Os medos que nos tornam invisíveis

· julho 21, 2018

Na nossa infância nós não tínhamos medos, vergonhas e muito menos preocupações. Éramos confiantes em nós mesmos e nas nossas capacidades, e por isso brilhávamos. Porém, conforme crescemos, a nossa autoconfiança diminui e surgem os medos que nos tornam invisíveis.

O desejo de ser invisível vem de todas as crenças sociais e culturais que adquirimos e que vão se solidificando à medida que envelhecemos. Como sabemos, nossas crenças nos limitam. Por exemplo, se pensamos que vamos cometer um erro em uma apresentação e isso realmente acontece, provavelmente não vamos querer falar em público mais tarde. Inclusive, vamos pensar que somos oradores ruins, quando isso não é verdade.

Algumas das crenças que temos só promovem os nossos medos. Medo de ficar sozinho, de que ninguém nos queira, de que ninguém nos dê atenção. Medo de não ter a família perfeita, de não tirar as melhores notas na escola, de decepcionar os outros ou não alcançar as metas. Esses medos que nos tornam invisíveis nos levam a uma identificação com certos rótulos que não combinam conosco.

Nossa grandeza nos assusta

Vivemos em uma sociedade que constantemente nos joga para baixo, nos levando a nos compararmos com os outros e analisarmos em detalhe todos os nossos defeitos. Onde estão os nossos pontos fortes? Na sombra. Eles estão prontos para que olhemos para eles para que possam vir à luz e, assim, estarmos cientes de nosso potencial.

Onde todos esses medos que nos tornam invisíveis começam a tomar forma? Normalmente na família. No contexto onde passamos a maior parte do nosso tempo, que é quase sempre a nossa zona de segurança, desde que tudo ocorra bem.

“Nosso medo mais profundo não é o de sermos inadequados. Nosso medo mais profundo é de que sejamos imensamente poderosos. É a nossa luz, e não a escuridão, o que mais nos assusta. Nós nos perguntamos: quem sou eu para ser brilhante, lindo, talentoso e inteligente? Na verdade, quem é você para não ser?”.
-Nelson Mandela-

Pessoa com cabeça invisível

Quando somos diferentes e o nosso comportamento não é esperado, a segurança desaparece e, às vezes, ficamos com medo. Por exemplo, em uma família onde o trabalho tradicional é valorizado, se um membro da família se dedica à arte ou a ser programador, pode ser que ele tenha que escutar: “Isso não é um trabalho de verdade”.

A incompreensão daqueles que consideramos uma fonte de apoio ameaça a nossa autoconfiança e, em alguns casos, a forma como valorizamos a nós mesmos.

Sentimos segurança ao sermos fiéis às crenças da família. Seguimos os passos de nossos pais, conseguimos um emprego semelhante ao deles… Mas quando isso não acontece, o sentimento de proteção é quebrado para dar lugar ao medo e ao desejo de ser invisível em determinados momentos.

Três medos que nos tornam invisíveis

Não é só a família que pode fazer com que desejemos ser invisíveis para sermos como os outros e não nos destacarmos. Há muitos outros medos que vão crescendo e se fortalecendo por causa de certas crenças que têm a ver com a esfera social. Vamos ver quais são estes três medos que não nos permitem expor quem realmente somos.

1. Medo de despertar a inveja dos outros

Todos nós temos algo único, uma habilidade especial ou um dom natural que nos permite fazer coisas pelas quais gostaríamos de ser reconhecidos. No entanto, sabemos que se destacar envolve se expor e fazer com que outras pessoas sintam inveja. Portanto, teremos de enfrentar a críticas, julgamentos e rejeições.

Para alguns, dependendo de suas experiências passadas, isso pode ser insuportável, porque temos a tendência de esperar que os outros nos aprovem. O desejo de brilhar, mas também o medo de fazê-lo, faz com que surjam duas opções: brilhar e mostrar a nossa essência ou sermos invisíveis e seguirmos as expectativas dos outros.

“O invejoso sempre olha de cima a baixo, procurando um defeito. Se ele encontra, fará um comentário. Se não encontrar, inventará um defeito”.
– Anônimo –

Jovem pensando em sua vida

2. O medo de estar sozinho

O medo de estar sozinho afeta muitas pessoas. Temos a crença de que devemos ser da forma como os outros aprovam para sermos aceitos. Por exemplo: se somos muito brincalhões, mas os amigos que nos rodeiam têm vergonha de nós, vamos tentar mudar e suprimir isso para não ficarmos sozinhos.

Por fim, nós escolhemos ser invisíveis para que os outros nos aceitem. No entanto, o que devemos nos perguntar é: vale a pena estar com pessoas que não nos aceitam como somos? Estar sozinho é como deixar a nossa zona de conforto. Por que temos tanto medo de não encontrarmos mais amigos, parceiros ou pessoas que realmente nos aceitem?

Se mudarmos a nossa essência, chegará um momento em que nós nos perguntaremos quem realmente somos. Escolher ser como os outros querem implica uma traição a nós mesmos, uma rejeição de quem somos que, eventualmente, nos causará um grande desconforto.

Recuperar quem somos será um processo que vai nos levar a enfrentar tudo que tememos. É um caminho complexo, mas é gratificante quando alcançamos o objetivo, pois não há nada mais agradável do que um reencontro com nós mesmos.

3. Medo de perder a nossa identidade pública

Se na nossa infância nossa família nos disse que “nós não merecemos o que recebemos”, é muito provável que cresçamos pensando e agindo de acordo com esse pensamento. Assim, não só vamos pensar que não merecemos um presente, mas também que não somos dignos de afeto. Adotamos uma identidade baseada no não merecimento. 

Homem desenhando a si mesmo

Curiosamente, nós tememos perder o que eles nos disseram que éramos. Essa identidade com a qual não nos identificamos, embora tenhamos aprendido a adotar. Por isso é tão difícil mudar. Nós construímos um mundo de acordo com o que nós pensamos que somos, com o que dizem que somos. Por isso, sem perceber e sem querer, fugimos de qualquer sinal de afeto.

Portanto, é importante desaprender esse comportamento para realmente sabermos quem somos. Muitas vezes escolhemos a invisibilidade porque acreditamos que a opinião dos outros sobre quem somos está certa.

“Encontre-se em um pingo de chuva, nas cores de um arco-íris, no céu azul, na força da terra, mas encontre-se”.
-Alejandro Jodorowky-

Talvez tenhamos escolhido a invisibilidade até agora, mas podemos decidir parar. Podemos nos livrar dos rótulos que foram impostos a nós e dos medos que só servem para nos limitar, e encontrar em nós a melhor de todas as companhias.