Nos Vemos No Paraíso

08 Maio, 2020
'Nos Vemos No Paraíso' é um maravilhoso retrato, na forma de romance, do final da Primeira Guerra Mundial. Seu autor nos transporta para a Paris de 1919, uma sociedade que chorava pelos que se foram e não sabia o que fazer com os sobreviventes...
 

No romance Nos Vemos No Paraíso, de Pierre Lemaitre, a Primeira Guerra Mundial está chegando ao seu fim. Os soldados no front de batalha tentam afastar essa ideia da cabeça, temendo que aqueles presságios que correm mais rápido que a pólvora não se realizem. Seria muito fácil acreditar, mas, depois, muito difícil admitir quando a realidade virasse as costas para a fé. Dessa maneira, o fácil se torna difícil.

No entanto, dessa vez os rumores preveem, de fato, o que vai acontecer, ainda que muito tarde para dois soldados que, nos últimos estertores daquela penosa matança, verão suas vidas unidas para sempre, por aqueles laços invisíveis que levam uma vida toda para ser explicados.

O romance – e o filme de mesmo título – começa no interior das próprias trincheiras, onde um oficial – o tenente Pradelle – teme que o conflito termine sem ter acumulado honrarias suficientes. Para evitar isso, ele não hesita em enviar dois de seus homens para espiar o inimigo e matá-los pelas costas. Sua ideia é provocar um último combate que acrescente uma última vitória de renome ao seu registro de serviços.

No entanto, por conta dos destinos da vida, um de seus soldados – Albert – descobre a artimanha. Pradelle percebe que foi descoberto e, mesmo assim, não hesita em tentar matá-lo. No entanto, dessa vez a sorte não estará ao seu lado, já que aquele homem que ele pensava ter deixado enterrado vivo em um buraco não vai morrer.

Um de seus colegas – Édouard – vai conseguir resgatá-lo quando ele estava perto da morte. Um ato heroico que, por sua vez, não será recompensado pelo destino, o qual vai fazer com que um pedaço de estilhaço deixe seu rosto desfigurado. A guerra termina para a Europa, para a França e para os três personagens já apresentados, cujas vidas serão o fio condutor do romance.

 

“A Terra sempre passou por catástrofes e epidemias, e a guerra não passa de uma combinação de ambas”.
-Nos Vemos No Paraíso-

Pierre Lemaitre
Pierre Lemaitre

Muito além de uma guerra

A maior parte de Nos Vemos No Paraíso é dedicada ao depois, ao desafio de reconstruir o que foi destruído, de voltar a ter uma vida longe das trincheiras, onde há outras balas que sobrevoam e os males são outros, ou os mesmos, mas com outras máscaras. Assistimos à formação de uma verdadeira máfia sob o amparo de instituições compradas que não hesitam em comercializar e tirar proveito da dor de um país inteiro. Daquelas famílias que só querem fechar as feridas dizendo adeus aos seus, enterrando-os em paz. Aqueles que se foram, os heróis.

Missão complicada quando aqueles que deveriam se responsabilizar por essa tarefa têm pouco ou nenhum respeito por oferecer essa digna despedida. A tarefa é complicada, e em Nos Vemos No Paraíso notamos como a vontade é nula. Somando os dois fatores, vemos a narração de um desastre.

Por outro lado, há aqueles que sobreviveram no âmbito físico, não no mental. Aqueles que voltaram com um coração batendo, mas mutilados, desfigurados ou sem palavras. Para muitas pessoas, são suspeitos por terem sobrevivido, por não terem dado a vida como os outros fizeram, ignorados pelo resto pelo fato de representarem uma âncora, um passado de horror, escassez e medo.

 

“Toda história precisa de um final, é a lei da vida. Pode ser trágico, insuportável, ridículo, mas sempre há um”.
-Nos Vemos No Paraíso-

Nos Vemos No Paraíso, uma história sobre o que foi perdido e encontrado

Dois dos nossos protagonistas saem prejudicados dessa guerra, sem a possibilidade de voltar ao ambiente que um dia deixaram. Neles, vemos como a vida segue seu curso, como o instinto de sobrevivência permanece, como os medos vão ficando gigantes enquanto o fio com a vida não é cortado, seja por meio de alguns sapatos ou algumas máscaras de papel que são capazes de transformar um rosto desfigurado em um rosto aceitável.

Também vemos como é a infância, com sua forma particular de enxergar o mundo, repleta de inocência, que muitas vezes consegue eliminar parte da amargura que sentimos. São os pequenos aqueles que primeiro deixam de se focar no que veem para se concentrarem no que podemos fazer.

Além disso, em Nos Vemos No Paraíso somos testemunhas de como as esperanças perdidas podem nos afetar, como um pai tem que enterrar seu filho antes de ter conseguido aceitá-lo. Nós entendemos porque todos já sentimos isso alguma vez, aquela sensação de pensar que algo não importa até não conseguir mais, descobrindo na ausência o quanto estávamos equivocados.

Ao se referir à sua obra, o próprio autor afirma que não conseguiu evitar tomar Lazarillo de Tormes como referênciaCertamente, encontramos um paralelismo em suas páginas; é Édouard quem ensina a Albert (seu guia) diferentes estratégias para sobreviver e tirar proveito de um mundo que não os quer e não os aprecia.

 

Em última instância, estamos diante de uma obra deliciosa. Diante de um retrato, muitas vezes irônico, de como uma guerra não apenas termina destruindo edifícios ou a vida daqueles que combatem, mas como também tem o poder de dilacerar sociedades e gerações inteiras.

  • Lemaitre, P. (2014). Nos vemos allá arriba. Salamandra.