Nostradamus: o profeta mais famoso

O nome de Nostradamus ficou marcado pelas suas capacidades de premonição. Como é de costume em casos assim, tanto detratores quanto seguidores divergem na interpretação de seus textos. O segredo está em sua história.
Nostradamus: o profeta mais famoso

Última atualização: 13 Março, 2021

Na França do século XVI, um médico de origem judia chamado Michel de Nostradame alcançaria fama notável a ponto de ser um convidado constante nas cortes europeias. Seus nada irrelevantes dons de cura lhe geraram um reconhecimento amplo. Sim, estamos falando do profeta Nostradamus.

Naquela época, a medicina estava longe de ser uma ciência claramente delimitada, como acontece atualmente. Os limites dela com várias outras áreas do saber eram tênues. Entre os antepassados de Nostradamus houve médicos e astrólogos, e o próprio profeta aprendeu ambas as práticas, bem como a elaboração de medicamentos e cosméticos.

As previsões e adivinhações inspiradas pelos astros não eram, nessa época, consideradas heresias. Para todos os efeitos, era o mesmo Deus que revelava os astros para que pudessem ser interpretados. Michel tirou vantagem disso, chegando a servir Catarina de Médicis e Henrique II, da França. Com o tempo, a lenda de Nostradamus superou sua atuação como médico e, até hoje, suas profecias são examinadas de maneira minuciosa por seus seguidores.

Tempos turbulentos

Até certo ponto, Nostradamus é uma cria da sua época. Nos séculos XV e XVI, ocorreram diversos fatores que impulsionaram a sua ascensão.

Por um lado, a peste assolou a Europa e transformou o dia de amanhã numa incerteza cada vez maior. Aos mortos se somavam as más colheitas e as guerras religiosas contínuas, de modo que qualquer auxílio na previsão do futuro era valorizado. De fato, a peste golpeou Nostradamus com força, levando embora sua primeira esposa e filhos e o impedindo de concluir sua formação em Avignon. 

Por outro lado, o Renascimento ainda se encontrava entre duas eras. Tanto nas cortes quanto nos espaços urbanos, artistas e pesquisadores se multiplicavam, e esses profissionais eram menos dependentes do poder da religião quando comparado à situação na Idade Média.

Durante esse período de desenvolvimento científico desenfreado, também cresceu o desenvolvimento não-científico desenfreado, permeado das superstições mais comuns. Com frequência, o mesmo autor costumava assinar obras científicas e supersticiosas.

“Um imperador nascerá perto da Itália,
e custará muito caro ao império,
lhe dirão com quem se aliar,
e mais a um açougueiro do que a um príncipe ele parecerá.”


-Centúria I, quadra 60, Nostradamus. Supostamente se referindo a Napoleão- 

Profecia de Nostradamus

A carreira estelar do profeta Nostradamus

Após concluir seus estudos médicos em Montpellier, Nostradamus continuou sua formação de maneira errante. A peste certamente marcou sua biografia, uma vez que ele trabalhou de modo incansável contra este mal, inclusive antes de obter sua graduação. Certamente, estes trabalhos foram inspirados pela sua própria tragédia pessoal.

As viagens que ele fez lhe permitiram conhecer uma ampla variedade de pomadas e métodos de prevenção, o que fez com que ele se tornasse um especialista requisitado em todas as cidades francesas onde surgissem novos surtos.

Foi nessa época que ele começou a publicar seus almanaques, certamente impulsionado pela sua respeitabilidade. Estes almanaques eram calendários que continham todo tipo de previsões inspiradas pelas estrelas, para cada ano.

Entre a guerra e a peste, numa sociedade extremamente dependente da agricultura, as previsões para as colheitas eram muito solicitadas. Chegando a conter previsões climáticas, os almanaques precederam nossa ciência meteorológica atual, com a ressalva de não ter contado com nenhum tipo de método científico.

Junto a esses textos, somam-se os já mencionados trabalhos sobre cosmética e botânica, que incluíam desde óleos terapêuticos a perfumes e filtros de amor. Com tamanha versatilidade, ele era o médico desejado por qualquer corte.

O trabalho profético de Nostradamus

De todas as suas obras, as mais lidas e estudadas são, sem dúvidas, as Centúrias. Escritas em quadras agrupadas em centenas, elas foram profecias informadas pelas estrelas.

Embora elas não contenham a data da profecia, o ano limite para todas elas é 3797. Há especulações para vários séculos e, embora as datas não sejam específicas, após todas as profecias, viria o apocalipse. Previsões para depois disso ficaram fora da capacidade do autor.

Não faltaram pessoas, em sua época e nos dias de hoje, que tentassem interpretar as quadras de Nostradamus. As temáticas dos textos são ricas e variadas, cobrindo desde desastres naturais a guerras, passando por nascimentos marcantes e descobertas científicas.

“Do interior mais isolado no Ocidente europeu,
um filho de pessoas pobres nascerá,
seu discurso seduzirá as massas,
e sua fama no Oriente crescerá.”


-Centuria III, quadra 35, Nostradamus. Supostamente se referindo a Hitler-

Busto de Nostradamus

Nostradamus realmente era um profeta?

Nostradamus também quis nos deixar os segredos da adivinhação. Em suas correspondências pessoais, porém, o profeta inseriu um pequeno entrave: para evitar “dar pérolas aos porcos”, ele escreveu suas Centúrias usando “frases ocultas e enigmáticas”.

Não sabemos se a intenção do autor era enganar seus leitores, da mesma forma que não podemos saber se muitos de seus seguidores estavam dispostos a contribuir para um engano sugestivo. De toda forma, as quadras são tão ambíguas e genéricas que é possível associá-las, ao mesmo tempo, a vários acontecimentos históricos ou a nenhum.

Pode ser que a vida e a obra de Nostradamus nos ensine muito, ou nada, do que o futuro trará, mas de toda forma, os escritos são uma forte lição sobre o poder da sugestão humana.

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  • Corvaja, Mirella (2006) Las Profecías de Nostradamus, De Vecchi.
  • Alonso, Laura (2002) Nostradamus, Servilibro.