Dói não ter tentado naquele momento, quando havia a oportunidade

Dói não ter tentado naquele momento, quando havia a oportunidade

13, fevereiro 2017 em Psicologia 1283 Compartilhados
Dói não ter tentado naquele momento, quando havia a oportunidade

A intuição fala conosco praticamente a todo instante, mas nem sempre a seguimos. Os palpites são como o som que a gente ouve ao colocar o ouvido em uma concha. Ali estão, mas nem sempre deciframos a sua linguagem, até que um dia, compreendemos o que quiseram nos dizer naquele momento: “faça, atreva-se a ser feliz“.

Entre as diversas e singulares experiências do mundo emocional está sem dúvida essa estranha sensação onde a gente coloca o olhar para trás e percebe muitas coisas. Uma delas é a de ter descoberto tarde uma coisa que já sabíamos naquele momento. Uma viagem para a qual deveríamos comprar a passagem, um rosto e um nome que nunca deveríamos ter amado ou uma fechadura na qual nunca deveríamos ter introduzido a chave.

“Experimentamos por meio da lógica, mas descobrimos por meio da intuição.”
-Henri Poincaré-

Por que o ser humano age assim? Por que não procedemos de acordo com as nossas intuições ou desejos em um dado momento? Precisamos entender em primeiro lugar que as pessoas não são infalíveis. Avançar nos nossos ciclos de vida é como colocar os pés sobre as rochas que atravessam um rio. Algumas serão mais seguras do que outras, e por algum momento, será necessário confiar em nosso próprio instinto para dar esse salto arriscado, mas certo.

Em outros momentos, contudo, não há outro jeito senão retroceder para tomar distância e recuperar o equilíbrio. Nem sempre estamos preparados para esses grandes passos, mesmo que uma voz nos diga que é a melhor coisa para nós mesmos. Longe de lamentar, longe de mergulhar em um triste e perpetuo adágio do que “poderia ter sido e não foi”, é preciso instaurar novas perspectivas.

Convidamos você a refletir sobre este tema.

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Naquele momento perdido

Começaremos sendo objetivos: existem trens não voltam a passar. Virão muitas outras ofertas de trabalho, sem dúvida, mas não aquela que você não se arriscou a aceitar porque o obrigava a ir para longe. Virão também muitas outras pessoas na sua vida, mas nunca aquela voz sincera que prometia ser a melhor coisa para você, e que mesmo assim você deixou partir. Agora, o fato de termos deixado passar uma oportunidade real não significa que aparecerão outras diferentes e igualmente incríveis.

Colocar nosso olhar no retrovisor das nossas vidas nos faz cair com frequência em um sortilégio esquisito. Chegamos a pensar que o que fizemos ou não fizemos naquele momento poderia ter nos dado a verdadeira felicidade. “Por que deixei isso partir se era a melhor coisa para mim? Por que decidi fazer isto ou aquilo se alguma coisa dentro de mim dizia que não era o certo?” Esse tipo de pensamentos que nos levam a um tipo de deriva emocional tem um nome: são os pensamentos contrafactuais.

Quando começamos a especular imaginando o que teria acontecido, aplicamos o pensamento contrafactual. É um mecanismo mediante o qual o ser humano imagina, visualiza ou constrói alternativas aos fatos e aos acontecimentos já acontecidos. São ativados como uma meta falida, com uma relação perdida, com um sonho evaporado pela falta de coragem, para dar forma por meio da imaginação ao que deveria ter acontecido.

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Muitas são as pessoas que vivem mentalmente mergulhadas neste tipo de “multiverso” ou universos múltiplos onde diferentes “eus” realizam “o que poderia ter sido e não foi”. Contudo, a única coisa que se consegue com isso é diluir completamente a própria identidade. Vale a pena lembrar o que disse Heidegger uma vez sobre este mesmo tema: o ser humano está destinado a renovar o seu passado nostálgico – e as vezes dramático – em direção a um futuro mais esperançoso e sábio.

A voz da intuição que nem sempre seguimos

No início comparamos nossos palpites com o som que ouvimos ao colocar o ouvido em uma concha. A gente ouve, não há dúvida, mas não sabe muito bem o que é esse som ou de onde vem. É interessante saber que esses sons do interior das conchas, longe de serem o barulho do mar ou fruto da nossa própria imaginação, são na verdade o ar do exterior vibrando nesse objeto semifechado. A própria concha funciona como um amplificador.

Com os palpites acontece algo bem parecido. Temos uma sensação que ouvimos em forma de barulho, sem lhe dar muita importância. Contudo, é assim que se constroem as intuições: um elemento externo interage com nosso próprio coração, com nossa mente para ganhar contato com nosso ser inconsciente. É então quando uma voz interior vibra para nos dar uma mensagem concreta de acordo com a nossa identidade. “Faça, é sua OPORTUNIDADE”.

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Às vezes o fato de ignorar essa voz traz uma consequência que já conhecemos: o arrependimento. Malcolm Galdwell, sociólogo e especialista neste assunto, aponta que as mensagens que a intuição envia são difíceis de decodificar. Nem sempre as compreendemos, nem sempre queremos ouvi-las porque a lógica ou a pressão daqueles que nos cercam pesa demais. É uma coisa que vamos treinando com o tempo, sendo mais receptivos, livres e conscientes de nós mesmos.

Também fica evidente que muitas vezes “essa voz” se engana, mas se existe uma coisa que dói de verdade, que pesa de verdade e rasga a alma, não é ter errado em um dado momento. O que dói é não ter tentado quando a oportunidade apareceu.

Imagens cortesia Philipp Klarebone, Frap Carré Art.

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