I Ching: muito mais que um oráculo

A consulta ao I Ching envolve várias condições. A primeira é entender que ele não é um livro de adivinhação, mas um meio de acessar nossas verdades mais profundas. A segunda é que a resposta é tão válida quanto a pergunta.
I Ching: muito mais que um oráculo

Última atualização: 14 Julho, 2021

O I Ching é um dos livros mais antigos da humanidade e um dos patrimônios mais preservados da China. Estima-se que tenha sido escrito cerca de 1.200 anos antes da nossa era e que seja de origem taoísta. O nome em português significa “livro das mutações”.

No Ocidente, o I Ching tornou-se popular como oráculo. Porém, mais do que um texto de adivinhação, ele serve como guia moral, além de ser um tratado filosófico e cosmogônico. Sua função não é exatamente prever, mas sim apelar à reflexão individual e nos fornecer elementos para decidir com base na intuição.

“O futuro é tão irrevogável / Como o passado é rígido. Não há coisa alguma / Que não seja uma carta silenciosa / De escrita eterna indecifrável / Cujo livro é o tempo ”.
-Jorge Luis Borges, Poema para a versão do I Ching- de Richard Wilhelm-

É preciso lembrar que os escritos que temos hoje não são o I Ching original. Ele passou por várias transformações ao longo do tempo, com textos sendo apagados e adicionados, principalmente com a intenção de torná-lo mais compreensível, com leituras mais enriquecidas. A seguir, nos aprofundaremos neste assunto.

Livro antigo

O que é o I Ching?

A elaboração do I Ching partiu da ideia de que a única constante no mundo, e na vida, é a mudança. Ele é baseado no princípio de que tudo o que uma pessoa faz pode causar mudanças no universo. A inação, ou seja, aquilo que não fazemos, também está incluída nisso.

Por outro lado, ele também apresenta o princípio oposto. Em outras palavras, nada do que fazemos ou deixamos de fazer é tão importante a ponto de alterar o curso essencial do universo. Podemos mudar as coisas com mais facilidade ou com mais dificuldade, mas não mudamos a natureza e o fluxo fundamental da vida.

O I Ching, ou livro das mutações, tem o intuito de provocar reflexões sobre quem somos, como nos sentimos e como podemos agir para nos harmonizarmos com o universo. Isso é feito por meio de mensagens que são, de certa forma, codificadas, e que cada pessoa deve interpretar, pois é a sua própria interpretação que define os rumos que ela deve seguir.

Ambiguidade e incerteza

O I Ching não pode ser visto como um livro de adivinhação no sentido literal, pois não parte da ideia da predestinação. Na verdade, temos o contrário, pois ele é consultado para esclarecer o que podemos fazer, dadas as circunstâncias. Isso significa que, em última instância, é o consultor que deve tomar uma decisão com base nas reflexões levantadas pelo oráculo.

As respostas oferecidas pelo I Ching não são absolutas. Não se pode perguntar coisas como, por exemplo: “Será que vou ganhar aquele concurso de jardinagem?”. Não é possível encontrar respostas para esse tipo de pergunta no texto, pois a característica que define este oráculo é que suas respostas são dadas em termos de incerteza.

Essa ambigüidade pode ser entendida com exemplos e situações, como quando uma pessoa tem um filho adotivo e se pergunta se, de fato, possui filhos. Questões mais profundas e valiosas como essa não têm respostas definitivas, e é isso que se enfatiza no livro das mutações.

Portanto, para consultar o I Ching é necessário não apenas aprender a interpretar suas respostas, mas também, e principalmente, ter os elementos para formular perguntas que sejam cabíveis. Caso contrário, não haverá proveito na consulta.

Carl Jung

Carl Jung e o I Ching

Carl Gustav Jung usava o I Ching com frequência. Ele o via como um meio de acessar conteúdos inconscientes, o que era muito válido para suas análises psicológicas. Na verdade, Jung escreveu o prefácio da tradução mais clássica do livro das mutações (realizada por Richard Wilhelm).

Para muitos teóricos, o conceito de “sincronicidade” de Jung está intimamente relacionado às suas experiências com o I Ching. Segundo esse conceito, nada do que acontece na realidade é fruto do acaso. Existem linhas invisíveis que conectam alguns fatos a outros, formando as particularidades de cada realidade, tal como se apresentam.

Para Carl Jung, uma das formas de acessar o entendimento dessa sincronicidade era o I Ching. O livro das mutações nos permite saber o como e não o quê. Também nos permite o acesso às finalidades das coisas e não às suas motivações. Quando a consulta é efetiva, aquilo que parece disperso em nossas vidas pode, enfim, ser integrado e ter um sentido.

O I Ching não pode ser lido como um livro comum, pois ele tem a estrutura de um oráculo. Ao mesmo tempo, é possível lê-lo mil vezes e encontrar sempre um livro diferente. Quando bem usado, ele fornece elementos importantes para o esclarecimento das nossas ideias.

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  • Cleary, T. (2005). I Ching/I Ching: El libro del cambio/The Book of Change. Edaf.