Narcisismo conversacional: o que é?

Existem pessoas viciadas na fala, são narcisistas conversacionais que não hesitam em manter monólogos desenfreados mesmo com pessoas que não conhecem bem. Você já conheceu alguém com essa característica?
Narcisismo conversacional: o que é?

Última atualização: 17 maio, 2022

O narcisismo conversacional não define nenhum transtorno psicológico. Mesmo assim, é difícil conviver com alguém que apresente essa característica. São viciados em fala, “comunicadores em série” que, embora não matem, desgastam. Portanto, não é de surpreender que muitas dessas pessoas acabem afastando as pessoas e ficando cada vez mais sozinhas.

Pesquisas nos dizem que cerca de 4% da população pode evidenciar o talkaholism, ou seja, um vício na fala. São homens e mulheres que, apesar de saberem que falam demais, não consideram isso um problema. Geralmente se autopercebem como figuras assertivas e competentes, com bons recursos para relatar temas interessantes.

No entanto, sua fala nada mais é do que um solilóquio sobrecarregado de detalhes inconsequentes. E o que é mais importante… Esquecem que uma conversa é uma troca de informações respeitosa e recíproca entre duas ou mais pessoas. Portanto, é fácil deduzir que esse tipo de viciado ao ouvir a própria voz mostra um tipo de personalidade muito particular.

A autoexpressão irresponsável ou a logorréia não é fácil de controlar por quem a demonstra. Eles falam sem parar, apesar de saberem que quem está na frente deles não está ouvindo.

Homem entediado porque sua esposa sofre de narcisismo de conversação
Os narcisistas conversacionais podem conversar com estranhos por horas sobre assuntos puramente pessoais.

O que é narcisismo conversacional?

Algo que é característico da conexão genuína é uma descentralização do eu. Ou seja, nesse tipo de vínculo saímos de nós mesmos para colocar nossa atenção no outro e então, justamente a partir desse ponto, criamos um vínculo, uma ponte de ida e volta entre duas pessoas. Agora, a pessoa caracterizada pelo narcisismo conversacional permaneceu ancorada no estágio egocêntrico da criança de 3 anos.

É aquela fase em que os pequenos se sentem o centro do mundo e até mesmo autorizados a reclamar toda a atenção. Se uma coisa é certa, é que todos nós já nos deparamos com alguém definido pelo talkaholism em algum momento. Às vezes, ao entrar no metrô ou fazer fila em qualquer shopping center, há aquela pessoa desconhecida que parece estar esperando para iniciar uma conversa.

A princípio ficamos chocados com sua autoconfiança e sua facilidade em revelar coisas que pertencem à esfera privada. Nós, quase sem saída, limitamo-nos a acenar com a cabeça tentando ser respeitosos diante de tal “diarreia conversacional” ou logorréia. Agora, a questão é muito mais séria quando o verbalizador compulsivo é alguém próximo, um amigo ou familiar.

A errônea “loquacidade”

Vivemos em uma sociedade que percebe a pessoa loquaz e comunicativa como assertiva, autoconfiante e com boa capacidade de liderança. “Quanto mais você fala e quanto mais rápido você fala, mais inteligente você parece.” No entanto, é muito comum encontrar líderes que realmente vendem fumaça e se comunicam por horas sem emitir uma única mensagem útil para a organização.

Por outro lado, pesquisas da Universidade de Kentucky destacam algo interessante. O narcisismo conversacional define pessoas argumentativas e controladoras com alta autoestima. Além disso, ressalta-se a importância de saber diferenciar a pessoa “conversativa” daquela que o faz compulsivamente.

Tão notável é essa característica que temos até a Escala Talkaholic, desenvolvida em 1993 por James C. McCroskey e Virginia P. Richmond. Graças a ela, podemos detectar o verdadeiro viciado e os conversativos compulsivos. E insistimos, como apontamos no início, que esse traço pode estar presente em 4% da população.

Como o narcisismo conversacional se manifesta

O narcisismo conversacional é definido por uma fome profunda não apenas de falar, mas de se comunicar com alguém. Eles precisam de uma pessoa que os escute e que sirva de “caçamba” para jogar todo raciocínio aleatório, anedota insignificante, pensamento absurdo e experiência anódina.

  • Eles não entendem o significado básico da palavra comunicar. Desprezam a arte de ouvir o outro, de trocar informações, de praticar a reciprocidade com o interlocutor.
  • Eles estão plenamente conscientes de que podem sobrecarregar os outros com seu discurso. Mas eles não se importam. Tanto que eles podem se desculpar e continuar falando.
  • Algo impressionante é que eles se percebem como bons comunicadores. No entanto, eles não são. Eles saem dos trilhos, perdem o fio do monólogo, dão detalhes sem sentido ou significado e podem dizer a mesma coisa várias vezes.
  • Outra característica é que muitas vezes eles nem olham a outra pessoa nos olhos. Eles ficam suspensos em um ponto imaginário enquanto deixam fluir sua logorréia.
Amigos falando simbolizando narcisismo de conversação

Qual é a causa desse estilo monopólico de comunicação?

Como já apontamos, o narcisismo conversacional não é um distúrbio psicológico. No entanto, essa característica é recorrente em certas personalidades. A Universidade de West Virginia realizou uma investigação na qual determinou que o falante compulsivo geralmente apresenta uma personalidade com estrutura extrovertida, psicótica e neurótica.

Não estamos lidando com falantes simples. São pessoas viciadas na fala, desrespeitosas, muitas vezes argumentativas e com as quais raramente é possível chegar a um acordo ou simplesmente desfrutar de uma conversa.

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  • Bostrom, Robert N.; Grant Harrington, Nancy (1999). “An Exploratory Investigation Of Characteristics Of Compulsive Talkers”. Communication Education. 48 (1): 73–80. doi:10.1080/03634529909379154
  • McCroskey, James C.; Richmond, Virginia P. (1993). “Identifying Compulsive Communicators: The Talkaholic Scale”. Communication Research Reports. 10 (2): 107–114. doi:10.1080/08824099309359924
  • McCroskey, James C.; Heisel, Alan D.; Richmond, Virginia P. (2001). “Eysenck’s BIG THREE And Communication Traits: Three Correlational Studies”. Communication Monographs68 (4): 360. doi:10.1080/03637750128068