Noivo Neurótico, Noiva Nervosa: neurose e comédia

março 12, 2019
O que é a risada? Como algo se torna cômico? E, sobretudo, o que é a felicidade e como alcançá-la? 'Noivo Neurótico, Noiva Nervosa' é uma comédia com uma engenhosidade narrativa e cinematográfica que a transformou em uma das melhores da história do cinema. Riso e psicologia andam de mãos dadas nessa obra de Woody Allen. 

Era o ano de 1977 quando estreou o filme Noivo Neurótico, Noiva Nervosa. Eram aqueles anos nos quais ainda era possível viver sem tecnologias que hoje observamos de longe como se fosse outra dimensão. Mesmo com o passar do tempo, parece que esse clássico de Woody Allen não sai de época, pois ainda hoje podemos sorrir ao presenciar seus engenhosos diálogos e monólogos.

Noivo Neurótico, Noiva Nervosa apela diretamente ao espectador. Allen irrompe em nossas vidas, olhando para a câmera e nos tornando participantes do filme. Brinca conosco, apresentando-nos digressões, idas e voltas no tempo, legendas para expressar os pensamentos dos personagens… E até inclui fragmentos animados como paródia da Branca de Neve e os Sete Anões.

Além de ser uma delícia de ver, com uma estética realmente interessante e inovadora, Noivo Neurótico, Noiva Nervosa traz para a comédia um componente psicológico muito realista, que joga muito bem com os problemas do homem contemporâneo. Os medos e a neurose de uma época que, ainda que tenha mudado muito comparativamente a hoje, segue presente no nosso dia a dia.

Premiado com várias indicações ao Oscar, reconhecido como um dos melhores roteiros da história do cinema e como a melhor comédia romântica, Noivo Neurótico, Noiva Nervosa é imprescindível. É “A” comédia romântica, é a vida contemporânea. Totalmente engenhosa, espontânea e reflexiva, proporciona um deleite para os nosso sentidos, mas também é pode ser analisada e estudada por áreas como a filosofia e a psicologia.

Quem é Annie Hall?

Talvez antes de nos perguntarmos quem é Annie Hall, deveríamos perguntar como ela surgiu. A princípio, a história de amor entre Alvy Singer e Annie Hall fazia parte de outro roteiro, que foi evoluindo até um filme que se chamaria Anedonia. A anedonia é definida como a incapacidade de sentir prazer, o que dá lugar a uma sensação de insatisfação permanente. É precisamente a anedonia o que podemos ver no personagem de Alvy Singer.

Essa ideia original parecia não ter muita coerência, e era mais similar a um monólogo interno do próprio Allen do que à comédia que conhecemos hoje. Posteriormente, o roteiro tomou forma e o resultado é excepcional. Noivo Neurótico, Noiva Nervosa é uma comédia de personagens, é uma comédia que observa a realidade e normaliza as visitas a um psicólogo.

“A vida está cheia de solidão, miséria, sofrimento, tristeza e, mesmo assim, acaba rápido demais”.
-Noivo Neurótico, Noiva Nervosa-

Agora sim podemos falar: quem é Annie Hall? Pois então, Annie Hall não é outra que não a própria Diane Keaton. Allen não imaginou personagens fictícios, e também não buscou muito longe na hora de desenhar seus singulares protagonistas. Ele se inspirou nele mesmo e na mulher que foi sua esposa, Diane Keaton.

O apelido de Keaton na sua infância era Hall e, no seu contexto familiar, ela é conhecida como Annie. Mas não é só no nome que vemos similaridades entre a personagem e a intérprete. Ambas trabalharam como cantoras em bares e também podemos ver um reflexo da relação amorosa que Allen e Keaton mantiveram, assim como seu posterior término. Isso tudo, por sua vez, convida-nos a refletir sobre as relações contemporâneas.

Noivo Neurótico, Noiva Nervosa não só criou uma tendência no âmbito do cinema, mas também no mundo da moda. Keaton era acostumada a usar roupas masculinas, como peças largas, gravatas, ternos, etc. Esse modo de se vestir criou uma tendência, rompeu padrões e estabeleceu um novo conceito na moda. Era algo que contrastava muito com o vestuário típico das mulheres no mundo do cinema, mas dotou a personagem de uma grande personalidade. O resultado? Uma comédia com identidade e nome próprios.

Cena de Noivo Neurótico, Noiva Nervosa

Psicologia e riso em Noivo Neurótico, Noiva Nervosa

A psicologia e o riso podem andar de mãos dadas? Muito foi falado sobre a risada ao longo da história, ainda que, a princípio, o cômico fosse associado ao inculto, enquanto o sério era relativo a uma cultura elevada.

Na Antiguidade,  vemos que a risada foi retratada por diversos autores, como Demócrito, Aristófanes e Hipócrates. Autores como Cícero e Quintiliano também se ocuparam da retórica do riso, e existem manuais de retórica que falam sobre piadas ou tipos de riso que podem ser utilizados para manter a atenção do público.

Não é de se estranhar que ele fosse associado com frequência com a figura do tonto ou do louco. A princípio, não havia muita distinção entre ambos. A distinção chegará principalmente com Cervantes e Dom Quixote, obra na qual aparecem duas figuras bem diferenciadas: o tonto, Sancho, e o louco, Dom Quixote.

Cena de Noivo Neurótico, Noiva Nervosa

Durante o humanismo, destaca-se a figura de Laurent Joubert que, com seu Tratado sobre a Risada, trouxe essa questão para perto da psicologia. A partir desse momento, encontramos diversos autores que teorizaram sobre a questão, como Freud, Bergson e Koestler.

Bergson reuniu uma série de artigos em uma obra de título O Riso, e nela ele chega à conclusão de que a risada é causada pelo choque de dois planos. Koestler, por sua vez, dá um passo além e diz que a risada é produzida pelo que ele chamou de bissociação, ou seja, uma associação dupla.

Temos também alguns estudos que aprofundaram o conhecimento sobre o riso a partir de um ponto de vista bastante psicológico. No caso de Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, o que temos é a associação de problemas psicológicos contemporâneos ao risível. As situações cotidianas são levadas ao extremo, uma infinidade de recursos narrativos são utilizados, e a trama é rompida para introduzir personagens conhecidos, como o filósofo Marshall McLuhan, e se produz uma anagnórise com o personagem de Alvy Singer.

Alvy Singer é um personagem cômico que possui uma infinidade de problemas psicológicos, procura um especialista, questiona tudo e analisa demais as coisas. A anagnórise consiste em dotar um personagem de elementos que produzam um reconhecimento. No caso de Alvy Singer temos a sensação de estar analisando o próprio Woody Allen e, inclusive, a nós mesmos.

Rimos de nós mesmos, das nossas fobias, dos problemas de um mundo no qual nada nos falta, mas ainda assim somos totalmente infelizes. Allen faz um grande exercício cinematográfico e humorístico, um trabalho excepcional. O resultado é um presente para nós, um dos melhores roteiros da história do cinema, no qual a psicologia e o riso se fundem.

“Quando eu era aluno, me tiraram do colégio por colar na prova de metafísica. Eu olhei na alma do meu colega de escola”.
-Noivo Neurótico, Noiva Nervosa-

Cena de Noivo Neurótico, Noiva Nervosa

O que é a felicidade?

Alvy Singer passa toda a sua vida buscando a felicidade, mas nada lhe traz essa sensação. Nem sequer seu amor por Annie Hall, porque ele na verdade não faz nada além de buscar por imperfeições. Alvy Singer é o Pigmaleão de sua era, que trata de tentar mudar Annie para que ela seja sua mulher perfeita.

Na contemporaneidade, associamos a felicidade a posses, seja à posse representada por ter uma relação amorosa, status social ou bens materiais. Em Noivo Neurótico, Noiva Nervosa vemos que essas relações, às vezes, não são tão perfeitas, que são irracionais e podem nos levar à loucura.

Em sua incansável luta para compreender o que é a felicidade e como alcançá-la, Alvy pergunta a um casal, que parece muito feliz, qual é a chave para alcançar essa felicidade. Esse casal é composto por duas pessoas que são efetivamente – e totalmente – felizes, mas eles não se questionam nada em absoluto, não pensam e são totalmente vazios e superficiais. Desse modo, Allen nos dá uma de suas chaves para a felicidade: não pense muito e viva na ignorância.

Em um mundo tão frenético quanto o nosso, não há lugar para o pensamento. Alvy representa a urbanização neurótica com uma visão totalmente pessimista que é uma paródia de nossa contemporaneidade, de nós mesmos. Noivo Neurótico, Noiva Nervosa nos convida a fazer uma análise, mas também a rir, a olharmos o mundo de uma forma menos séria ou. Caso contrário, poderíamos ser o próximo Alvy Singer.

“Uma relação é como um tubarão, tem que estar continuamente avançando, se não morre. E me parece que o que temos aqui é um tubarão morto”.
-Noivo Neurótico, Noiva Nervosa-