O que nos leva a lembrar dos sonhos ou a esquecê-los?

· fevereiro 13, 2019

Passamos quase um terço da vida dormindo. No entanto, nem sempre percebemos o que acontece nesse universo mais onírico, estranho, fascinante e de características surreais onde surgem significados reveladores. Por que isso acontece? Por que, às vezes, não conseguimos lembrar dos sonhos?

Dizia Salvador Dali que o fato das pessoas não entenderem o sentido de sua arte não significava que ela não tivesse um. Grande parte das obras deste inesquecível pintor, escultor, desenhista e cenógrafo se alimentavam do mundo dos sonhos. Dali era um navegador, um especialista em sonhos lúcidos que provocava em si mesmo durante seus cochilos.

Existe quem tenha uma grande facilidade para lembrar com detalhes de cada um dos seus sonhos. Outras pessoas, ao contrário, têm a sensação de não ter sonhado nada, porque a sua lembrança é muito vaga, quase inexistente. Este fato, o de lembrar dos sonhos ou não, se deve a uma região cerebral muito particular.

Infelizmente, a maior maioria da população não dispõe dessa habilidade. Ou seja, a porcentagem das pessoas que conseguem lembrar do conteúdo de um sonho é bastante inferior em comparação com as que ficam com uma impressão, uma sensação, um conjunto de imagens desorganizadas e quase sem sentido.

Esta realidade, que para muitos indivíduos pode chegar a ser frustrante, tem várias explicações que vamos esclarecer a seguir.

Obra de Salvador Dali

Por que às vezes é tão difícil lembrar dos sonhos?

Nós distribuímos o nosso sono – em termos médios – em ciclos de 90 ou 100 minutos que, por sua vez, podem ser divididos em diferentes etapas. É na fase REM que acontecem os sonhos mais vívidos, aqueles que nos envolvem nos mais fascinantes e aterradores cenários onde as emoções e as sensações estão sempre à flor da pele.

Também é necessário saber que a fase REM, além de ser a etapa mais longa do sono, também é a última. Portanto, é comum acordarmos inesperadamente e só lembrarmos dos últimos instantes desta fase.

Pois bem, muito além das fases do sono, algo que muitos neurologistas dizem é que o “cérebro adormecido” não têm memória. Ou seja, não estamos programados para armazenar dados durante esta etapa porque, aparentemente, não acontece nada importante que possa ser de grande utilidade. Porém, por que algumas pessoas conseguem se lembrar dos sonhos e outras não?

A resposta foi dada por um estudo recente da Universidade de Monash, de Melbourne, Austrália. Trata-se de uma teoria que já foi divulgada em 2011 na revista Neuron, depois da execução de uma série de exames por ressonância magnética.

O segredo está no hipocampo. Esta estrutura cerebral, que está ligada com as nossas emoções e a memória, seria a “culpada” por não nos permitir conservar muitos desses sonhos que vivemos todas as noites.

O hipocampo e o mundo onírico

O hipocampo e o mundo onírico

Quem pensa que, quando estamos dormindo no sofá ou na cama, o cérebro se “desconecta”, se engana completamente. Não existe uma desconexão completa, mas entramos em outro estado de energia. Deste modo, uma das últimas estruturas a passar do modo consciente ao inconsciente é o hipocampo.

Esta área se encarrega, entre outras coisas, de passar a informação da memória a curto prazo para a de longo prazo. Assim, existem pessoas que, por diversas razões, chegam à desconexão desta área um pouco mais tarde do que o resto, o que lhes permite conservar mais fragmentos deste tecido onírico.

O resto, cerca de 90% das pessoas, não se lembra dos sonhos, e isso acontece porque executamos essa desconexão do hipocampo em um momento exato marcado pelo cérebro para poder, dessa forma, fazer outras coisas “mais importantes”.

Cabe dizer, além disso, que o hipocampo continua funcionando para outras tarefas. Durante essas fases do sono, ele é destinado a filtrar a informação importante daquela que não é. Apaga os dados, elimina várias informações e imagens vistas durante o dia, para guardar na memória de longo prazo aquilo que é considerado importante. Ele fica tão concentrado nesse processo que raras vezes presta atenção ao filme onírico no qual estamos envolvidos.

Por outro lado, e graças a um artigo publicado na revista Neuropsychopharmacology, foi possível comprovar que as pessoas que costumam lembrar dos seus sonhos, além de apresentarem um hipocampo mais consciente, exibiam também uma maior atividade na união temporoparietal (o centro de processamento de informações no cérebro).

De certa forma, podemos dizer que a diferença entre os que não lembram dos sonhos e os que sim não se deve à casualidade, mas ao fato de ter um cérebro com um hipocampo mais ativo e reticente ao se desconectar durante as noites.

O que podemos fazer para lembrar dos sonhos?

São muitas as pessoas que gostariam de lembrar de cada sonho com mais nitidez. Se conseguissem fazer isso, é como se pudessem entender coisas de si mesmas que, à primeira vista, não são tão conscientes ou evidentes. Cabe dizer que nenhuma das técnicas que costumam ser propostas para manter esta lembrança são recomendáveis, nem 100% eficazes.

A teoria mais recorrente é aquela que sugere programar o despertador em ciclos de 30 a 35 minutos. Esse despertar súbito vai nos permitir lembrar do sonho e transcrevê-lo em um caderninho. Como é evidente, esta sugestão vai nos levar a ter um sono de má qualidade, e não conseguiremos descansar da maneira adequada. Não é recomendável.

Para finalizar, vale mencionar somente que, se nós não lembramos dos sonhos, é porque o cérebro não os considera importantes. Ou seja, em média, os sonhos dos quais costumamos lembrar são sempre os mais importantes. São aqueles que têm um maior componente emocional e, portanto, podem envolver uma mensagem a ser interpretada, na medida do possível.