Sistema de recompensa do cérebro: neurobiologia da motivação

março 8, 2019
O sistema de recompensa do cérebro surge em qualquer processo em que sentimos motivação. Embora seja verdade que ele faz parte dos comportamentos viciosos, também cumpre uma função muito importante para nos proporcionar prazer e bem-estar.

Mesmo que frequentemente fale-se do sistema de recompensa do cérebro como um mecanismo associado aos vícios, há um aspecto essencial que devemos entender: ter metas na vida é sinônimo de saúde e bem-estar. Assim, toda essa neurobiologia que há por trás da motivação e do prazer que desejamos no dia a dia é regulada pelo mesmo circuito complexo e fascinante.

Comer, descansar, uma conversa com os amigos em um café, esperar um like na foto que acabamos de postar em nossas redes sociais, comer uma sobremesa bem recheada de chocolate, sair mais cedo do trabalho para fazer compras ou ir ao cinema, etc.

Todos estes comportamentos tão elementares que nos acompanham em cada um dos nossos dias são regidos pelo sistema de recompensa do cérebro.

Frequentemente, quando falamos deste sistema, é comum escutar que sua prioridade mais básica é garantir nossa sobrevivência. Todos os processos que tenham como objetivo este instinto primordial são automáticos e regidos, na maior parte dos casos, por uma emoção muito básica: o medo.

É ele que faz com que sejamos prudentes, que nos faz lembrar que a vida tem certos perigos e que, frequentemente, vale a pena ficar na nossa zona de conforto.

Mas, e o prazer? Que finalidade todos estes comportamentos positivos citados antes têm? Acreditemos ou não, a motivação e o bem-estar que encontramos ao realizar certas condutas também fazem parte da nossa evolução.

Às vezes, as pessoas estão rodeadas de múltiplos estímulos e situações diversas. Nestes contextos, é necessário priorizar o bom, o que em um determinado momento se transforma em benefício próprio.

Por exemplo, nosso cérebro vai nos recompensar quando, depois de um dia de estresse, escolhemos sair com um amigo especial para beber algo e relaxar. Também vai nos “presentear” com dopamina quando, no meio de uma manhã quente, saímos em busca de um copo de água para nos hidratar.

Portanto, a finalidade deste circuito cerebral é conseguir que estejamos motivamos a ter comportamentos específicos que ele considera adequados.

“Todas as experiências em sua vida, desde conversas individuais até sua cultura mais ampla, dão forma aos detalhes microscópicos do seu cérebro. Neuralmente falando, quem você é depende de onde você esteve, do que você pensa e do que você faz”.
– David Eagleman-

Cérebro iluminado

O que é e onde se encontra o sistema de recompensa do cérebro?

Quando falamos do sistema de recompensa do cérebro, nos referimos a uma série de estruturas que são ativadas quando são detectados estímulos gratificantes ou de reforço.

Por exemplo, quando vemos uma pizza recém assada, um sorvete, um livro cuja publicação estávamos à espera ou qualquer estímulo que se encaixe em nossos gostos e necessidades do momento, o cérebro responde liberando um neurotransmissor, a dopamina. É, então, que a motivação para alcançar tal objetivo surge.

Foi nos anos 50 que a existência deste mecanismo foi descoberta. Nessa década, os neurologistas James Olds e Peter descobriram que estimulando certas áreas cerebrais, os mamíferos experimentavam uma maior motivação para obter algo.

Esta descoberta representou uma revolução a ponto de pensar que, aplicando eletrodos em diversas áreas do cérebro, era possível mudar o comportamento do ser humano.

Tanto é assim que, em 1972, foi realizado um experimento muito controverso que buscava modificar o comportamento de um jovem homossexual. Os dados e conclusões foram publicados no Journal of Behavioral Therapy and Experimental Psychiatry.

Por outro lado, e sob a raiz de todos aqueles experimentos e testes mais ou menos éticos, algo que se conseguiu foi compreender quais estruturas estavam envolvidas no sistema de recompensa do cérebro. São as seguintes.

Via dopaminérgica mesolímbica

Este é o principal caminho por onde se libera e percorre a dopamina. Tem seu início na  área tegmental ventral e se conecta, por sua vez, com estruturas tão relevantes como o núcleo accumbens, a amígdala, o hipocampo e o córtex pré-frontal.

Esta estrutura está relacionada com o prazer e as experiências gratificantes.

A área tegmental ventral

Mais do que uma estrutura, é na verdade um grupo de neurônios (células dopaminérgicas) localizadas no mesencéfalo. Esta área se relaciona com processos básicos, como as emoções intensas: o amor, o aprendizado, a motivação, os orgasmos e também os comportamentos viciosos.

Sistema de recompensa do cérebro

Núcleo Accumbens

Neste caso, temos outro tipo de acúmulo de neurônios que estão envolvidos em processos como o prazer, o riso, a motivação, o medo, a agressividade, o vício, etc.

Córtex cerebral

O córtex cerebral é a camada mais externa do cérebro, a mais sofisticada e onde são reguladas a maioria das nossas funções executivas ou processos cognitivos.

Está área também está relacionada com o sistema de recompensa. Entretanto, cabe lembrar que nenhuma destas estruturas trabalha de forma isolada; todas elas estão interconectadas entre si por uma estrutura chamada circuito reforçador límbico motor.

Este mecanismo combina áreas motivacionais e emocionais com funções motoras, que fazem com que possamos nos movimentar e inclusive planejar comportamentos e planos, graças ao córtex pré-frontal.

Os processos viciantes

Falávamos sobre isso no começo. Toda vez que se fala sobre o sistema de recompensa do cérebro, é comum relacioná-lo com os comportamentos associados ao vício.

Agora que nós já sabemos que este circuito está envolvido em muitos outros processos e comportamentos é hora de entender por que algumas pessoas acabam nestes estados caracterizados por vícios.

Sabe-se que existem múltiplos fatores: sociais, familiares e inclusive psicológicos. No entanto, é importante saber que, assim como alguns estudos revelam, existem certos componentes genéticos capazes de fazer com que certas pessoas sejam mais suscetíveis do que outras.

Isso por si só é revelador, já que como explica uma pesquisa da Universidade de Maryland, facilita em muitos casos o tratamento.

Por exemplo, sabe-se que determinadas alterações no sistema de recompensa mesolímbico facilitam o comportamento vicioso.

Entretanto, além dos desencadeantes e das causas, existe um fator que não podemos deixar de lado. Sabemos que o cérebro nos gratifica ou nos coloca no caminho para conseguir certas coisas que ele considera positivas.

Se for assim, por que os comportamentos viciosos se mantêm se eles são nocivos? Bom, o que acontece na verdade é que determinadas substâncias nocivas, como qualquer tipo de droga, conseguem “alterar” por completo o sistema de recompensa.

Ele se transforma e altera de tal modo que perde o controle até impactar quase qualquer área do nosso cérebro. A pessoa vive por um só objetivo: obter esta substância ou repetir um determinado comportamento de forma compulsiva.

Cérebros viciados

Nossa realidade muda por completo, da mesma forma que o nosso comportamento, nossa personalidade e, é claro, nossa saúde.

Portanto, entender como o sistema de recompensa do cérebro funciona nos permite compreender muito mais sobre o ser humano. É um mecanismo que regula a forma como vemos grande parte do nosso comportamento, o positivo e o negativo.

Cuatrocchi, E. (2009), La adicción a las drogas. Madrid: Espacio Editorial.

Gil Verona, José Antonio (2014) Fundamentos de Neurobiología. Madrid:  Editorial Académica Española