A importância dos ritos fúnebres no processo de luto

Todas as culturas têm ritos fúnebres. Essas cerimônias, e todas as suas etapas, têm um grande valor porque permitem aceitar a perda sofrida em diferentes níveis.
A importância dos ritos fúnebres no processo de luto

Última atualização: 20 Junho, 2021

Surpreendentemente, não são apenas os humanos que praticam ritos fúnebres, pois outros animais também o fazem.  Obviamente, em nossa espécie, esses ritos têm uma elaboração e variedade maiores do que em outras. No entanto, esse fato já nos sugere a importância desses rituais.

A evidência científica nos diz que a morte é um fato absoluto e determinante. Por mais que seja um evento natural, não deixa de ser um mistério. Por sua vez, tudo que é misterioso costuma ter uma conotação sagrada, em maior ou menor medida. Por isso, em todas as culturas e em todos os tempos, desde que o humano é humano, existem ritos fúnebres.

A morte abre as portas para o infinito. Representa uma transformação tão radical que não podemos aceitar como um fato comum (mesmo que seja o mais comum dos fatos). Por isso, precisamos dos ritos fúnebres: aceitar a morte para processar os sentimentos decorrentes desse acontecimento e forjar um ponto de mudança.

“Um homem pode levar uma vida boa, ser honrado, ser caridoso… mas no final, o número de pessoas que vão ao seu funeral geralmente depende das condições climáticas.”
-Autor anônimo-

Saudade de quem jé se foi

Os ritos fúnebres e a aceitação

Os ritos fúnebres são uma parte muito importante do processo de luto. Basicamente, são uma pausa na rotina para iniciar o processo de aceitação, um dos mais difíceis e desconcertantes do luto. Eles ajudam, coletiva e individualmente, a admitir a existência de uma perda.

Parte desse processo de aceitação envolve um último contato com a pessoa que morreu. Embora saibamos que ela está morta, provavelmente sentimos a necessidade de nos aproximar dessa pessoa para agradecer, reconhecer suas boas ações ou para ficar em paz com ela de alguma forma.

Em Totem e tabu, Sigmund Freud destaca que muitas vezes os mortos se tornam uma presença persecutória. Nosso inconsciente infantil e algumas crenças religiosas ou populares podem nos levar a pensar que eles foram para um plano desconhecido e adquiriram poderes sobre o mundo dos vivos. Poderiam “voltar” para “acertar contas”. Olhando com base nessa corrente de pensamento, é por isso que gostaríamos de ficar em paz com eles.

A morte e o fantasma perseguidor

De uma forma ou de outra, toda pessoa falecida nos persegue. Quer acreditemos no mundo espiritual ou não, todos os mortos “retornam” para as nossas vidas. Muitas vezes sentimos culpa quando uma pessoa morre. Culpa porque a pessoa está morta e isso a mergulha em uma espécie de solidão da qual não temos consciência.

Culpa também porque temos “a vantagem da vida” sobre ela. E, obviamente, culpa pelo que “deveríamos ter dito e não dissemos”, pelo que “deveríamos ter feito e não fizemos”. Facilmente, começamos a fazer um inventário de todos os supostos erros que cometemos com aquela pessoa e não podemos mais consertar.

Essa culpa é “a pessoa falecida apontando nossos erros.” Nos perseguindo. Os ritos fúnebres também servem para moderar e controlar esses sentimentos persecutórios que tomam conta de nós quando alguém morre. Eles nos dão a oportunidade de iniciar esse processo de ficar em paz com a pessoa que partiu e com nós mesmos.

Mulher chorando

Os rituais e a expressão

Os ritos fúnebres também nos dão uma oportunidade muito valiosa: expressar nossa dor em voz alta, sem que sejamos julgados por isso. Nesses rituais existe uma espécie de “permissão” social para chorar, para ficar triste e até para sentir um certo descontrole. Fora desses rituais, esse tipo de comportamento torna-se um tanto suspeito.

O fato de a dor ser vivida coletivamente também proporciona consolo. Embora cada pessoa experimente o sofrimento de uma maneira particular, nos ritos fúnebres a dor é compartilhada, e isso conforta. Seu efeito é muito positivo, principalmente naquele momento inicial em que prevalece o estupor e ganha força a tentação de negar a realidade.

A companhia de outras pessoas oferece a oportunidade de exteriorizar os sentimentos relativos à pessoa que se foi. Falar sobre essa pessoa e retroalimentar mutuamente sua lembrança é algo que ameniza a dor. Nesse sentido, também desempenha um papel terapêutico claramente eficaz.

Os ritos fúnebres, por fim, também são uma forma de homenagear a memória de quem partiu. É um ato de consideração, respeito e valorização. Pode não ser de grande utilidade para a pessoa que se foi, mas permite aos vivos configurar gestos de afeto e realizá-los. São expressões póstumas que, pelo menos, deixam a sensação de “ter amado” pela última vez. Esse fato, por si só, dá sentido aos rituais de despedida.

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  • Torres, D. (2006). Los rituales funerarios como estrategias simbólicas que regulan las relaciones entre las personas y las culturas. Sapiens, 7(2), 107-118.