Por que, para Jacques Lacan, amar é dar o que não se tem?

Amar é querer o outro sem idealismo. É deixar de lado a dor que outras pessoas nos causaram para reconhecer que estamos no aqui e no agora, diante de outra pessoa, diante de alguém novo que merece o nosso melhor. Os vazios de ontem não podem ser projetados no presente.
Por que, para Jacques Lacan, amar é dar o que não se tem?

Última atualização: 10 Fevereiro, 2021

Amar é dar o que não se tem. É enxergar o outro como alguém único, novo e excepcional que merece o melhor de nós e sobre quem não devemos projetar padrões errantes do nosso passado. É querer de forma autêntica, livre e madura sem tentar fazer com que esse afeto nos conduza às formas de amor que já vivemos e que nos causaram sofrimento. Dar o que não temos é abraçar o aqui e o agora para reconhecer o outro.

Poucas personalidades tiveram tanta habilidade para construir autênticos malabarismos dialéticos que transmitissem teorias, afirmações e conhecimentos quanto Jaques Lacan. Apesar disso, devemos reconhecer sua maestria inigualável em nos fazer refletir sobre temas decisivos, como o amor.

No aforismo “amar é dar o que não se tem, a quem não se é”, ele constrói um argumento a partir de uma negação, brincando mais uma vez com o jargão psicanalítico. Sua intenção era basicamente fazer com que refletíssemos sobre o assunto. Muitas vezes as pessoas iniciam relações a partir da carência, ou seja, quando o amor que não tiveram na infância é procurado na vida adulta.

Nós buscamos o afeto que nossa última relação não nos trouxe na relação seguinte. Sempre nos entregamos ao amor trazendo um ideal do que ele é. Abdicar desse ideal nos permite nos libertar do passado para dar ao outro o que não tivemos na sua época, ou seja, um afeto verdadeiro.

Casal com velas e luzes

Por que amar é dar o que não temos?

O aforismo “amar é dar o que não se tem” é alimentado pela complexidade das conexões que as pessoas constroem. Jacques Lacan falou disso em seu VIII seminário, “A Transferência”, fazendo referência ao “Banquete” de Platão. Sendo assim, ele ressaltou que o amor se conjuga na figura de um amante ferido pela falta e pela carência. Isso faz com que pensemos que aquilo que nos falta está escondido no outro e que este, por sua vez, também é obrigado a nos dar o mesmo.

Sigmund Freud também abordou este tema. Durante sua prática clínica ele se deu conta de como o paciente transfere muitas dessas carências e vazios que o amor deixou em sua vida, especialmente na infância, durante a terapia psicanalítica. Assim, essa transferência (de que “nos falta algo”) é algo que projetamos em quase todas as relações.

Quando nos relacionamos com outras pessoas, repetimos inconscientemente as relações do passado

Uma coisa que tanto Lacan quanto o próprio Freud nos mostraram foi a ideia de que nosso inconsciente nos influencia mais do que imaginamos. Ele faz isso a ponto de questionar o modo como interagimos com o mundo e estabelecemos relações amorosas e de amizade. Dessa forma, algo que buscamos e precisamos, acima de qualquer coisa, é amor e reconhecimento.

Em continuidade, o aforismo “amar é dar o que não se tem” alude, de acordo com Lacan, a um fato concreto que se incrustou em nosso inconsciente: o paraíso perdido da infância. Muitos de nós carregamos a sombra de um passado desajustado. Um passado no qual nossos progenitores talvez não tenham suprido nossas necessidades, não abraçaram nossos medos e não nos ofereceram um apego seguro e enriquecedor.

Ao longo do nosso crescimento, ansiamos por recuperar aquele paraíso perdido (da infância). Essa necessidade faz com que muitas das nossas relações afetivas fracassem e, à medida que fracassamos no amor sucessivamente, são criados mais vazios, anseios e ansiedades não satisfeitas. Em cada vínculo, costumamos repetir um mesmo padrão de forma que o amor acaba se tornando uma frustrante repetição temperada pela incompreensão e pela infelicidade.

Amar é dar o que não se tem, a quem não se é

De acordo com a psicanálise, há uma forma inevitável de atingir a satisfação e o amadurecimento em nossas relações amorosas. Isso se dá através da abdicação e da aceitação. Devemos abdicar da ideia de que os outros devem nos dar o amor que não recebemos durante a infância, pois essa fase já ficou para trás e porque o afeto dos pais não é igual ao de um parceiro.

Também devemos desistir dessa obsessão de esperar que os novos amores nos ofereçam o carinho que os anteriores não supriram. Isso porque as pessoas que nos causaram danos são outras, e quem ocupa nosso coração atualmente é alguém diferente. Exigir dos outros que reparem os danos causados por terceiros não é lógico, maduro ou recomendável.

É preciso começar do zero e admitir aquilo que não tivemos no passado: o amor. A partir dessa aceitação, nos sentimos mais livres para dar e receber, reconhecer o outro sem cobranças, deixar o passado de lado e abraçar o presente. Amar é dar aquilo que não se tem, a quem não se é, pois essa pessoa é outra diferente daquelas que, no passado, podem ter nos feito mal.

Casal observando o horizonte

Amar aqui e agora, deixando para trás aquilo que já não se é

É certo que o sofrimento de uma infância traumática pode persistir por décadas. É certo, também, que os efeitos de um amor que nos traiu, ou que fragilizou os princípios básicos de respeito e compromisso, perduram com o tempo. Entretanto, nada é tão necessário quanto nos abrirmos a novas relações a partir do presente, do aqui e do agora, deixando para trás o que não somos e o que não existe mais.

Uma tarefa dessas requer tempo. É preciso reparar a autoestima, aceitar o passado, curá-lo e fortalecer o amor próprio para atravessarmos essa porta e, assim, nos permitirmos construir vínculos mais felizes. Só assim construiremos um futuro a dois mais enriquecedor.

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  • Lacan, Jacques (1975). El seminario VIII “La transferencia” Buenos Aires: Paidós
  • Masotta, Oscar (2008). Introducción a la lectura de Jacques Lacan. Buenos Aires: Eterna Cadencia. 
  • Millot, Catherine (2018). La vida con Lacan. Barcelona: NED Ediciones.
  • Žižek, Slavoj (2008). Cómo leer a Lacan (1.ª edición). Buenos Aires: Paidós