Como lidar com as emoções em momentos de crise

12 Setembro, 2020
Em momentos de crise é normal experimentar altos e baixos emocionais, e até mesmo incômodos físicos, como dores de cabeça ou nas costas. Aprender a lidar com essas realidades nos permitirá avançar muito melhor pela vida.
 

Lidar com as emoções em momentos de crise não é uma tarefa fácil, principalmente com as nossas próprias emoções. Geralmente, as experimentamos de forma caótica, perturbadora e também exaustiva. O medo se confunde com ansiedade e, ao mesmo tempo, sentimos pontadas de uma esperança que nos encoraja a seguir em frente apesar de tudo, mas também surge frustração e até mesmo raiva quando vemos que as coisas nem sempre acontecem como esperamos.

As emoções se movem, elas vêm e vão, nos prendem e alteram os nossos pensamentos. A anatomia dessas realidades psicofisiológicas nos determina por completo, mas geralmente seguimos sem saber usar seu potencial e sua incrível utilidade que pode nos permitir avançar, sobrevivendo em cenários complexos que percorremos neste momento.

Em Grandes Esperanças, Charles Dickens disse que um coração que ama, sente, se alegra e sofre costuma refletir a mais autêntica das sabedorias. Talvez tenhamos nos esquecido deste último ponto: ser capaz de viver toda essa ampla paleta de emoções e sentimentos proporcionados pela vida (e aprender com elas) é uma das vantagens mais notáveis que possuímos.

Em momentos de crise, mudanças e incertezas, o teste mais decisivo de todos recai sobre nós. O teste que implica não bastar apenas sobreviver, resistir a todas as tormentas, a todos os ataques e reveses que o destino possa trazer.

Trata-se também de traçar um plano para fazer o nosso próprio caminho, para avançar com determinação, tendo os nossos objetivos claros em mente para alcançar equilíbrio e bem-estar. Vamos nos aprofundar neste assunto.

 
Homem olhando para o mar

Lidar com as nossas emoções durante as crises

Algo surpreendente sobre as crises é que o cérebro as processa como uma ameaça. Esses períodos, que são normais e de certa forma esperados ao longo da vida e do ciclo real de toda a sociedade, são vistos pela nossa mente como a ruptura de algo que já estava certo.

O fato de que muitas das coisas que não eram seguras ou previsíveis estejam mudando ativa nossa amígdala cerebral, produzindo doses altas de emoções de valência negativa como, por exemplo, o medo e a raiva.

O conhecido antropólogo Juan Luis Arsuaga sinaliza que cada época, cada ciclo da humanidade tem sua própria crise, e nós vivenciamos a crise que envolve a nós e todos aqueles que conhecemos. Portanto, não há uma única estratégia que nos permita sumir do contexto no qual estamos inseridos.

O que há, na verdade, é uma obrigação. O ideal é tentar agir como indivíduos responsáveis, ​​e isso acontece primeiro cuidando da nossa saúde mental, das nossas emoções.

Aceitar nossos altos e baixos emocionais

Antes de tudo, devemos entender uma coisa para lidar com as nossas emoções durante momentos de crise: a trama emocional que vivenciamos nestes momentos é formada por altos e baixos — uma hora ficamos com raiva, depois ficamos esperançosos e logo sentimos angústia.

 

O fato de que isso acontece é completamente normal. É necessário aceitar toda emoção sentida. Devemos validar cada sensação experimentada pelo nosso corpo, cada sentimento que se instala em nossa mente.

Estes altos e baixos emocionais não são o resultado de uma mente que perde o controle. Isto não é nenhum transtorno psicológico. São processos completamente normais.

As emoções são “viscerais” durante as crises

Geralmente, costumamos experimentar as emoções de forma visceral durante períodos de crise. O que isso significa? Significa que sentiremos dor de estômago. Implica que a nossa aparência vai ficar mais cansada, sentiremos mais vontade de dormir em algum momento do dia. Pouco a pouco, a hiperatividade surge e, com ela, a vontade de se movimentar. Mais tarde vem a dor de cabeça ou a dor de estômago.

Estes incômodos “nômades” são resultado das emoções se manifestando em nosso corpo e pedindo, ao mesmo tempo, para serem aceitas, entendidas e gerenciadas pela nossa mente. Portanto, não podemos deixar de atender essas sensações físicas.

Lidar com as nossas emoções durante as crises: dar espaço e transformar

Para lidar com as nossas emoções durante as crises, em primeiro lugar, devemos entender qual é o nosso padrão emocional nestas circunstâncias. Ou seja, há pessoas que reagem com uma elevada ansiedade diante de uma mudança ou situação de incerteza. Outras, no entanto, fazem uso de um olhar mais calmo, centrado e flexível.

 

Seja como for, sabemos que não é fácil para ninguém. Mas o mais importante é não perder o controle. Saúde mental é sentir as emoções adequadas no momento adequado e entender como reagir. Ou seja, em momentos complexos é compreensível sentir tristeza, medo, incômodo, raiva, etc. Não reconhecer estas emoções, negá-las ou amplificá-las ao ponto de se deixar levar por elas não é o mais adequado a se fazer.

É necessário saber identificar cada emoção. É preciso fazer com que esse nó gigante e caótico de emoções se transforme em pequenas partes para que seja possível identificá-las e dar espaço a elas, aceitando-as. Mais tarde, chegará o momento de “domá-las”.

Uma coisa que deve ficar clara é que nós não podemos transformar uma emoção negativa em uma emoção positiva. Ninguém pode passar da tristeza para a alegria, mesmo que deseje com todas as suas forças. O cérebro não tem um interruptor. Em vez disso, tem um córtex pré-frontal que nos permite refletir, olhar as coisas a partir de outra perspectiva.

Um estudo realizado pela doutora Bárbara Fredikson, da Universidade de Michigan, comprovou algo importante. Educar nosso cérebro em dimensões como a esperança, pensando que o amanhã será melhor que o presente e que as coisas vão melhorar, pode nos ajudar em períodos de crise.

Jovem refletindo sobre a sua vida
 

Criar refúgios emocionais: todos nós estamos passando pelo mesmo

Lidar com as nossas emoções em momentos de crise também envolve saber pedir ajuda. Não podemos nos esquecer de que esta crise é global e de que, de alguma forma, a maioria de nós enfrenta os mesmos medos e necessidades.

Poder contar com alguém é sempre algo positivo. Criar refúgios emocionais com pessoas com as quais podemos conversar, desabafar e compartilhar pensamentos é muito catártico e benéfico.

Para concluir, como dizia Albert Einstein, somente a imaginação é mais decisiva que o próprio conhecimento em momentos de crise. É ela que nos ajuda a criar possíveis rotas de mudança para responder bem aos problemas. No entanto, não podemos nos esquecer do aspecto emocional. Cuidar desse universo interno é decisivo para poder dar sempre o melhor de nós mesmos.

 
  • L. Fredrickson, B (2003) What Good Are Positive Emotions in Crises? A Prospective Study of Resilience and Emotions Following the Terrorist Attacks on the United States on September 11th, 2001. Journal Personality Psychology. 2003 Feb; 84(2): 365–376.