Marsha Linehan: de paciente a psicóloga para vencer o TPL

· novembro 9, 2018

Marsha Linehan é uma psicóloga, professora e autora norte-americana, criadora da terapia comportamental dialética. Trata-se de um modelo teórico e de tratamento desenvolvido para pacientes com transtorno de personalidade limítrofe (TPL), combinando técnicas de terapia comportamental com princípios de aceitação da realidade derivados do Zen e da filosofia dialética.

Apesar disso, esta mulher ainda possui o estigma do seu passado com TPL, e as marcas de queimaduras e cortes em seus braços são as provas. No passado, Marsha foi uma paciente com prognóstico muito grave, e passou 26 meses hospitalizada. “Estava no inferno”, ela disse sobre esse período de sua vida.

A sensação crônica de vazio, a instabilidade emocional e a necessidade de agradar aos outros se transformam em um verdadeiro pesadelo para aqueles que sofrem de TPL.

Na verdade, a sua identidade depende continuamente das avaliações dos demais. O medo do abandono é tão intenso que o indivíduo pode sentir que, sem querer, acaba provocando-o.

A dolorosa vida de Marsha Linehan

Marsha Linehan vagou desesperada, de especialista em especialista, durante 20 anos. Seu prognóstico dizia que ela tinha pouca chance de sobreviver. As tentativas de suicídio continuavam, e com elas, as novas internações hospitalares.

Apesar de tudo, esta impressionante mulher queria se recuperar. Sem desistir da sua luta, ela conseguiu um emprego como funcionária de uma companhia de seguros. Ao mesmo tempo, começou a cursar aulas noturnas na universidade.

Transtorno de personalidade

Muito religiosa, Marsha frequentava a igreja regularmente. Desta época, ela conta: “Uma noite eu estava ali ajoelhada, olhando a cruz, e todo aquele lugar ficou dourado. De repente, senti que algo vinha até mim. Corri para o meu quarto e, pela primeira vez, falei comigo em primeira pessoa: EU ME AMO. A partir desse dia, me senti transformada”.

Durante um ano, ela trabalhou em seus sentimentos de desamparo. Durante este tempo, conseguiu compreender e aceitar as suas tempestades emocionais: aprendeu a lidar com as suas emoções a partir de um melhor conhecimento de si mesma.

Além disso, passou por anos de estudo em psicologia, durante os quais obteve um doutorado na Universidade Loyola de Chicago, em 1971, que a ajudou a compreender a sua metamorfose.

O que transformou a experiência de Marsha Linehan foi o fato de ela ter aceitado a si mesma da forma como era. Esta aceitação se fez cada vez mais significativa quando ela começou a trabalhar com pacientes, primeiro em uma clínica com pessoas com ideias suicidas, e depois na área de pesquisa.

Sua proposta de tratamento

Ela queria mostrar que a terapia podia ajudar os pacientes a adquirirem novos comportamentos e a aprenderem a reagir de maneira diferente. No entanto, as pessoas profundamente suicidas geralmente “fracassavam” inúmeras vezes em suas intenções para superar o transtorno.

O enfoque de Marsha impõe um novo raciocínio: o comportamento destas pessoas é, geralmente, lógico diante do sofrimento. Ela dá ênfase a duas ideias principais:

  1. A aceitação da vida da forma como ela é, não como se supõe que ela deveria ser.
  2. A necessidade de mudar, apesar da aceitação da realidade.

Mais tarde, a pesquisadora testou cientificamente a sua teoria no mundo real. “Decidi ajudar as pessoas com tendências suicidas, porque elas se sentem as mais miseráveis do mundo. Elas acreditam que são más e eu percebi que elas não são. Entendi isso porque passei pelo inferno do sofrimento, sem nenhuma esperança de sair dele”.

Marsha escolheu tratar pessoas diagnosticadas com transtorno de personalidade limítrofe, caracterizado por comportamentos perigosos, como a autolesão. Ela fez isso através de um “contrato” recíproco com estas pessoas: elas têm que se comprometer a seguir a terapia até o final para ter a oportunidade de viver.

O fortalecimento de Marsha Linehan como figura acadêmica

A doutora Marsha Linehan subiu na escala acadêmica da Universidade Católica da América até a Universidade de Washington em 1977.

Nas décadas de 1980 e 1990, foram realizadas pesquisas que mostraram o progresso de aproximadamente 100 pacientes suicidas de alto risco com TPL que haviam se submetido à terapia comportamental dialética em sessões semanais.

Em comparação com outras terapias, os pacientes cometeram menos tentativas de suicídio e voltaram com menos frequência aos hospitais.

O objetivo fundamental da terapia comportamental dialética é que o paciente aprenda a regular a emotividade extrema e os seus impulsos. Desse modo, é possível reduzir os comportamentos disfuncionais dependentes do estado de humor.

Além disso, o paciente é ensinado a aprender a confiar e validar as suas próprias experiências, emoções, pensamentos e comportamentos.

Mulher com transtorno de personalidade

Como diferencial diante de outros programas cognitivo-comportamentais, a terapia comportamental dialética é uma intervenção baseada em princípios terapêuticos, e não em um manual de tratamento.

Este programa se baseia em uma hierarquia de metas terapêuticas que são abordadas em função da sua importância. A hierarquia que se estabelece na terapia individual é a seguinte:

  • Solucionar os comportamentos suicidas e parassuicidas.
  • Mudar os comportamentos que interferem no curso da terapia.
  • Eliminar os comportamentos que afetam a qualidade de vida.
  • Desenvolver as habilidades comportamentais que ajudam a alcançar o bem-estar.

Esta estrutura permite uma abordagem flexível em função das necessidades de cada paciente. Além disso, é importante porque faz referência à mudança no enfoque da intervenção.

A terapia cognitivo-comportamental se concentra em encontrar a solução dos problemas emocionais através da mudança comportamental e cognitiva. Por outro lado, Linehan põe a sua ênfase na aceitação e na validação para, a partir daí, conseguir a mudança.

Graças ao seu trabalho, milhares de vidas foram salvas ao redor de todo o mundo.