A inteligência dos polvos: um mistério fascinante

maio 9, 2019
A inteligência dos polvos é, hoje em dia, um enorme mistério para os especialistas. Eles possuem laços sociais duradouros, criam ferramentas e sabe-se que, quando os mantemos em locais fechados, eles desenvolvem fobias e planejam hábeis estratégias para escapar.

A inteligência dos polvos é um assunto que atrai cada vez mais a atenção dos cientistas. Estas criaturas, que estão quase entre um alienígena dos oceanos e um cérebro com ventosas, possuem uma mente assombrosa. Um detalhe: os mais de 500 milhões de neurônios que os cefalópodes possuem estão em seus tentáculos e, com eles, eles exploram, sentem, cheiram e até mesmo tomam decisões.

A inteligência dos polvos é, hoje em dia, um enorme mistério para os especialistas. Eles possuem laços sociais duradouros, criam ferramentas e sabe-se que, quando os mantemos em locais fechados, eles desenvolvem fobias e planejam hábeis estratégias para escapar.

As pessoas que trabalham em aquários ou em locais do tipo sabem que os animais que mais costumam dar problemas são os polvos. Todas as pessoas que trabalham nestas instalações costumam contar histórias fascinantes sobre esses animais; de que eles fizeram peripécias para escapar e inclusive para entrar em tanques próximos a eles e roubar comida de outras espécies marinhas. Eles são realmente fascinantes.

Para muitos cientistas, entretanto, a inteligência incomum dos cefalópodes não tem nada de notável. Há quem diga que todas estas habilidades respondem a uma inteligência ecológica simples. Ou seja, que os animais desenvolvem determinadas estratégias em função das demandas do entorno. Portanto, os polvos não são nada além de seres bastante engenhosos na hora de obter alimento em quase qualquer lugar.

No entanto, há um dado chamativo. Piero Amodio, cientista da Universidade de Padua, na Itália, gravou um vídeo que não demorou muito para se tornar viral. Nele, vemos um polvo que usa toda a sua engenhosidade para obter uma concha e poder entrar nela. Mais tarde, o animal guarda a concha e a carrega com ele porque sabe que esta é sua “ferramenta”, e que ela pode lhe ser útil das mais engenhosas formas. Vemos nisso um claro planejamento.

A inteligência dos polvos: características e mistérios

Há mais de 275 milhões de anos, os cefalópodes tinham uma concha externa. Essa característica lhes servia para se defender dos predadores, mas tinha uma limitação: dificultava a busca por alimento.

Sendo assim, se libertar dessa concha lhes permitiu explorar os arredores com mais desenvoltura, entrar em buracos mais estreitos, ganhar força para quebrar conchas, pedras e também para caçar com maior precisão.

Entretanto, por não terem um escudo, tornaram-se vulneráveis. Por isso, são bastante engenhosos na hora de encontrar “substitutos” com os quais podem se proteger. No entanto, a inteligência dos polvos vai além destas tarefas.

Um dos maiores especialistas no assunto é Peter Godfrey-Smith, um filósofo australiano que está em contínuo contato com essas criaturas. Seu objetivo é explorar a origem da consciência através dos cefalópodes.

Assim, o polvo, o mar e as profundas origens da consciência representam um trabalho muito curioso, no qual vale a pena mergulhar para entender melhor estes seres e, consequentemente, parte de nós mesmos.

Nele, Godfrey-Smith conta sobre seu encontro com uma sépia-gigante australiana, um animal que, longe de temer o cientista, o observou e se aproximou para “acariciá-lo” com uma enorme curiosidade. Esse delicado contato o marcou para sempre.

“Você não amará menos o homem, mas amará mais os cefalópodes”.
-Lord Byron-

Mergulhador com polvo

Os polvos modificam seu próprio código genético

Sem dúvida, este dado é surpreendente. Eli Eisenberg, cientista da Universidade de Tel Aviv, realizou um estudo sobre a inteligência dos polvos para descobrir que estes animais são capazes de “manipular” seu próprio código genético.

Os cefalópodes “melhoram” seu sistema nervoso em função das demandas climáticas do ambiente. O que os seus organismos fazem é uma recombinação do ácido ribonucleico (RNA), enviando, desse modo, novas proteínas aos genes para melhorar sua adaptação. Algo que o ser humano só consegue de forma lenta através da evolução, eles conseguem em função de suas necessidades.

Têm a mesma quantidade de neurônios que os cães

Os polvos têm aproximadamente 500 milhões de neurônios, a mesma quantidade que um cachorro tem. Entretanto, os cefalópodes têm seu sistema nervoso repartido em seus tentáculos, por isso, apresentam 9 cérebros: um central e oito periféricos.

Os tentáculos são, sem dúvida, uma parte indispensável da inteligência dos polvos. Com eles, exploram, cheiram, saboreiam e, inclusive, tomam decisões. Ou seja, cada tentáculo pode tomar uma determinada decisão separada dos demais; no entanto, trabalham juntos em harmonia e sem discrepâncias.

“Quando você mergulha no mar, você mergulha na origem de todos nós”.
-Peter Godfrey-Smith, ‘Outras mentes: O polvo, o mar e as profundas origens da consciência’ –

O olhar de um polvo

Brincam, se comunicam e são criativos

Os biólogos descobriram que algumas lulas se comunicam entre si através de um sistema parecido com o código morse. E mais, as pessoas que estão acostumadas a observar o comportamento dos polvos sabem que eles são extremamente criativos.

Constroem seus próprios esconderijos, são capazes de solucionar problemas de forma criativa, concluem desafios, abrem tampas, caixas, caçam com originalidade e, além disso, demonstram ter comportamentos semelhantes aos humanos.

Quando estão em algum lugar que não lhes agrada, são capazes de lançar jatos de água contra seus cuidadores, quando os veem. Desenvolvem manias e gostos. Têm objetos preferidos e também têm aqueles dos quais não gostam e não hesitam em destruí-los. São travessos e desenvolvem apego por alguns cuidadores, e ódio por outros.

Concluindo, assim como assinala o filósofo Peter Godfrey-Smith, entrar no mundo da inteligência dos polvos é entrar, também, em nossa própria consciência. No fim das contas, a mente surgiu no mar; a origem de toda a vida parte do mundo oceânico e, portanto, olhar nos olhos de um cefalópode é ter consciência de que temos uma história compartilhada com eles.

  • Godfrey-Smith, Peter (2017)Otras mentes. El pulpo, el mar y los orígenes profundos de la consciencia. Paidós.