorância como o ponto de partida para encontrar essa verdade. De fato, uma de suas frases mais famosas é “A verdadeira sabedoria está em reconhecer a própria ignorância”.
 
  • Quanto a Nicolau de Cusa, podemos resgatar sua obra Da Douta Ignorância para compreender a presença de humildade intelectual em seu pensamento. Este filósofo pensava que, devido às limitações humanas – ou limitações cognitivas -, o sábio não pode atingir o conhecimento absoluto, por mais que deseje. Dessa maneira, ele tem consciência de que ignora mais do que sabe. Obviamente, ele está ciente disso, portanto ele é douto, daí a douta ignorância.

Como podemos observar, a humildade intelectual está conosco há muito tempo. Essa capacidade se configura como o ponto intermediário entre acreditar que você sabe tudo ou, pelo contrário, nada. Ou seja, está entre a arrogância intelectual, caracterizada por mentes rígidas, e a covardia intelectual fruto de uma timidez extrema.

Mentes rígidas: a ilusão de saber tudo

Ser humilde a nível intelectual é ser capaz de reconhecer que não sabemos tudo e que o que pensamos saber pode estar errado. No entanto, por que há tanto egocentrismo intelectual hoje em dia?

Embora as características pessoais possam ser as maiores responsáveis, de acordo com a psicóloga Tania Lambrozo, da Universidade da Califórnia, a tecnologia aumenta a ilusão de conhecimento.

Ter acesso a qualquer tipo de informação com apenas um clique cria a ilusão de que temos ao nosso alcance um conhecimento infinito sobre qualquer coisa. Se adicionarmos a isso facilidade de lembrar uma imagem, uma palavra ou uma informação sobre um tópico específico, a impressão de que aprendemos com sucesso será muito maior.

 

Por outro lado, a rigidez mental é um dos traços de personalidade mais relacionados ao egocentrismo intelectual. Trata-se da tendência de descartar abordagens ou ideias diferentes das próprias para se acomodar e se fechar atrás das grades de seus próprios esquemas mentais. Seria aquela pessoa que tenta ajustar o mundo à sua maneira de pensar, em vez de tentar fazer o contrário.

  • Essa rigidez mental costuma ter origem em uma necessidade excessiva de fechamento cognitivo, ou seja, no desejo de eliminar qualquer vestígio de incerteza decorrente de um pensamento ou uma situação, pois isso implicaria não estar no controle da situação. Lembremos que a incerteza é um dos maiores inimigos do ser humano…

“Grandes mentes discutem ideias, mentes medianas discutem eventos e mentes pequenas discutem pessoas”.
-Eleanor Roosevelt-

O segredo da humildade intelectual

Como cultivar a humildade intelectual

Devemos estar dispostos a conhecer outras perspectivas, outros argumentos e, é claro, abraçar as mudanças. Porque as ideias que ontem consideramos bem-sucedidas hoje podem estar erradas ou ser insuficientes, quem sabe. Mas, como fazer isso?

 

Embora existam várias estratégias que nos permitem cultivar a humildade intelectual, é essencial estar ciente de que precisamos silenciar e destronar nosso ego. Para isso, é necessário admitir que, às vezes, somos vítimas de vieses cognitivos e escravos da crença de que temos menos preconceito do que os outros.

As opiniões, tanto as nossas quanto as dos outros, variam de acordo com as circunstâncias, e com nós mesmos em última instância. Porque quantas vezes você se pegou fazendo ou dizendo algo que nem sequer pensava um tempo atrás? Pense nisso.

Assim, se quisermos plantar a semente da flexibilidade mental para cultivar o fruto da humildade intelectual, podemos:

  • Aceitar que cometemos erros, que podemos nos confundir.
  • Praticar a escuta ativa. Ou seja, libertar nossa mente de pensamentos quando outra pessoa estiver falando conosco e colocar toda a nossa atenção no que ela estiver dizendo. Teremos que lutar contra essa tendência tão nossa de preparar o que vamos dizer enquanto outra pessoa fala conosco.
  • Respeitar outros pontos de vista. Nem sempre temos que concordar com o que as outras pessoas nos dizem. No entanto, isso não nos isenta de respeitar as suas opiniões. Frequentemente, lutamos em uma guerra que raramente tem um vencedor: uma guerra em que tentamos fortemente convencer o outro. De fato, costuma acontecer o oposto. O outro se apega mais às próprias ideias e nós às nossas. Portanto, saber quando parar é absolutamente necessário.
 
  • Estar disposto a aprender com os outros. Flexibilidade e curiosidade, os dois ingredientes essenciais para aprender e lutar contra a rigidez. Porque se não aprendermos com os outros, com quem vamos aprender?
  • Questionar a nós mesmos de vez em quando. Um exercício para desenvolver a humildade intelectual é questionar nossas crenças e, principalmente, nossa necessidade de estarmos certos. Por que sempre queremos ter razão? A resposta para essa pergunta pode nos revelar o segredo.
  • Viajar ou conhecer outras culturas. Descobrir outros estilos de vida, outras concepções e visões da realidade, embora possa nos chocar a princípio, ainda é uma maneira de ampliar nossas perspectivas. Além disso, é uma boa maneira de treinar nosso cérebro para estar aberto a encontrar alternativas.

O cientista mais importante do século XX, Albert Einstein, cujo quociente de inteligência era 160, também tinha em mente o conceito de humildade intelectual. Uma prova disso é sua afirmação: “Um verdadeiro gênio admite que não sabe nada”. Assim como Benjamin Franklin, que antes de iniciar uma discussão costumava dizer: “Talvez eu esteja errado, mas …”.

Como vemos, a humildade intelectual é um bom aliado para lutar contra o apego às nossas crenças e continuar a crescer em nível pessoal e social. A chave que abre as portas para o aprendizado, o antídoto contra a prepotência e que nos lembra que as chaves dos nossos relacionamentos não residem em imposições ou exigências, e sim na compreensão, na flexibilidade, no respeito e no enriquecimento resultante de conhecer outros pontos de vista.