Você sabe o que o medo provoca no cérebro?

04 Maio, 2020
Quando você sente medo, seu coração acelera, você abre os olhos, seu nível de atenção aumenta (você consegue se concentrar mais e por mais tempo), etc. Mas o que realmente acontece no cérebro em uma situação desse tipo?
 

Chamamos de medo a sensação de angústia que experimentamos diante de uma situação de perigo ou ameaça, seja ela real ou imaginária. No cérebro, o medo é o resultado da ativação de um sistema de alarme adaptativo diante do perigo, que leva a mudanças fisiológicas, comportamentais e cognitivas que nos ajudam a sobreviver. A seguir, vamos entender melhor o que o medo provoca no cérebro.

Ao longo da história da neurociência, o medo tem sido associado a uma estrutura cerebral chamada amígdala. Esta se situa no sistema límbico e desempenha um papel fundamental na busca e detecção de sinais de perigo, além de estar envolvida em outras emoções. A amígdala geralmente fica inativa, mas isso muda com a menor ameaça.

Mais recentemente, pesquisadores verificaram que o medo envolve outras estruturas e redes que, juntas, preparam nosso corpo para enfrentar a ameaça. De fato, uma metanálise recente descobriu que a amígdala não é a estrutura mais importante do medo.

Amígdala cerebral em destaque
Amígdala

Aprendizado do medo

Embora o medo surja naturalmente, grande parte dos nossos medos surgem por aprendizado. É o que chamam de condicionamento do medo, e podemos realizá-lo intencionalmente.

 

Esse aprendizado pavloviano ocorre após o emparelhamento repetitivo de um estímulo neutro (por exemplo, um quadrado) com um estímulo aversivo (por exemplo, um ruído alto).

Assim, o estímulo neutro, que a princípio não provoca reação, acaba gerando uma resposta condicionada, como cobrir os ouvidos.

Podemos ver o aprendizado do medo em transtornos nos quais a pessoa não tinha, previamente, sentimentos negativos associados a um evento. Por exemplo, alguém que pegava transporte público, mas após vários ataques de pânico e a subsequente percepção de que pode morrer, passou a ter aversão ao ônibus.

O medo provoca alterações em algumas áreas do cérebro

Em resumo, o medo ativa as seguintes áreas cerebrais: a ínsula, o córtex cingulado anterior dorsal e o córtex pré-frontal dorsolateral.

  • Ínsula: localiza-se em ambos os lados do cérebro. Essa região integra informações de tipo cognitivo e fisiológico e está relacionada à formulação de previsões sobre o que pode acontecer. Também é responsável por integrar emoções provenientes da amígdala e dos sentidos, dando origem à interpretações de ameaças. Além disso, está relacionada ao condicionamento aversivo, que antecipa as consequências.
  • Córtex cingulado anterior dorsal: tem um papel essencial no aprendizado do medo e no comportamento de evitação, assim como na experiência subjetiva da ansiedade. Atua como mediador em situações de conflito, determinando a importância de um estímulo, direcionando nossa atenção e proporcionando racionalidade. Assim, quanto mais ele se ativa, mais atenção dedicamos e, portanto, maior é o medo.
 
  • Córtex pré-frontal: a região dorsolateral se relaciona com a regulação emocional do medo e a expressão de respostas fisiológicas relacionadas. Por outro lado, a região ventromedial nos permite distinguir os estímulos ameaçadores dos seguros.
Expressão comportamental do medo

Expressão comportamental do medo

O medo provoca uma reação rápida e involuntária no nosso cérebro. Coloca em funcionamento uma rede complexa que nos permite iniciar comportamentos para escapar da situação.

Em outras palavras, a ínsula faz com que comecemos a suar, nosso coração acelera preparando-se para a fuga, e nossas pernas se ativam para correr. O córtex cingulado anterior foca a atenção no perigo. A ínsula ativa respostas fisiológicas para preparar o corpo para fugir, e o córtex pré-frontal coloca em marcha situações cognitivas para enfrentá-lo (escolher entre pedir ajuda ou correr, por exemplo). Por fim, o cérebro intervém na sobrevivência.

No entanto, se o comportamento ou os pensamentos de fuga forem excessivos, pode ocorrer um padrão de comportamento não adaptativo, conforme mencionado acima. Isso pode fazer, por exemplo, com que você nunca saia de casa.

 

Nesses casos, o que acontece é que a ínsula interpreta como ameaçador um estímulo que não deveria ser, ou o córtex cingulado nos faz focar em estímulos neutros, assim como tendemos a fugir ou evitar um estímulo não ameaçador, sob a influência do córtex pré-frontal. Ou seja, o cérebro antecipa o dano em uma situação inofensiva, tornando o medo patológico.

  • Ávila Parcet, A. y Fullana Rivas, M.A. (2016). El miedo en el cerebro humano. Mente y cerebro, 78, 50-51.