Intelectualismo moral: a virtude é encontrada no conhecimento

De acordo com Sócrates, as pessoas não realizam ações moralmente erradas voluntariamente; mas porque não sabem o que é bom e justo.
Intelectualismo moral: a virtude é encontrada no conhecimento

Última atualização: 09 julho, 2022

O intelectualismo moral é uma posição ética e filosófica que defende que não existem pessoas más, apenas pessoas ignorantes. Ou seja, quem age moralmente de forma errada, o faz porque não sabe o que é bom. Por outro lado, aquele que conhece o bem, sempre o praticará; pois ele percebe que é o verdadeiro caminho para a felicidade.

Essa posição foi proposta pelo filósofo grego Sócrates, cujas ideias tiveram grande influência nas ideias de seu discípulo Platão.

A seguir, detalharemos em que consiste o intelectualismo moral e apresentaremos as críticas que foram feitas a respeito.

O que é intelectualismo moral?

O intelectualismo moral defende que o conhecimento do que é justo e correto, do ponto de vista ético, é suficiente para que o ser humano não cometa nenhum ato maligno. Em outras palavras, basta saber o que é justiça para poder ser justo, e saber o que é bom para poder agir de acordo com o que é bom.

A primeira formulação do intelectualismo moral foi feita por Sócrates, que propôs a autognose (definida pelo filósofo grego como saber o que é justo) como condição essencial e ao mesmo tempo suficiente para o homem agir corretamente.

Dessa forma, Sócrates supõe que, tão logo a pessoa adquira conhecimento do bem, agirá de acordo com ele. Além disso, defende que o contrário também acontece. Ou seja, se alguém não sabe o que é moralmente certo, agirá de forma errada e perversa.

Dito isso, se um indivíduo realizasse uma ação eticamente incorreta, a culpa não seria dele, mas sim do fato de não ter acessado esse conhecimento. Bem, para Sócrates, não havia possibilidade de alguém, por sua simples vontade, agir de forma errada. Isso sugere uma espécie de determinismo, pois deixa de lado o livre-arbítrio.

Pensando mulher sentada na janela
De acordo com a teoria do intelectualismo moral, se uma pessoa age incorretamente, é porque não sabe o que é justo e o que é certo.

Origem e desenvolvimento

O intelectualismo moral baseia-se no dualismo antropológico, que postula que o ser humano é constituído por duas substâncias: a física, que é o corpo; e o imaterial, que corresponde à alma. Entendendo este último fora de qualquer concepção religiosa.

Para Sócrates, a alma é a parte mais importante do ser humano; porque é aí que reside o bem-estar dos seres. Este bem-estar só será alcançado através da virtude (fazer a coisa certa); que, por sua vez, é alcançada através do conhecimento (da verdade, não do erudito).

Ou seja, ser virtuoso levará a uma conduta justa, que levará à felicidade e ao contentamento.

Convencido disso e como cidadão preocupado de seus compatriotas, Sócrates começa a desenvolver esse tema no que pode ser considerado um dos primeiros trabalhos sobre moral e ética.

Intelectualismo moral na política

Neste ponto, é pertinente notar que Sócrates não deixou nenhum de seus pensamentos por escrito. Todos eles transcendidos graças às obras de seu discípulo Platão.

Isso é importante porque, segundo alguns autores, certas implicações da teoria do intelectualismo moral, no campo da política, obedecem mais às crenças do aluno do que às do professor.

No entanto, pode-se dizer que Sócrates foi o primeiro a introduzir o intelectualismo moral na política. Pois bem, esse filósofo defendia uma forma de governo em que reinassem aqueles que sabiam o que era justo e correto, pois só eles eram capazes de buscar o bem para a cidade.

Dito isso, o intelectualismo moral na política fica evidente com a seguinte reflexão de Sócrates:

“Quando uma pessoa fica doente, ele não propõe uma votação entre os familiares para estabelecer qual remédio é adequado para curar a doença. Em vez disso, o médico é chamado e se submete à sua perícia. Quando queremos erguer um edifício, não fazemos uma votação para decidir como construí-lo, mas deixamos o arquiteto impor seus critérios“.

Sócrates pergunta: “por que quando se trata do mais importante de tudo, que é o bem comum e o estabelecimento adequado de leis, deixamos que todos tenham uma palavra a dizer, nos submetemos à maioria e não invocamos aqueles que sabem?” Assim, para o intelectualismo moral, as questões políticas também devem ser deixadas nas mãos de especialistas.

Mais tarde, na obra de Platão, esses pensamentos são desenvolvidos sistematicamente. Este autor defendeu fortemente um governo dirigido pelos mais capazes. Um governo sábio e, portanto, bom e justo, deve buscar o bem-estar e a felicidade de cada cidadão.

político falando
Para Sócrates, é essencial que o governo seja formado por pessoas que saibam o que é justo e o que é certo.

Crítica ao intelectualismo moral

Uma das principais críticas ao intelectualismo moral gira em torno da noção de conhecimento que Sócrates imaginou. É bem conhecido que ele não falava de adquirir mais informações ou de tornar-se um grande matemático, mas ele nunca deixou claro qual era a natureza desse conhecimento que ele pretendia alcançar.

Por outro lado, embora seu pensamento fosse amplamente aceito em sua época, as ideias aristotélicas sobre ética, desenvolvidas posteriormente, fizeram com que o intelectualismo moral fosse ofuscado.

Diante da abordagem socrática, Aristóteles colocou especial ênfase na vontade de fazer o bem, considerando que o simples conhecimento não era suficiente para garantir que o homem se comportasse moralmente corretamente.

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  • Brickhouse, T. C. (2000). The philosophy of Socrates.
  • Gómez Robledo, A. (1994). Sócrates y el socratismo. Lingua2, 70.
  • Puigdomènech López, J. (2016). Ramon Llull. Intelectualismo moral, determinismo cósmico y libertad humana. Annales Universitatis Mariae Curie-Sklodowska, sectio I–Philosophia-Sociologia41(1).