O fanatismo do terror está de volta: mulheres e meninas estão desaparecendo no Afeganistão

"Proibição de rir em público, trabalhar e estudar. Proibição de sair de casa se não estiver acompanhada de parentes do sexo masculino." O Taleban afirma que os direitos das mulheres serão respeitados, mas muitos suspeitam que a lei Sharia será implementada como em 1996.
O fanatismo do terror está de volta: mulheres e meninas estão desaparecendo no Afeganistão

Última atualização: 27 Setembro, 2021

“As mulheres muçulmanas poderão estudar, seus direitos serão respeitados e elas ficarão felizes em viver sob a estrutura da Sharia”, disse Zabihullah Mujahid, um porta-voz do Taleban, em uma aparição na mídia para ganhar a confiança internacional. No entanto, a verdade é que mulheres e meninas estão desaparecendo no Afeganistão, assim como aconteceu entre 1996 e 2001.

Ninguém acredita nas suas falsas promessas ou na sua atitude repentinamente conciliatória. Porque nesse ínterim, as figuras femininas estão sendo apagadas dos cartazes publicitários, sendo arrancadas das lojas por medo do que pode acontecer. Sua presença já cria grandes vazios nas ruas para se esconder na solidão das casas, ou para buscar desesperadamente uma fuga no aeroporto de Cabul.

A esperança volta a sangrar num país sempre em ruínas, num cenário em que ser mulher quase sempre foi difícil. No entanto, se nos últimos vinte anos as mulheres afegãs começaram a recuperar voz e presença na esfera pública, o rápido e inesperado avanço do Taleban as condena mais uma vez a habitar a escuridão de suas burcas e em um novo reinado de terror.

Na lei Sharia, mulheres e meninas não podem trabalhar ou estudar. Muito menos sair para a rua se não for na companhia de um parente do sexo masculino.

Modelo afegã em loja

Mulheres e meninas estão desaparecendo no Afeganistão sob o Emirado Islâmico

Quando as tropas internacionais se retiraram do Afeganistão em 2011, a Intermon Oxfam lançou um apelo que se revelou presciente: todo o progresso feito poderia ser perdido da noite para o dia. Mais da metade das meninas estavam na escola e 28% dos membros do parlamento do país eram mulheres, mas todas essas conquistas estavam ameaçadas.

Um exemplo, esta semana Beheshta Arghand, apresentadora do canal Tolo News no Afeganistão, estava entrevistando um oficial do Taleban. Ele garantiu a ela que não haveria violência contra as mulheres e que seus direitos seriam assegurados. No entanto, uma vez que a reunião acabou, a própria apresentadora explicou em meio às lágrimas em um bate-papo do Clubhouse que o Taleban havia suspendido seu cargo e seu salário, e fez o mesmo com as outras mulheres da rede por um período indefinido de tempo.

Porque a verdade é que os talebans respeitam os direitos das mulheres, mas desde que eles cumpram os preceitos da sharia. E isso era algo que ninguém esperava. Poucos previram um avanço tão rápido do Taleban, e menos ainda a fuga do presidente Ashraf Ghani e a retirada de um exército afegão que não opôs resistência à bandeira do Emirado Islâmico.

As proibições do Taleban voltadas para meninas e mulheres

Enquanto milhares de afegãos tentam escapar do país no aeroporto de Cabul, uma parte da população acredita que esse voo não será possível para todos. Mulheres e meninas são as mais ameaçadas por este novo regime e é bem possível que se repitam as mesmas violações de seus direitos que foram denunciadas há duas décadas pela Associação Revolucionária das Mulheres do Afeganistão (RAWA).

São as seguintes:

  • Mulheres e meninas estão desaparecendo do Afeganistão por estarem sendo proibidas de frequentar e escola e também de trabalhar fora de casa.
  • Elas não podem sair de casa se não estiverem acompanhados por um parente do sexo masculino.
  • Elas não podem fazer negócios com homens.
  • Elas não podem ser atendidas por médicos do sexo masculino.
  • Eles devem usar uma burca. Nenhuma parte do seu corpo pode ser exposta.
  • Elas serão chicoteadas e insultadas se não seguirem as regras do Taleban.
  • Elas serão chicoteadas publicamente se mostrarem os tornozelos.
  • Elas serão mortas se fizerem sexo fora do casamento.
  • Elas não podem usar cosméticos. Se pintarem as unhas, terão os dedos cortados.
  • Elas não podem usar sapatos de salto alto.
  • Meninas e mulheres estão desaparecendo no Afeganistão porque suas vozes não serão mais ouvidas. Elas estão proibidas de rir publicamente.
  • Elas não podem falar com nenhum homem em público sem permissão.
  • Elas não podem entrar em táxis e tirar carteira de motorista.
  • Elas estão proibidas de trabalhar ou se expressar em meios públicos como televisão, rádio e Internet.
  • Ninguém pode fotografar ou gravar meninas e mulheres.
  • Ninguém pode expor publicamente imagens de mulheres.

“Nós garantimos que não haverá violência contra as mulheres”, disse o porta-voz do Taleban, Zabihullah Mujahid. “Nenhum preconceito contra as mulheres será permitido, mas os valores islâmicos são nossa estrutura e devem ser defendidos.”

Mulheres afegãs estudando

A história se repete: ninguém acredita no “novo Taleban”

Hoje, vemos imagens na mídia de como era o Afeganistão nos anos 70. Ficamos impressionados com a foto tirada por Laurence Brun em 1972. Nela, as mulheres não eram muito diferentes daquelas que podíamos encontrar nos países ocidentais: jovens de minissaias, rindo, de cabelos soltos, sapatos de salto e indo trabalhar e estudar.

A verdade é que, no início do século 20, o rei Amanullah favoreceu a liberdade das mulheres proibindo os casamentos forçados e promovendo a igualdade de gênero. Na década de 70 foi conquistado o sufrágio universal e o país brilhou com o progresso típico de qualquer país avançado. No entanto, como resultado de vários golpes de estado e da ocupação soviética, tudo mudou.

Em 1996, o Estado Islâmico do Afeganistão foi integrado e o reino do terror chegou. As mulheres foram submetidas às leis do Taleban e da Sharia. Essa escuridão durou até 2001. Agora, vinte anos depois, o horizonte volta a trazer a mesma escuridão: mulheres e meninas estão desaparecendo no Afeganistão para serem confinadas em suas casas, arrancadas da vida pública diante de um Ocidente que assiste impassivelmente enquanto a história volta a se repetir…

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