Nó cannabis-tabaco: o que é e como desatá-lo?

maio 28, 2020
Você sabe o que é o nó cannabis-tabaco? Neste artigo, tentaremos defini-lo, identificando as suas principais consequências e as diretrizes que orientam as intervenções mais bem-sucedidas.

Denomina-se nó cannabis-tabaco a associação que pode ser gerada pelo consumo das duas drogas. Uma dupla que, atualmente, é bastante comum. O tabaco parece aumentar a probabilidade de que a maconha seja consumida em algum momento. Portanto, ocorre um problema de dependência dupla.

Tradicionalmente, a cannabis não era considerada um fator de risco para o tabagismo. No entanto, sabe-se agora que há uma dupla influência por parte de ambas as substâncias. Provavelmente, esse composto é um fator de risco para o consumo dessas drogas devido a fatores individuais, contextuais e específicos das substâncias, independentemente de por qual droga se iniciou o consumo.

Homem viciado em drogas

Efeitos do nó cannabis-tabaco

O nó cannabis-tabaco projeta uma situação especial. Além do efeito que o consumo separado de cada uma das substâncias pode ter, também há consequências que são características da sua interação no organismo.

Nicotina

Por um lado, a nicotina estimula o sistema nervoso central, provocando melhoras nos testes motores e sensoriais, facilitando a memória e melhorando a atenção. Também estimula o sistema nervoso periférico, aumentando os batimentos cardíacos e a pressão arterial. Além disso, a nicotina produz tolerância: o corpo se acostuma a essa substância, precisando de uma quantidade cada vez maior para obter os mesmos efeitos.

O mecanismo pelo qual o corpo, ou melhor, o cérebro, desenvolve dependência dessa substância é ao causar o aumento da dopamina nas vias mesolímbicas ou no sistema de recompensa.

Cannabis

A cannabis é um depressor do sistema nervoso central. Assim, causa um estado alterado de consciência, euforia, alterações na percepção. Além disso, intensifica as experiências sensoriais, prejudicando a atenção e a memória.

Gera crises ou aumentos da ansiedade, pânico ou psicose, cuja intensidade depende de vários fatores, como a dose consumida ou o histórico de consumo.

No nível periférico, a cannabis causa aumento do apetite, diminuição da dor, da pressão arterial e batimentos cardíacos, vasodilatação, etc.

Efeitos conjuntos ou sinérgicos

No curto prazo, os efeitos do uso conjunto de maconha e tabaco são duvidosos. Argumenta-se que o tabaco poderia aumentar o efeito reforçador da cannabis devido à dopamina. Por sua vez, a cannabis aumenta o potencial viciante da nicotina.

Por outro lado, considera-se também a possibilidade de que um atenue os efeitos adversos do outro, modificando o grau de tolerância ou dependência produzida. Ainda são necessárias mais pesquisas nesse sentido; por esse motivo, em 2015 foi criado o Projeto ÉVICT, um grupo de trabalho para o estudo do policonsumo de maconha e tabaco na Espanha, financiado pelo Plano Nacional sobre Drogas.

A longo prazo, o nó cannabis-tabaco está associado a problemas respiratórios e periodontais. Além disso, embora os resultados não sejam conclusivos, tem sido relacionado ao desenvolvimento de distúrbios psicóticos e déficits neurocognitivos.

Fatores de risco do nó cannabis-tabaco

Muitos estudos foram realizados tentando esclarecer quais fatores estão relacionados ao uso de maconha e tabaco, mas não há consenso sobre isso. Até agora, os resultados sugerem que os fatores são aqueles aplicáveis a qualquer tipo de substância.

Entre os aspectos a serem destacados estão gênero, idade e cultura, tanto em fatores de risco quanto de proteção. Essas variáveis e outras, como biológicas e genéticas, também devem ser levadas em consideração para o desenvolvimento de programas de prevenção.

No nível social, a estrutura e união da família, a disciplina, os relacionamentos afetivos e estilos de comunicação, as atitudes e comportamento familiar em relação ao consumo também podem influenciar.

Adolescente com conflitos internos

Como desfazer esse nó?

É importante que as instituições promovam medidas regulatórias para o tráfico e consumo de substâncias, além de medidas preventivas desde a fase escolar.

O tratamento mais eficaz para acabar com o nó cannabis-tabaco envolve lidar com as duas substâncias de forma conjunta ou sequencialmente (deixando uma substância e depois outra), algo comum no tratamento de dependências. Combina tratamento psicológico e farmacológico individualizados, levando em consideração fatores pessoais e contextuais.

A intervenção psicológica provou ser eficaz. Geralmente, entrevistas motivacionais, terapia cognitivo-comportamental e terapia de incentivo com reforço estão incluídas. Por outro lado, o tratamento farmacológico está bem estabelecido para o consumo de nicotina, mas embora os resultados sejam promissores, o seu efeito não é tão claro no combate ao vício em cannabis.

  • Eriksen M, Ross H, Mackay J. The tobacco atlas, 4rd ed., Atlanta: American Cancer Society – World Lung Foundation, 2012.
  • O’Connor RJ. Non-cigarette tobacco products: what have we learnt and where are we headed? Tob Control. 2012;21:181-90.