A linguagem da repressão

· março 26, 2017

A repressão é um mecanismo através do qual uma pessoa expulsa de sua consciência os pensamentos, sentimentos ou desejos que acredita serem inadmissíveis. Ou seja, tudo aquilo que não tolera sentir, pensar ou desejar.

Podemos entender melhor com um exemplo. Suponhamos que existe alguém que tem um(a) parceiro(a) estável com o(a) qual se sente feliz. No entanto, de repente, essa pessoa se sente atraída por outra e percebe isso como uma ameaça. Sendo assim, essa pessoa decide expulsar essa ideia de sua consciência, pretendendo que ela jamais ocorra.

Até aqui, tudo bem. O problema é que há uma lei psíquica: o que foi reprimido não desaparece, mas segue atuando inconscientemente. De fato, os conteúdos reprimidos, por terem sido reprimidos, adquirem uma força inusitada.

Tudo o que foi reprimido retorna. O desejo não se elimina tirando-o da consciência, ele toma diferentes formas para voltar a se manifestar uma e outra vez. A repressão tem sua própria linguagem e essa é sua principal expressão.

Os sonhos, uma linguagem de repressão

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No momento de dormir, a consciência deixa de ser aquela sentinela que está todo o tempo dizendo quais pensamentos e sentimentos você deve admitir e quais não. Durante o sono, a censura se levanta e o inconsciente se expressa plenamente.

Às vezes esses conteúdos reprimidos ficam diretamente expostos enquanto dormimos. Por exemplo, a pessoa sonha que não deixou aquela por quem se sentia atraída ir embora, e que está em uma relação com ela.

Se o que foi reprimido tem um grau maior de complexidade, ou se refere a conteúdos que são verdadeiramente intoleráveis para a pessoa, o sonho tenderá a ter também uma composição mais enigmática. Já não vão aparecer cenas literais, mas cada elemento aparecerá como símbolo ou encoberto. São aqueles sonhos que não parecem ter pé nem cabeça. Em muitos outros casos, nem sequer nos lembramos do que foi sonhado.

Os atos falhos

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O que foi reprimido não retorna somente através dos sonhos, mas também através de ações concretas que realizamos “sem querer” em nosso dia a dia.

Voltando ao exemplo que abordamos anteriormente, um ato falho seria, por exemplo, que no lugar de marcar o número de telefone do(a) parceiro(a), a pessoa ligasse “sem querer” para aquele que lhe desperta atração.

Tudo aquilo que fazemos “sem querer querendo” corresponde ao conceito de ato falho ou ato alcançado, uma forma de repressão. Falho porque não era isso que, conscientemente, queríamos. Alcançado porque, no fundo, era isso que queríamos fazer.

Os lapsos de linguagem ou lapsos de escrita

Operam de uma maneira muito similar aos atos falhos, mas aparecem unicamente no terreno da linguagem. São “erros” involuntários no momento de falar (lapsos de linguagem) ou ao escrever (lapsos de escrita). Lembro-me de um que aconteceu comigo: eu queria escrever para uma menina “você é bela”, mas sem querer omiti uma letra e terminei escrevendo “você é ela”.

Também existem os lapsos de memória, nos quais esquecemos, momentaneamente, algo que não tinha por que esquecermos. Por exemplo, o nome do chefe, ou inclusive de um filho.

Os sintomas neuróticos

Os sintomas neuróticos são outro tipo de repressão. São ações mais ou menos absurdas que empreendemos em nossa vida cotidiana, ou situações inexplicáveis que sobrevivem sem sabermos o porquê. O que expressam é esse desejo que reprimimos e que tenta se manifestar.

Por exemplo: uma pessoa que constantemente sente que vai provocar um incêndio e acaba confirmando várias vezes que o fogão está desligado.  Ou alguém que revisa três ou quatro vezes se deixou a porta fechada, porque tem a impressão de tê-la deixado aberta.

Também há alguns casos como o de um funcionário que tenha sido maltratado por seu chefe e queira responder, mas não tem coragem. Então, ele pode acabar perdendo a voz ou começar a sentir dores em sua garganta.

As piadas

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As piadas expressam o que está reprimido não no plano individual, mas sim no social. Esta forma de repressão revela sentimentos de rejeição, desafia tabus e despe desejos coletivos.

Há muitas piadas xenofóbicas, sexistas, etc., que permitem expressar sentimentos ou ideias que, se ditas de outra maneira, seriam censuradas socialmente. Neste ponto, para muitas pessoas, reside a graça de muitas delas.

Imagens cortesia de Daria Petrilli.