Jorge Luis Borges: a biografia de um erudito das letras

outubro 24, 2019
Devido à sua cegueira, durante boa parte de sua vida Jorge Luis Borges precisou da ajuda de amigos e familiares para continuar com seu trabalho literário.

Conheça a biografia de Jorge Luis Borges, um escritor, ensaísta e poeta argentino cujo legado segue impresso em nosso DNA literário.

Ele foi um erudito das letras. Ergueu-se como o escritor favorito dos cientistas por seu espírito profético. Era, acima de tudo, um artista do conto e do realismo mágico que imprimia em cada uma de suas obras, como, por exemplo, O Aleph.

O grande impacto que a obra desse escritor teve na cultura universal faz dele uma verdadeira referência na literatura do século XX. Entre seus múltiplos reconhecimentos está o Prêmio Cervantes de Literatura, o de Comendador das Artes e das Letras da França e, inclusive, o título de Cavaleiro da Ordem do Império Britânico.

O reconhecimento que lhe escapou foi, curiosamente, o Prêmio Nobel de LiteraturaSegundo comentários do seu círculo mais próximo, as razões apontavam para questões políticas.

Outros diziam que seu estilo era excessivamente culto e, ao mesmo tempo, fantástico para que essa distinção lhe fosse concedida.

Seja como for, para esse escritor argentino não ganhar o Nobel nunca foi motivo de muita preocupação. Ele tinha seu estilo próprio, sempre inconfundível. O conto era seu gênero favorito porque, segundo ele, não obrigava o escritor a fazer uso de “enchimento”, como acontecia, por exemplo, com o romance.

As reflexões filosóficas com as quais nos presenteou em cada um de suas histórias traçam um universo próprio e excepcional que nenhum outro autor superou até o momento.

“Minha infância são lembranças de ‘As mil e uma noites’, de ‘Dom Quixote’, dos contos de Wells, da Bíblia inglesa, de Kipling, de Stevenson…”.
-J. L. Borges-

Biografia de Jorge Luis Borges: uma infância na biblioteca

Jorge Luis Borges nasceu em 1899 em Buenos Aires, na Argentina. Em sua família havia duas esferas muito singulares: a militar e a literária. Seu avô, Francisco Borges Lafinur, era um coronel uruguaio. enquanto seu bisavô e seu tio paterno eram poetas e compositores.

Jorge Luis Borges sorrindo

Seu pai, Jorge Guillermo Borges, dava aulas de psicologia e tinha, ao mesmo tempo, um refinado gosto literário. Além disso, assim como o próprio Borges afirmou uma vez, foi ele que lhe revelou o poder da poesia e do simbolismo mágico da palavra.

Ao mesmo tempo, o que mais marcou sua infância foi exatamente a biblioteca do pai, na qual o próprio Borges passou grande parte de sua infância.

“Se tivesse que indicar o evento principal da minha vida, diria a biblioteca de meu pai. Na verdade, creio nunca ter saído dessa biblioteca. É como se ainda a estivesse vendo… ainda me lembro com nitidez das gravuras em aço da Chambers’s Encyclopedia e da Britânica”.

Ele foi uma criança precoce. Aprendeu a ler e a escrever muito rapidamente, talvez devido à clara necessidade de penetrar o quanto antes nesse universo literário no qual habitava. No entanto, fora das paredes dessa biblioteca e do entorno familiar, sua infância não foi exatamente fácil.

Era aquele menino que estava dois anos adiantado na escola, era aquele aluno que sabia tudo, frágil e que costumava gaguejar, o que o tornava motivo de ridicularização e zombaria por parte das outras crianças.

Época de exílio, época de criação

Quando começou a Primeira Guerra Mundial, a família Borges estava na Europa. Seu pai havia acabado de perder a visão (doença que, mais tarde, o próprio Jorge Luis Borges herdaria) e estava em uma clínica submetendo-se a um tratamento oftalmológico.

O conflito bélico os obrigou a viajar continuamente pela Europa, até que se estabeleceram durante alguns anos na Espanha. Em 1919, Borges escreveu dois livros: Os ritmos vermelhos e Los naipes del tahúr.

Por sua vez, entrou em contato com escritores muito relevantes para sua obra posterior, como Ramón Gómez de la Serna, Valle Inclán e Gerardo Diego.

Em 1924 e de volta à Buenos Aires, Jorge Luis Borges começou a criar inúmeras revistas para dar testemunho de suas ideias, de tudo o que aprendeu, viu e sentiu na Europa. Seus contos, seus ensaios e seus poemas o transformam em um dos escritores mais jovens e promissores da América.

Jorge Luis Borges em preto e branco

Nesse período, seu estilo navegou primeiro entre um ar vanguardista e cosmopolita que mais tarde se desviou para um estilo mais metafísico.

Pouco a pouco, ele foi polindo esse fascínio pelo tempo, pelo espaço, pelo infinito, pela vida e pela morte que o tornaram um verdadeiro erudito nesses assuntos. Exatamente onde o real se combina com o fictício. Onde o estranho convida o leitor a se aprofundar em questões filosóficas.

A cegueira, época de escuridão e a passagem a outro despertar na biografia de Jorge Luis Borges

A chegada de Perón ao poder, em 1946, não foi uma boa notícia para Jorge Luis Borges. A fama de antiperonista e seguidor de uma linha política mais conservadora foi algo que o acompanhou para sempre.

Chegados os anos 1950, a Sociedade Argentina de Escritores o nomeou presidente. No entanto, ele mesmo renunciou ao cargo alguns anos mais tarde.

Sua carreira literária marcava todas as suas obrigações. Em Paris, era publicada grande parte de suas obras, como A morte e a bússola, e ensaios como Outras inquisições estavam chegando com grande sucesso ao público argentino.

Sua obra fundamental, O Aleph, estava em sua segunda edição e, inclusive, foram gravados filmes baseados em alguns de seus contos, como Dias de Ódio.

No entanto, durante essa mesma década, aconteceu o que ele definiu como a verdadeira contradição de seu destino. O governo peronista havia sido derrotado após um golpe militar e Borges foi designado diretor da Biblioteca Nacional.

Justo naquele momento a doença herdada de seu pai já estava se mostrando presente: ele estava ficando cego. Não poderia mais ler nem escrever.

“Ninguém rebaixe a lágrima ou rejeite

Esta declaração da maestria

De Deus, que com magnífica ironia

Deu-me a um só tempo os livros e a noite”.

-Jorge Luis Borges-

Uma vida na escuridão repleta de sucessos

A cegueira não o privou de continuar trabalhando. Sua família, em especial sua mãe, mais tarde sua esposa, Elsa Astete Millán, e depois sua última companheira, a escritora argentina María Kodama, foram essenciais em seu trabalho literário e em suas leituras.

Continuou publicando obras como O livro dos seres imagináriosO fazedor, livros de poemas como O ouro dos tigres, e chegou até mesmo a colaborar durante anos com a Universidade de Harvard.

Sua vida artística foi intensa, rica e muito produtiva independentemente desse mundo de escuridão que cobria seus olhos. Além disso, pediu sua aposentadoria como diretor da Biblioteca Nacional de Buenos Aires em 1973. Já havia dedicado quase 20 anos de sua vida a esse trabalho.

Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges faleceu em 1986 devido a um câncer de pâncreas em Genebra, na Suíça.

Foi enterrado em um cemitério nesse mesmo país, sob uma lápide com uma cruz branca na qual está gravada a seguinte inscrição “And ne forhtedon na” (e não tenha medo) em referência a uma obra norueguesa do século XIII que apareceu em um de seus contos: Ulrica.

  • Barnatán, M.R. (1972.). Jorge Luis Borges. Ediciones y Publicaciones Españolas
  • Borges, Jorge Luis (1974). Obras Completas. Buenos Aires
  • Bulacio, Cristina; Grima, Donato (1998). Dos Miradas sobre Borges. Buenos Aires: Gaglianone.