Karoshi: a morte por excesso de trabalho

março 7, 2019

No dia de Natal de 2015, Matsuri Takahashi, uma mulher de 24 anos, atirou-se pela janela de sua casa. Ela havia começado a trabalhar na Dentsu, a gigante agência mundial de publicidade, em abril do mesmo ano. Mais uma vítima de Karoshi, a “morte por excesso de trabalho”, reconhecida como acidente de trabalho pelas autoridades japonesas desde 1989.

Em sua conta no Twitter, Matsuri admitiu que só dormia “duas horas” por dia e que tinha jornadas laborais de 20 horas. Ela também chegou a escrever: “meus olhos estão cansados e meu coração está morto” e “eu acho que seria mais feliz se me matasse”.

Embora estes casos dramáticos pareçam algo distante e típico de outros países, o karoshi é apenas um reflexo brutal de até onde chega a mentalidade capitalista, que mistura a meritocracia com a competição mais árdua por ser (ou parecer) mais dignos de ocupar um lugar neste mundo.

Karoshi: o trabalho no Japão é uma questão de honra

Em média, um empregado japonês trabalha 2.070 horas por ano. O excesso de trabalho é a causa da morte de cerca de 200 pessoas ao ano, por ataque cardíaco, acidente vascular cerebral ou suicídio. Além disso, há muitos problemas de saúde graves derivados de trabalhar sem descanso.

Esta forma de tratar o trabalho é um dos legados da idade de ouro da economia japonesa da década de 1980. Hideo Hasegawa, professor universitário e ex-executivo da Toshiba, expressa com perfeição essa ideia de trabalho: “Quando você é responsável por um projeto, é preciso finalizá-lo, sob qualquer condição. Não importa o número de hora que tiver que trabalhar. Caso contrário, não estará sendo profissional”.

Na década de 1980, a publicidade japonesa exaltou a abnegação dos empregados com um lema: “Você está pronto para lutar 24 horas por dia?”.

Funcionários uniformizados demonstrando respeito

A reputação pelo bom trabalho que persegue os japoneses obcecados não é um mito. Muitos funcionários se sentem culpados por deixar a empresa para tirar férias, temendo ser percebidos como “aquele que descansa enquanto os outros trabalham em seu lugar”.

Existem casos de empregados que não querem voltar para casa muito cedo por medo do que seus vizinhos e familiares vão dizer sobre sua suposta falta de seriedade. Além disso, muitos tentam sair para tomar algo com os colegas de trabalho para fomentar a cultura corporativa.

Mas este árduo trabalho não é muito lucrativo. Na verdade, sua produtividade muitas vezes é descrita como baixa por observadores externos que acreditam que isso explica parcialmente as deficiências de competitividade das empresas locais.

A longo prazo, esta forma de trabalhar não só é pouco competitiva em termos mercantis, como também representa um risco para a saúde da população, o que pode levar ao colapso dos recursos médicos. De fato, a depressão e o suicídio já aparecem como os principais desafios a serem enfrentados em uma sociedade obcecada em acumular horas de trabalho.

Como é possível que uma pessoa chegue ao estado de karoshi

O problema é que o esgotamento continua sendo um “conceito difuso” que, no momento, não aparece em nenhuma das principais classificações internacionais sobre os transtornos mentais. As pessoas podem estar em um hospital com sintomas associados ao esgotamento: cansaço extremo, esgotamento emocional ou despersonalização com insensibilidade em relação aos outros, sem que os sintomas sejam identificados como um quadro de karoshi.

Não existe um diagnóstico claro para esses sintomas, e tampouco existem determinados parâmetros para saber se chegamos ao limite do que se pode trabalhar sem correr risco para a saúde. Esta falta de consciência de saúde mental, as práticas de trabalho cada vez mais abusivas e um mercado de trabalho transformado pela tecnologia fazem com que as pessoas ultrapassem todos os limites da dedicação ao trabalho.

O medo do desemprego e de permanecer fora do sistema faz com que as pessoas acreditem que trabalhar a qualquer momento é uma boa opção, quando na realidade as capacidades intelectuais diminuem e as consequências para a saúde podem ser irreversíveis, com maior risco de cair em vícios de todos os tipos.

karoshi, portanto, se pareceria com um “estresse crônico” ao qual não se pode resistir; os pacientes não têm a capacidade de suportá-lo e caem em depressão. No entanto, o termo burnout é muito mais aceito socialmente no Japão do que a depressão, já que o esgotamento extremo é considerado quase como um “título de glória”, enquanto uma depressão é claramente menos “gloriosa”: é percebida como uma forma de fraqueza.

Este fenômeno não se restringe apenas aos japoneses. Os norte-americanos também lhe deram um nome: “workaholism”. Esta dependência do trabalho também acontece na Europa. Na Espanha, mais de 12% da população sofre dessa doença, e 8% destes trabalham mais de 12 horas por dia. Na Suíça, uma em cada sete pessoas ativas admite ter sido diagnosticada com depressão.

Mulher estressada no trabalho

Medidas para combater o karoshi

Para lutar contra o fenômeno, a mentalidade deve mudar. Para começar, os empresários japoneses terão que se desprender da falsa ideia de que as longas jornadas de trabalho são imprescindíveis. Eles teriam que aprender com países europeus como a Alemanha, França ou Suécia e avançar para um modelo de negócio que promova jornadas mais curtas.

O governo do Japão já está agindo por meio de reformas legais e de uma supervisão administrativa mais meticulosa, utilizando corretamente a autoridade do Estado para acabar com as longas jornadas. O Estado aprovou uma reforma que permite que as empresas parem de pagar horas extras aos trabalhadores que ganham mais de 350 mil reais por ano, que são os mais propensos a sofrer esgotamento.

Além disso, o Estado quer impor um mínimo de 5 dias de férias aos trabalhadores japoneses para lutar contra o excesso de trabalho, prejudicial para a saúde dos empregados e para a produtividade empresarial. Na Terra do Sol Nascente, os trabalhadores são recompensados com 20 dias de férias pagas por ano, se tiverem pelo menos seis anos e meio de casa. No entanto, os empregados usam menos de metade dessas férias.

A nova lei não se aplica aos empregados a tempo parcial, apenas aos que têm direito a pelo menos 10 dias anuais de férias pagas. Na verdade, isso se aplicaria quando os danos na saúde devido à fadiga são reais, seja por acidente de trabalho ou perigo de morte.

Por fim, os cidadãos também devem estar envolvidos na transformação dos locais de trabalho, fazendo a sua voz ser ouvida pelos empresários e pelo governo, exigindo condições de trabalho factíveis que os aliviem da pressão.

Como cidadãos, é igualmente necessário refletir e avaliar se, com a nossa excessiva demanda por serviços, não estaremos promovendo o endurecimento das condições laborais dos trabalhadores.

  • Nishiyama, K., & Johnson, J. V. (1997). Karoshi—death from overwork: occupational health consequences of Japanese production management. International Journal of Health Services27(4), 625-641.
  • Uehata, T. (2005). Karoshi, death by overwork. Nihon rinsho. Japanese journal of clinical medicine63(7), 1249-1253.
  • Kanai, A. (2009). “Karoshi (work to death)” in Japan. Journal of business ethics, 84(2), 209.