Já não sou aquela menina que você presenteava com pijamas de ursinhos

Já não sou aquela menina que você presenteava com pijamas de ursinhos

março 8, 2017 em Psicologia 0 Compartilhados
Já não sou aquela menina que você presenteava com pijamas de ursinhos

Eu prometo que você nunca mais vai tocar em seu braço, pé, mão, ou dar-lhe um beijo. Porque para ela já não cabem lágrimas e para mim já não resta mais medo: não posso imaginar nada pior do que a vida que você nos deu com seu amor envenenado. Já não sou aquela menina pequena que você trancava em um quarto para soltar gritos e descarregar as frustrações que nasciam dos fantasmas que existiam em você, e que com a bebida se agigantavam.

Apenas parava quando suas forças se acabavam pelo momento, ou quando dava um golpe tão forte que temia que os vizinhos começassem a suspeitar do que se tratava. Porque isso sim, da porta pra fora era todo um senhor. Até mesmo escutei você dizer algumas vezes que não era como esses da televisão e que lavava as roupas sujas em casa. O que ninguém sabia era do que você estava realmente falando.

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Quando eu era menina, você pedia perdão

No começo você se levantava pela manhã e pedia perdão. Ao sair para fora era você que tinha medo de ficar sem nada, deixava de ser homem lobo para ser João com medo. Levantava a mesa e as cadeiras, abaixava até o fruteiro e fazia suco para um maldito copo, acordava minha mãe com um beijo e buscava palavras que levassem ao caminho da fé.

Você dizia amar, querer, sentir… rezava, fazia, pensava, não voltava… apertava os punhos, a raiva voltava, juntava as mãos pelas palmas, como se o ato de separar o ar que inspirava recobrisse de verdade suas palavras. Enquanto tentava amolecer o coração da minha mãe, eu odiava você. Ia de uma emoção para a outra, até que abandonava o quarto para não voltar até que sol estivesse se pondo.

Nos primeiros meses minha mãe acreditava em você: me resgatava de debaixo da cama e me dizia com palavras doces o que você tinha dito para ela com palavras rasgadas, agitadas; algumas atuadas, muitas fingidas. Depois se levantava e tomava café da manhã contigo. Arrumava a mesa, fazia mais suco para que também tivesse para mim, tocava no seu ombro e me chamava. Ao entrar você tapava a cara com o jornal, porque nos meus olhos de criança não reconhecia a fé que seguida acesa nos da minha mãe.

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Você nos abandonou à mercê da sua raiva

Houve um dia em que o fruteiro não abriu, em que mamãe deixou de acreditar, em que já não me levantou do chão, mas ficou chorando quando você foi embora batendo a porta. Houve outro dia em que você decidiu que já não valia a pena o teatro, que isso era gastar forçar para não conseguir nada. Assim, à noite você chegava com raiva e pelas manhãs ia embora com mais raiva ainda. Os pijamas se acabaram, porque você já não via os móveis da casa de maneira distinta de dia ou de noite.

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Lembro-me de muitos, mas especialmente do primeiro dia em que toquei no meu rosto e vi o sangue. Então me tornei consciente de que meu destino começava a estar unido ao da mesa ou ao das cadeiras, logo também ia precisar de consertos: band-aids, curativos, remendos, fingimentos. Perguntas incômodas no colégio, mais golpes por minhas notas baixas, menos amigas pelos dias reclusa em casa.

Uma noite, mamãe decidiu que íamos dormir na casa de uma amiga. Foi a noite da primeira denúncia. E não foi minha mãe que a fez, mas sim sua amiga, porque você destruiu a casa quando foi nos buscar. Naquela noite você fez o grande esforço de repetir, com uma voz melancólica e rouca, as palavras das primeiras manhãs. Você passou a noite no calabouço, te soltaram no dia seguinte. Mamãe passou a noite chorando, lágrimas que se transformaram em papel molhado à força para te denunciar. Os policiais vieram pela manhã e fecharam a porta no seu nariz.

Você voltou com a cabeça baixa , mas dentro de poucos dias se esqueceu das horas no calabouço. Eu já não quero saber qual é o próximo passo, estou farta de ver o futuro na televisão e nos jornais. Quando você está fora pensa que exageram para vender buscando o mórbido, quando está dentro pensa que é muito pouco. Por isso quero que hoje, quando te prendam, leve essa carta.

Uma carta na qual te peço que se alguma vez existiu uma faísca de amor em suas palavras, se te resta algo de humanidade, não volte mais. Durante todos esses anos fui uma estranha para você, agora sou eu que te digo que você não sabe do que sou capaz de fazer para protegê-la. É o que eu mais quero, entenda isso.

Assinado: a menina que você nunca enganou com seus pijamas de ursinhos.

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