Jurassic Park, a consciência por trás da fantasia

fevereiro 14, 2019

Se você cresceu nos anos 90, provavelmente houve um momento da sua infância no qual você sentiu um grande fascínio pelos dinossauros. Foi a época da Dinossauromania, uma moda que apareceu entre os mais jovens e que foi impulsionada pelos filmes de Jurassic Park.

O primeiro desses filmes, dirigido por Steven Spielberg, estreou em 1993 e se baseou no livro homônimo de Michael Crichton. O investimento foi milionário, transformando o longa em um dos mais caros produzidos até então. A recepção do público foi extraordinária e Jurassic Park logo se tornou o filme com a maior arrecadação da história do cinema (até 1997, quando foi desbancado por Titanic).

Qual é o verdadeiro segredo desse sucesso? Além de uma fantástica campanha de marketing, Jurassic Park apareceu em um momento muito favorável. Os efeitos especiais das décadas de 70 e 80, por mais que surpreendessem, eram bastante rudimentares, mas as novas tecnologias que começaram a nascer na época anterior à Internet permitiram que Jurassic Park mostrasse efeitos jamais vistos.

Nós, crianças, ficamos fascinados com aqueles estranhos animais extintos; eles pareciam tão reais que ficaram gravados em nossa memória para sempre. Apesar da dificuldade dos seus nomes, todos nós sabíamos o que era um Velociraptor, um Triceratops e, com certeza, um Tiranossauro rex. Também sabíamos diferenciá-los entre carnívoros e herbívoros, e conhecíamos uma infinidade de dados sobre animais que nunca vimos fora das telas do cinema.

O fascínio e o sucesso que eles provocaram levaram à gravação de suas respectivas continuações, e também foram feitas adaptações dirigidas a um público mais infantil, com no desenho Em Busca do Vale Encantado, produzido por Spielberg.

Os anos 90 foram marcados pelos dinossauros; crescemos com eles e, pouco depois, com a chegada do novo século, parecia que a febre já havia passado. Até que, em 2015, apareceu um quarto filme dessa sequência, chamado Jurassic World. O sucesso não foi igual ao do primeiro, mas a curiosidade daquelas crianças (hoje já adolescentes e jovens adultos) voltou a despertar e os dinossauros lotaram, mais uma vez, as salas de cinema.

Recentemente, houve a estreia de um segundo filme dessa nova série, e o mais curioso é que, ao assisti-lo do ponto de vista de um adulto, nós percebemos que Jurassic Park esconde muito mais do que meros rugidos e ficção científica.

Cena do filme Jurassic Park

Jurassic Park, as questões éticas

Outro dos segredos do sucesso de Jurassic Park é, sem dúvida, o momento científico que foi vivido naquela época. Não vamos esquecer que os anos 90 foram também o tempo da Ovelha Dolly e que as notícias falavam de possíveis avanços que, até então, pareciam não ser possíveis.

Por isso, a ideia de que, a partir de um mosquito fossilizado, fosse possível extrair o sangue de um dinossauro e conseguir cloná-lo parecia possível e, ao mesmo tempo, fascinante para a época.

Naquele momento, nós ainda não sabíamos que os dinossauros tinham penas e que o temido Tiranossauro rex não rugia e emitia um som muito mais parecido ao de uma ave (os seus parentes mais próximos). No entanto, muitos cientistas contribuíram para que a imagem desses dinossauros fosse a mais realista possível.

Este primeiro filme mostra um multimilionário que decide construir um parque peculiar na Ilha Nublar, e sua equipe de cientistas “ressuscita” esses dinossauros combinando os restos de DNA encontrados nos mosquitos com o DNA de rãs para “preencher” as lacunas ausentes.

O dono do parque decide, então, contratar o paleontólogo Alan Grant e a paleobotânica Ellie Sattler para que eles façam parte do comitê de avaliação.

Cena do filme Jurassic Park

Os dois especialistas ficam fascinados ao descobrir estas espécies, porque dedicaram toda a vida ao seu estudo. No entanto, desde o começo, vemos como eles questionam algumas das decisões que foram tomadas e a própria moralidade do parque.

As espécies criadas são todas fêmeas porque, assim, eles evitariam a sua reprodução e poderiam controlar a população de dinossauros. No entanto, o DNA de algumas das rãs utilizadas na clonagem é originário de uma espécie que, ao se encontrar em um ambiente unissex, é capaz de mudar o seu sexo.

Portanto, estes dinossauros conseguem se reproduzir do mesmo modo que as rãs, mostrando, assim, que a vida sempre encontra um caminho, e que a luta pela sobrevivência está sempre presente em qualquer espécie, adaptando-se às mudanças de acordo com a teoria da evolução.

Dessa forma, o filme destaca o eterno dilema da ciência, o “brincar de ser Deus”, e nos leva a questionar se os seres humanos realmente devem decidir sobre a vida de outras espécies.

Ao longo da história, nós presenciamos como um grande número de animais desapareceu do planeta por causa da intervenção e do capricho do homem; os dinossauros, por outro lado, foram extintos por decisão da natureza, sem a intervenção humana. Por que ressuscitá-los? Há algum sentido em reviver uma espécie já extinta? Ou não seria isso mais um capricho do homem?

Apesar da fantasia, Jurassic Park se aproxima enormemente da nossa realidade, propondo um discurso ético sobre os nossos próprios atos, sobre o Especismo que nós vivemos no dia a dia. Nós acreditamos ser capazes de decidir sobre as suas vidas, sua reprodução, sua alimentação, e até lhes damos um papel para que eles estejam a nosso serviço: o porco é alimento, as raposas são casacos, os cachorros são amigos e os macacos, uma diversão.

Cena do filme Jurassic Park

Jurassic Park, o negócio

Os últimos filmes da série voltaram a despertar a nossa curiosidade, mas agora queremos saber mais sobre a verdadeira mensagem que eles estão tentando transmitir. Em Jurassic World (2015) vemos que os dinossauros continuam vivendo na Ilha Nublar, transformada agora em um parque de atrações com uma tecnologia digna dos tempos atuais.

O parque expõe os seus animais como se fosse um zoológico, tudo para satisfazer a curiosidade humana e para que algumas poucas pessoas lucrem com isso. Todo parque de diversões que deseja continuar atraindo o público deve inovar, e melhor do que fazer a mutação de um dinossauro é exibir o exemplar mais terrível de todos os tempos, uma espécie criada por e para os seres humanos: o Indominus rex, um nome bem atraente para que os velhos e novos visitantes decidam passar um fim de semana de aventuras na Ilha Nublar.

Cena do filme Jurassic World

Assim como nos filmes anteriores, este negócio fará com que muitos esqueçam que aqueles que vivem no parque são seres vivos, seres que não devem ser expostos ao público como se fossem atrações. Todo esse jogo terá, como nos filmes anteriores, consequências catastróficas que nos farão repensar os limites da ciência e, especialmente, a nossa própria consciência ética sobre o restante das espécies.

No último filme, Jurassic World: Reino Ameaçado (2018), o enredo segue um rumo bem diferente. A ilha foi abandonada, mas os dinossauros continuam vivendo nela. É então que um vulcão em erupção ameaça a existência dessas espécies, e por isso surgirão dois partidos opostos: aqueles que consideram que a própria natureza está corrigindo o erro cometido quando eles foram clonados e aqueles que, agora que os dinossauros voltaram à vida, pensam que nós devemos impedir a sua extinção.

Um debate moral complexo que lembra constantemente a vida dos zoológicos, o abuso que nós fazemos de todas as espécies que não são humanas, o egoísmo e a ideia da superioridade humana. Uma crítica que muitas pessoas não perceberam na infância, mas pela qual, hoje, deveríamos agradecer.

Nós somos realmente conscientes do nosso impacto sobre a natureza, tanto sobre o meio ambiente quanto sobre as outras espécies? A partir da mais pura fantasia, Jurassic Park coloca em pauta muitos atos cotidianos e nos convida a pensar que, se realmente queremos um planeta melhor, deveríamos refletir sobre o tratamento que damos ao restante das espécies que nele habitam.

“O segredo para uma vida feliz é aceitar que nós nunca temos o controle”.
– Jurassic Park –