Intuição e instinto: duas capacidades poderosas, mas diferentes

· novembro 21, 2018

Intuição e instinto não são a mesma coisa. Enquanto o segundo gera um comportamento orientado a nos permitir a sobrevivência, a primeira tem um sentido mais profundo em nossa espécie, dotando-nos de uma voz interna que nos ajuda a tomar decisões melhores. Assim, ainda que ambas as dimensões não tenham uma origem comum, elas nos ajudam a responder muito melhor aos desafios que se apresentam no cotidiano.

Para compreender um pouco melhor essa diferença, pensemos em dois maravilhosos personagens literários. Robinson Crusoe é um valente marinheiro de York que, após ficar 28 anos isolado em uma ilha após um naufrágio, faz uso de seus instintos mais básicos para sobreviver a uma azarada e complexa situação.

Por outro lado, Sherlock Holmes é a melhor referência que temos de uma mente habituada a fazer uso de seu instinto policial, das deduções quase inconscientes, ágeis e certeiras com as quais ele consegue resolver os mais desafiantes enigmas.

“Há situações que as pessoas resolvem a partir do instinto, mas que não podem comentar com sua inteligência”.
-Alejandro Dumas-

Dessa forma, o mais interessante dessas duas competências ou comportamentos é que ambas são aplicadas igualmente no nosso dia a dia sem nos darmos conta disso. No entanto, só a intuição é característica exclusiva do ser humano. Saber usar ambos os enfoques, cada um do seu melhor modo e a nosso favor, pode nos ajudar a prosperar com mais segurança, a gerir melhor nossos medos e o estresse, a aproveitar a nossa experiência e capacidade para ter uma vida mais significativa. Vejamos mais dados a seguir.

Olhos fechados para ouvir a intuição

Intuição e instinto, entre a biologia e a percepção

Intuição e instinto não são a mesma coisa, já sabemos. Ainda que muitos cometam o erro de usar ambos os temos indistintamente de modo frequente. É, então, muito comum fazer uso deles em contextos onde nossas sensações ou emoções nos orientam para uma direção ou para outra. Frases como “minha intuição está indicando” ou “estou seguindo meus instintos” são um exemplo claro de que esse pequeno erro conceitual precisa ser bem definido e compreendido para o nosso benefício pessoal.

O que é o instinto?

A partir de um ponto de vista biológico, um instinto é um comportamento inato. São nossas necessidade internas e os comportamentos que nos permitem subsistir em um local determinado. Desse modo, instintos como o de conservação, proteção, sociabilidade, reprodução, cooperação ou curiosidade são faculdades muitos básicas que definem não só os seres humanos, mas também grande parte de todos os animais.

Agora, é muito curioso como, a partir do século XX e com o desenvolvimento da psicologia moderna, o conceito de instinto começou a ser visto como algo incômodo. Era como se esse vínculo nos unisse com uma versão quase selvagem do ser humano, uma dimensão que deveria ser reprimida ou camuflada de alguma forma. Nesse sentido, figuras como Abraham Maslow começaram a popularizar termos como “desejo” ou “motivação” para simbolizar essas necessidades internas de cada um de nós.

Diferenças entre intuição e instinto

Chegado o século XXI, porém, essa concepção mudou bastante. O binômio intuição e instinto voltou a ser altamente apreciado e, no que se refere a essa última dimensão, a reformulação que foi feita do instinto é tão interessante quanto reveladora. Desse modo, nomes como o do médico Hendrie Weiseinger, influente psicólogo clínico e autor do livro ‘O gênio do instinto’, explicam que os instintos não são obscuros nem primitivos. Não são algo que temos que reprimir.

Se aprendermos a usá-los a nosso favor, podemos manejar muito melhor fatores como o estresse e o medo. Além disso, potencializar instintos como a compaixão, o cuidado ou a amabilidade permitiria criar ambientes muito mais enriquecedores e significativos.

Afinal, muito além do que possa parecer à primeira vista, o instinto da compaixão ou da amabilidade existe dentro de cada um de nós, assim como revela um estudo do professor Dacher Keltner, da Universidade de Califórnia.

O que é a intuição?

Há quem pense que a intuição é um conjunto de sensações que nos dá pistas sobre algo. Bom… Cabe dizer que essa dimensão não corresponde a processos mágicos ou a percepções sensoriais; são, melhor dizendo, percepções cognitivas. O próprio Carl Jung definiu a pessoa intuitiva como alguém que pode se antecipar a certos eventos ou situações usando seu próprio material.

  • Esse material inconsciente é o resultado de tudo que somos, tudo que já vivemos, tudo que vimos e experimentamos. É a essência do nosso ser, um arcabouço de informação comprimida à qual o cérebro recorre para obter respostas rápidas, que não passam pelo filtro de uma análise mais objetiva.
  • Por isso, por mais estranho que pareça, os especialistas indicam que deixar-se guiar pela intuição é tão positivo quanto recomendável. De fato, pesquisadores da Universidade de Nova Gales do Sul realizaram um estudo no qual demonstraram que dar razão para a nossa voz interna pode nos ajudar em nossos processos de tomada de decisão.
  • Os psicólogos Galang Lufityanto, Chris Donkin e Joel Pearson publicaram suas descobertas na revista científica Psychological Science. Nesse trabalho, eles concluíram uma vez mais algo em que o mundo científico e o campo da psicologia no geral já acreditavam: fazer uso de informação inconsciente nos permite não só tomar decisões mais rápidas, mas também levar uma vida mais de acordo com nossas necessidades e personalidade.
Confiar na intuição e no instinto

Para concluir, sabemos que intuição e instinto não são a mesma coisa e não compartilham a mesma origem. O instinto tem uma base biológica, enquanto a intuição é o resultado de nossa experiência e do desenvolvimento da consciência. Ambos, no entanto, têm uma finalidade comum inegável: nos permitir estar mais ajustados a nossa realidade, sobreviver de forma mais efetiva, antecipar riscos e dar forma a uma vida mais conectada e satisfatória.