O narcisismo inconsciente presente nas relações entre pais e filhos

O narcisismo inconsciente presente nas relações entre pais e filhos

março 20, 2018 em Psicologia 154 Compartilhados
O narcisismo inconsciente presente nas relações entre pais e filhos

O narcisismo, entendido como o amor por si mesmo e a busca da satisfação produzida pela admiração, está presente nas relações parentais. Os pais projetam em seus filhos um enorme impulso para viver e amar; no entanto, muitas vezes esse impulso é mediado por seus desejos em maior ou menor grau, mantendo uma relação de narcisismo inconsciente, não egomaníaco, mas ansioso ou expectante.

A literatura e a teoria se ocuparam em mostrar como as relações com os pais influenciam as crianças. No entanto, é difícil encontrar na literatura referências claras ao narcisismo presente nas relações parentais, entendidas como a visão do alheio como próprio ou, o que é a mesma coisa, o olhar sobre as características da criança como suas.

Os primeiros vestígios de interesse por este fenômeno são encontrados em Freud, que teorizou sobre a existência da tendência de atribuir ao filho todas as perfeições (cabe destacar que ele só tratou, neste caso, de como os pais formavam os relacionamentos com seus filhos). Isso é percebido no início das relações parentais, quando o bebê se torna o rei da casa.

Criança chateada

Assim, o fenômeno “Sua majestade o bebê” se torna uma forma de renovar nas crianças os privilégios que eles mesmos imaginam ter como filhos e tiveram que abandonar. Observamos que os pais enchem seus filhos de privilégios e considerações, desvinculando suas qualidades para depois exigir que o desenvolvimento das mesmas esteja em conformidade com seu esquema.

Ou seja, muitos pais acabam projetando em seus filhos “seu EU ideal”, oferecendo a eles e a si mesmos uma versão “aperfeiçoada e perfeccionista” do que eles acreditam ter sido ou gostariam de ter sido.

Digamos que podemos entender que um eu ideal é concebido nos próprios filhos, tornando-os responsáveis ​​por curar as frustrações e os desejos mais profundos do ego infantil parental.

É por isso que se fala de narcisismo inconsciente, pois, quando falamos de projeção, seria mais um amor por eles mesmos, por como eles acreditam ter sido ou quiseram ser, desdobrando de alguma maneira esse relacionamento amoroso.

Mulher com cobra envolta no corpo

Como o narcisismo inconsciente é construído?

A experiência clínica leva os profissionais relacionados ao campo das relações pai-filho a se aprofundar no narcisismo inconsciente presente neles. Atendendo a isso, o psicanalista Juan Manzano fala a respeito dos quatro elementos essenciais que constituem esse narcisismo inconsciente parental:

1. Projeção dos pais sobre a criança

Projeção por parte dos pais de aspectos infantis próprios vividos como abandono ou deficiências. O pai ou a mãe que faz essa projeção não quer que seu filho/filha não tenha o que eles desejaram e desejam; por sua vez, eles veem em seus filhos a representação perfeita de seu eu ideal. É possível que essa projeção seja, em grande parte, inconsciente ou que pelo menos não seja feita uma reflexão explícita sobre isso.

2. Identificação complementar dos pais

O pai ou a mãe considera seu filho como parte de si mesmo ou de seus objetos internos em maior ou menor grau. Ou seja, o pai se identifica de tal forma que o sentimento de posse é exacerbado, dificultando assim a construção da própria criança.

Menina segurando flor de outono

3. Objetivo específico

Como mencionado, o objetivo dessa projeção e identificação complementar é a obtenção da satisfação de uma natureza narcisista. No entanto, podem ser adicionadas ao cumprimento do perfil desejado outras finalidades, como a negação de uma perda.

4. Uma dinâmica relacional atuada

A interação é baseada em papéis previamente atribuídos, de modo que superará a imaginação e moldará o desenvolvimento de dinâmicas relacionais com outras pessoas e consigo mesmo. Isso cria um perfil de ficção que acaba se tornando uma realidade.

Em casos patológicos, as crianças podem reagir de diferentes maneiras. Às vezes assumem os papéis que lhes foram atribuídos, criando distúrbios mais tarde, o que fará a criança se rebelar porque se sente abandonada. Esse sentimento de abandono é determinado pela simples razão de que a relação entre ele/ela e os pais não existe ou é escassa, já que sente que seus desejos não são seus, mas sim que são impostos pelas expectativas dos pais.

NOTA: O conteúdo deste artigo foi extraído do que foi exposto em “Cenários narcisistas da parentalidade” por Juan Manzano.

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