Mecanismos de defesa dos neuróticos e psicóticos

agosto 11, 2019
Ainda que muito tenha sido falado sobre os mecanismos de defesa na psicanálise, pouco se sabe sobre algumas de suas diferenças. Embora a maior parte dos mecanismos de defesa descritos sejam da neurose, há outros que são considerados psicóticos e também são muito importantes para entender como se desencadeiam alguns episódios de psicose.

Os mecanismos de defesa são processos psicológicos automáticos e podem ser típicos dos neuróticos ou dos psicóticos. Protegem o indivíduo da ansiedade ou da percepção de perigos internos e externos ou fatores de estresse.

Eles mediam a resposta do indivíduo, evitando o conflito emocional diante de fatores de estresse internos ou externos.

Ainda que a neurose e a psicose, formas de funcionamento da psique humana, muitas vezes coincidam em algumas características, os mecanismos que as comandam são diferentes.

A diferença está principalmente na relação com a realidade e na forma como essa é construída. Na neurose, a fantasia reina como resposta a um ponto de fixação. Já na psicose, reina uma substituição completa que busca a restituição de algo que foi negado no início da vida.

“As emoções não expressadas nunca morrerão. Elas serão enterradas vivas e aparecerão mais tarde de maneiras mais desagradáveis”.
– Sigmund Freud –

Mecanismos de defesa propriamente neuróticos

Repressão

Mecanismo por meio do qual o Ego impede que os pensamentos que geram ansiedade cheguem à consciência. É o mecanismo de defesa mais básico. Para que qualquer outro ocorra, esse deve acontecer primeiro.

Transferência

Substitui nosso verdadeiro desejo que provoca ansiedade e é intolerável por outro alvo que não produz ansiedade e é aceitável. Esse mecanismo pode explicar o porquê de repentinamente sentirmos fobia de algo.

Por exemplo, se nos sentimos sujos e temos vergonha de dizer, expressamos nosso asco e fobia direcionando-o para as baratas.

Garota preocupada com as mãos na cabeça

Mecanismos de defesa neuróticos baseados na identificação

Identificação

É um processo psicológico que consiste na tendência a aumentar os sentimentos de valor pessoal mediante a adoção das características de alguém que é admirado.

Identificação projetiva

Mecanismo descrito por Melanie Klein, que se refere às fantasias por meio das quais o sujeito introduz sua própria persona ou self (total ou parcialmente) no interior do objeto para controlá-lo, possuí-lo ou causar dano.

Identificação com o agressor

Descrito por Anna Freud e por Ferenczi, consiste no sujeito reproduzir alguma característica da pessoa que lhe traz angústia. A pessoa deixa de ser o indivíduo ameaçado para ser a pessoa que ameaça.

Projeção

Mecanismo através do qual são atribuídas características próprias não reconhecidas e que provocam ansiedade a outra pessoa ou objeto. Essa defesa está presente na psicose, na neurose e na perversão.

Introjeção

Mecanismo descrito por Ferenczi que consiste na atribuição a si mesmo de características dos outros, sem serem elaboradas e nem ajustadas ao self. Por exemplo, uma pessoa deprimida pode incorporar as atitudes e pensamentos de outra pessoa.

A forma saudável de fazer isso seria por meio da identificação. A identificação implica incorporar no seu próprio self coisas desejáveis de outra pessoa. A introjeção seria como “aceitá-las sem digeri-las”, resultando em um self não integrado.

Mecanismos de defesa baseados na transformação da pulsão

Formação reativa

Mecanismo por meio do qual os pensamentos censuráveis são reprimidos e então se expressam através dos seus opostos. Esse mecanismo de defesa explica a mania, que esconderia uma depressão reprimida.

Substituição ou formação substitutiva

Mecanismo através do qual se reprime um objeto libidinoso e esse é substituído por outro mais aceitável e consciente. Dessa forma, é possível satisfazer o prazer proibido de um modo disfarçado.

Por exemplo, alguém que sente repulsa por seu companheiro, mas não pode aceitar esse fato, reprime essa emoção e a expressa na forma de uma reação alérgica.

Sublimação

Mecanismo que busca substituir um objeto ou atividade inaceitável por outro que possua um valor social ou ético mais elevado.

Racionalização

Consiste na justificação racional dos pensamentos ou comportamentos que produzem ansiedade.

Diferencia-se da intelectualização pois ocupa um lugar distinto, não supondo uma evitação sistemática dos afetos, mas sim atribuindo a eles motivações mais plausíveis que verdadeiras, dando uma justificativa racional ou ideal.

Intelectualização

O indivíduo tenta dar uma formulação discursiva para seus conflitos e emoções com o fim de controlá-los. Combina-se ao isolamento emocional que normalmente acompanha um acontecimento doloroso, com uma explicação racional.

Mecanismos de defesa em que se reprime ou mascara a pulsão

Isolamento

Mecanismo por meio do qual se separa uma representação incômoda do seu afeto, mantendo-a a nível consciente porém privada de toda conexão associativa.

Por exemplo, uma criança que tem ansiedade por ser vítima de maus-tratos, mas não é capaz de ver a relação entre ambas as coisas.

Formação de compromisso

Consiste em uma deformação do reprimido que pode manifestar-se de três formas: nos sonhos, nos sintomas e em certas produções artísticas.

Anulação/anulação retroativa

Segundo Freud, trata-se de um processo ativo consistente que busca desfazer o que foi feito. O indivíduo tenta transformar um pensamento ou um ato em algo que nunca aconteceu.

A transformação de uma pulsão em seu contrário

Consiste na transformação do fim de uma pulsão em seu contrário. O fim da pulsão que é transformado, e não o objeto por meio do qual ela é satisfeita.

Por exemplo, se meu companheiro me abandona, o amor que eu sentia por ele se transforma em ódio. Pelo mesmo objeto que antes eu sentia amor, agora eu sinto ódio. A pulsão se transformou, mas o objeto (o meu companheiro), não.

Homem e mulher com sombras opostas dentro de si

Mecanismos de defesa propriamente psicóticos

Renegação

Segundo Freud, esse mecanismo consiste em eliminar uma representação incômoda não apagando-a (anulação), nem recusando reconhecê-la como pertencente ao indivíduo (negação), mas sim negando até mesmo a realidade da perceção vinculada a essa representação.

Desestruturação do Ego

Esse é um mecanismo de defesa psicótico contra a angústia de dissociação e de morte. Uma parte do Ego fica em contato com a realidade que não é perturbadora.

A outra parte do Ego perde todo o contato com a realidade, rechaçando todos os aspectos que são muito angustiantes e, se for necessário, reconstruindo uma nova realidade que seja mais aceitável e, por sua vez, mais desejada por meio de um delírio.

Desestruturação do Imago, fantasia afetiva pessoa

Esse é o mecanismo de um estado limite que luta contra a angústia de perda do objeto e dissocia as representação incômodas.

Por exemplo, um indivíduo que projeta no exterior a parte difícil de su realidade, mas sem chegar a perder contato com ela. A dissociação não chega a implicar uma perda de contato com a realidade.

Forclusão

A forclusão, termo usado por Lacan para se referir à exclusão, supõe a rejeição do significante primordial na constituição da criança como indivíduo diferenciado de sua mãe. Isso condena a criança a não se constituir como sujeito dentro do universo linguístico preexistente e a predispõe à psicose.

Os mecanismos de defesa se dividem em diferentes grupos que se relacionam com os níveis de funcionamento defensivo.

Os mecanismos de defesa dos neuróticos se articulam como protetores perante uma realidade não tolerada, ainda que se consiga uma conexão com ela em algum nível.

Na psicose, no entanto, a realidade angustiante não é tolerada de nenhuma forma, e os mecanismos de defesa se articulam deixando a pessoa em contato apenas com a realidade desejada ou imaginada, sem contato com a realidade angustiante.

Dessa forma, é possível obter alguma estabilidade nas emoções. Às vezes essa estabilidade emocional é conseguida graças à construção de um delírio.