O chiste, segundo Freud

· março 5, 2019

Uma das genialidades de Sigmund Freud é ter notado fenômenos cotidianos que, para a maioria dos estudiosos da mente, não tinham nenhuma importância. Um deles são os chistes. Para ele, o chiste é muito mais do que um modo engenhoso ou simpático de pensar a realidade.

A sua obra-prima sobre este assunto é O chiste e a sua relação com o inconsciente. Foi publicado em 1905 e nele Freud analisa as características, os elementos e as motivações por trás dessas piadas cotidianas das quais a maioria de nós ri. Ele achava que talvez elas revelassem mais do que poderíamos ver em sua superfície.

Como um fato curioso, Sigmund Freud escreveu este trabalho simultaneamente com outra de suas grandes produções: Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. Ele tinha os dois manuscritos sobre a mesa ao mesmo tempo. Parava de escrever um para escrever o outro, o que não prejudicou em nada, pelo menos em termos de estilo e profundidade reflexiva, a qualidade das duas obras.

“O humor é a maior manifestação dos mecanismos de adaptação do indivíduo”.
-Sigmund Freud-

Mulher comendo a lua

A técnica do chiste para Freud

Para Freud, o chiste se baseia em 6 técnicas básicas: a condensação, o deslocamento, o duplo sentido, o uso do mesmo material, o trocadilho ou chiste por semelhança e a representação antinômica. Vamos descrever estas técnicas:

  • Condensação: é a fusão de duas palavras ou conceitos em um, gerando um equívoco potencialmente divertido. Como quando alguém diz: “Pare de fumar” e o outro responde: “Eu sou um especialista em parar de fumar. Já fiz isso oito vezes”.
  • Deslocamento: quando o sentido de algo é transferido para outra coisa. Este é um exemplo: “Você sabia que o Corinthians quer que o goleiro se case? “Por quê?” “Porque eles querem celebrar algo”.
  • Duplo sentido: quando a mesma palavra é usada com um significado diferente. Como neste caso: “É melhor dar do que receber. Sinceramente, o boxeador”.
  • Uso do mesmo material: Uso das mesmas palavras ou expressões para gerar um novo significado. Exemplo: “Como você está?” – o cego perguntou ao paralítico. “Como você está vendo”, o paralítico respondeu ao homem cego.
  • Retrucar ou chiste por semelhança: É um jogo de palavras em que uma palavra se refere a outra. Exemplo: “O sexo é sempre melhor com o cérebro do que sem ele”.
  • Representação antinômica: Faz-se uma afirmação que é negada em seguida. Como neste caso: “Ele não apenas não acreditava em fantasmas, mas nem se assustava com eles”.
Homem controlando empregados

A tendência e a psicogênese do chiste

Para Freud, no chiste existem dois tipos de motivações: o chiste inocente, sem outra motivação do que mostrar a ingenuidade, e chiste tendencioso, ou aquele motivado por um impulso hostil ou obsceno. No chiste inocente, o prazer e o riso vêm exclusivamente da sagacidade implícita neles. Por outro lado, nos chistes tendenciosos o prazer viria de romper com uma forma de repressão.

Dentro dos chistes tendenciosos estão incluídas as declarações satíricas, irônicas, com a intenção de ridicularizar o outro. Dessa forma, o conteúdo hostil ou obsceno nem sempre é grosseiro, mas é evidente. Eles geram prazer naqueles que ouvem porque acreditam que supõem a transgressão de uma norma frente a determinados assuntos ou figuras.

É muito comum que chistes tendenciosos sejam dirigidos a uma figura de poder, uma ideologia, um credo, um povo, uma raça, etc. Muitas vezes eles são uma maneira “politicamente correta” de manifestar verdades que de outra forma não seriam aceitas.

Ilustração de Freud

O chiste e a repressão

O chiste é um dos mecanismos para enfrentar a repressão social, cultural ou individual que gera desprazer ou neurose. Graças à história engraçada, parte dessa tensão que estaria implícita na repressão seria liberada. No fundo haveria uma ideia: se é engraçado para os outros é porque liberta de uma coerção.

O riso é um meio de liberar a tensão emocional. É também um desafio para o repressor. Nesse sentido, o chiste tendencioso e o riso cumprem um papel civilizador. Em vez de atacar diretamente o outro, é usado um meio engenhoso de linguagem para expressar hostilidade. Em vez de quebrar os tabus do sexo através da perversão, isso seria feito por meio de um “chiste hostil” ou obsceno.

Por tudo isso, para Freud o chiste é um meio de conhecer os desejos reprimidos de uma pessoa e de uma sociedade. Sobre seus tabus e tudo o que não é falado abertamente e, portanto, está de alguma forma banido da consideração consciente. Assim, esses chistes poderiam ter tudo a ver com o inconsciente, abrindo um caminho para conhecermos em profundidade a realidade subjetiva de uma pessoa e de uma cultura.

  • Freud, S. (1981). El chiste y su relación con lo inconsciente (Vol. 3). NoBooks Editorial.