A neurobiologia da agressão impulsiva

11 Março, 2021
Durante a primeira metade do século XX, foram realizados estudos com gatos, especificamente na região do hipotálamo posterior. Foi descoberto que, caso essa região fosse destruída e separada de suas conexões centrais, comportamentos agressivos de raiva desapareceriam.

A agressão é um construto complexo e heterogêneo. Em linhas gerais, podemos diferenciar dois tipos de agressão: a agressão premeditada (predatória, instrumental) e a agressão impulsiva (afetiva, reativa). Neste artigo, analisaremos a neurobiologia da agressão impulsiva.

De acordo com o autor Stahl, a agressão impulsiva pode refletir “uma hipersensibilidade emocional e uma percepção exagerada das ameaças. Isso pode estar interligado a um desequilíbrio entre os controles inibitórios corticais de cima para baixo e os impulsos límbicos de baixo para cima.

De modo geral, aparentemente, a agressão impulsiva incontida possui uma forte atividade na região da amígdala. Por um lado, isso implica uma baixa atividade inibitória na região do córtex pré-frontal orbitofrontal (PFC). Por outro, quando o indivíduo consegue controlar sua agressão impulsiva, há um aumento na atividade do PFC. No entanto, a pergunta que resta é a seguinte: de onde vem o comportamento agressivo no sistema nervoso central?

O hipotálamo e a substância cinzenta periaquedutal

Durante a primeira metade do século XX, foram realizados estudos com gatos, especificamente na região do hipotálamo posterior. Foi descoberto que, caso essa região fosse destruída, também “se destruía” um comportamento agressivo de raiva (falsa raiva) que, aparentemente, não estava associado a acessos legítimos de fúria. Além do mais, esses comportamentos nem sempre eram dirigidos aos estímulos que os desencadeavam. Uma vez estimulada, a região do hipotálamo posterior provocava comportamentos de raiva (2, 3).  

Os estudos sobre as bases neurobiológicas da agressão em gatos apontavam as descrições de (4, 5):

  • Ataques afetivos, caracterizados por respostas emocionais comuns ao sistema nervoso simpático;
  • Ataques predatórios, desprovidos daquelas respostas emocionais comuns.
Mulher com transtorno de personalidade

Ataques afetivos

Estes podem ser controlados a partir de uma grande área do hipotálamo medial que se estende até o tronco do encéfalo, onde estão as terminações nervosas responsáveis pelas expressões de ataque como os grunhidos (6). Os ataques afetivos também podem implicar:

  • A amígdala medial. A partir desta, o hipotálamo recebe as informações estimulantes;
  • A substância cinzenta periaquedutal dorsal no tronco do encéfalo, que recebe a informação estimulante a partir do hipotálamo. Além disso, nessa substância existem conexões estimulantes com o cerúleo e com o núcleo do trato solitário, que mediam as respostas autônomas durante os ataques afetivos (6). 

Os ataques predatórios

Este tipo de ataque é controlado, cerebralmente, a partir do hipotálamo lateral. Também existem conexões com regiões do tronco encefálico, como a substância cinzenta periaquedutal ventrolateral, entre outras. Além disso, o hipotálamo lateral costuma receber as informações estimulantes a partir das regiões central e lateral da amígdala, e as informações inibitórias a partir do núcleo medial da amígdala. De acordo com o estudo mencionado anteriormente, foi determinado que ambos os circuitos se inibem entre si. Isso quer dizer que, enquanto os gatos realizam “ataques predatórios”, eles não podem realizar “ataques afetivos” simultaneamente.

Haller (2014) afirma que certos mecanismos presentes em gatos no hipotálamo, na substância cinzenta periaquedutal, além de outras regiões como a da amígdala, podem funcionar de maneira semelhante ao que ocorre com os seres humanos. Nesse cenário, o córtex pré-frontal é adicionado como substrato dos fatores psicológicos.

As estruturas límbicas (amígdala, formação hipocampal, área septal, córtex pré-frontal e giro cingulado) modulam fortemente a agressão através de suas conexões com o hipotálamo medial e lateral (7).

A amígdala

Aparentemente, existe uma relação clara da amígdala com os comportamentos agressivos. Por exemplo, em diversos estudos, nos indivíduos violentos com traços de psicopatia, foram encontradas reduções significativas no volume de substância cinzenta na amígdala (8, 9). Contrariamente, outros estudos também mostram o oposto disso (1). O que parece estar certo é que a amígdala possui um papel com relação à agressão. Entretanto, não sabemos ao certo se ela aumenta ou diminui de tamanho quando comportamentos agressivos se manifestam.

Com relação à ativação da amígdala, estudos com psicopatas foram realizados e mostraram níveis mais baixos de ativação desta região quando observavam imagens violentas (1). 

Amígdala cerebral

O córtex pré-frontal na neurobiologia da agressão impulsiva

O que acontece, em termos funcionais, no PFC de indivíduos violentos? Um estudo feito com tomografia por emissão de pósitrons (TEP) em assassinos predatórios (psicopatas) e impulsivos, bem como em indivíduos de neurologia e condutas normais, apontou os seguintes resultados com relação a este tipo de agressão e as atividades no córtex pré-frontal:

  • Assassinos impulsivos apresentaram níveis baixos de atividade pré-frontal e níveis altos de atividade subcortical no lobo temporal (que abrange a amígdala), quando comparado aos indivíduos normais.
  • Assassinos predadores apresentaram atividades pré-frontais semelhantes às de indivíduos normais, porém com uma atividade subcortical excessiva.

No geral, parece que a violência provoca uma atividade funcional no mínimo estranha no córtex pré-frontal.

Também em linhas gerais, os estudos sobre a neurobiologia da agressão apontam as estruturas subcorticais como a amígdala, além de outras estruturas corticais, como sendo responsáveis por este tipo de comportamento. Ao que tudo indica, ainda que os estudos não sejam conclusivos, a conduta violenta poderia ser o resultado de uma disfunção tanto na atividade cortical quanto na atividade subcortical.

  1. Ortega-Escobar, J., & Alcázar-Córcoles, M. Á. (2016). Neurobiología de la agresión y la violencia. Anuario de psicología jurídica, 26(1), 60-69.
  2. Finger, S. (2001). Origins of neuroscience: a history of explorations into brain function. Oxford University Press, USA.
  3. Siegel, A. (2004). Neurobiology of aggression and rage. CRC Press.
  4. McEllistrem, J. E. (2004). Affective and predatory violence: A bimodal classification system of human aggression and violence. Aggression and violent behavior, 10(1), 1-30.
  5. Siegel, A. (2004). Neurobiology of aggression and rage. CRC Press.
  6. McEllistrem, J. E. (2004). Affective and predatory violence: A bimodal classification system of human aggression and violence. Aggression and violent behavior, 10(1), 1-30.
  7. Haller, J., & Haller, J. (2014). Neurobiological bases of abnormal aggression and violent behaviour. New York, NY: Springer.
  8. Ermer, E., Cope, L. M., Nyalakanti, P. K., Calhoun, V. D., & Kiehl, K. A. (2012). Aberrant paralimbic gray matter in criminal psychopathy. Journal of abnormal psychology, 121(3), 649.
  9. Tiihonen, J., Hodgins, S., Vaurio, O., Laakso, M., Repo, E., Soininen, H. y Avolainen, L.(2000). Amygdaloid volume loss in psychopathy. Society for Neuroscience Abstracts, 2017.
  10. Raine, A., Meloy, J. R., Bihrle, S., Stoddard, J., LaCasse, L., & Buchsbaum, M. S. (1998). Reduced prefrontal and increased subcortical brain functioning assessed using positron emission tomography in predatory and affective murderers. Behavioral sciences & the law, 16(3), 319-332.