Nostalgia antecipatória: saudade do presente

16 Fevereiro, 2021
Já aconteceu com você de, em um jantar com amigos, de repente perceber que aquele momento vai acabar? Ou talvez ao olhar para um parente você tenha se sentido triste sabendo que um dia ele não estará mais lá? O que você experimentou é chamado de nostalgia antecipatória. Saiba mais a seguir.

Quando falamos em nostalgia, pensamos naquele sentimento de melancolia por algum acontecimento passado. No entanto, há situações em que sentimos falta do momento que estamos vivendo. Sentimos até nostalgia por algo que ainda não aconteceu. O nome dado a esse sentimento é nostalgia antecipatória.

Esse conceito tem gerado um grande interesse e, atualmente, estão sendo estudadas as funções e os benefícios emocionais de sentir essa saudade por algo que ainda não aconteceu. A seguir, apresentaremos as principais descobertas e conclusões relacionadas a esse sentimento complexo.

Homem pensativo

Nostalgia

Nossas memórias estão associadas a emoções e, por sermos humanos, temos a capacidade de recuperá-las intencionalmente. Podemos viajar mentalmente para reviver o que nos tocou. Assim, a nostalgia se refere àquela vontade de querer reviver o passado, voltar a um momento ou a circunstâncias que não existem mais.

Essa emoção complexa implica a habilidade de lembrar conscientemente um evento importante para nós. Além disso, em sua complexidade está seu caráter ambivalente, pois não é uma emoção positiva ou negativa. Em vez disso, inclui alegria e tristeza. Poderíamos dizer que é uma emoção agridoce.

O que os especialistas esclarecem é que, apesar de ser uma emoção ambivalente e causar uma espécie de tristezaseus efeitos são benéficos para o bem-estar psicológico. A nostalgia nos ajuda a nos definir, a reafirmar nossos sentimentos, a aumentar o sentido que damos à nossa vida e a nos proteger de desconfortos.

Quando nos sentimos sozinhos, tendemos a relembrar situações ou experiências com pessoas que amamos. Este pode ser um mecanismo natural para superar a percepção de solidão. Aqui, a nostalgia ajuda a aumentar o sentimento de pertencimento e a ligação social com os outros, enfrentando melhor o estado psicológico.

Alguns estudos também mostram que relembrar momentos passados ​​nos ajuda a olhar para o futuro com um toque de otimismo.

A nostalgia antecipatória ou antecipada

Então, o que acontece quando os pais sentem nostalgia ao pensar nos filhos adultos? E quando você se imagina daqui a 20 anos e tem certeza de que vai sentir falta da vida atual? E quando você se forma na faculdade e sabe que chegará um momento em que, pelo menos por alguns minutos, desejará abraçar aquele momento de novo?

Os especialistas diferenciam entre nostalgia antecipada e nostalgia antecipatória. A primeira se refere a saber que você vai sentir saudade de alguma coisa quando olhar para trás. Ou seja, ter consciência de que sentirá saudade no futuro. Geralmente, saber que haverá uma emoção negativa no futuro leva as pessoas a tentar evitá-la, como pode acontecer com a culpa. No entanto, a nostalgia atua como uma emoção positiva e não leva a tais tentativas.

Por outro lado, a nostalgia antecipatória se refere a sentir falta de aspectos do presente antes de se perderem no futuro. Ou, dito de outra forma, vivenciar a perda antes que ela ocorra. Nesse sentido, a saudade é vivida no momento, mas a partir de uma projeção para o futuro, como às vezes acontece com o medo.

Você vai desejar que esses dias não tenham passado tão rápido. Portanto, dê uma boa olhada ao seu redor. Você pode não saber agora, mas vai sentir falta disso.”
-Trace Adkins-

Quais sentimentos estão associados à nostalgia antecipatória?

Embora sejam necessárias mais pesquisas sobre esta emoção, foram encontrados alguns aspectos emocionais que caracterizam as pessoas que demostram mais nostalgia antecipatória, bem como quais eventos causam esse anseio por eventos futuros ou presentes que ainda não foram perdidos.

Aparentemente, os aspectos que nos causam todos os tipos de nostalgia coincidem. São momentos que envolvem eventos importantes da vida. Especialmente aqueles relacionados a relacionamentos pessoais, realizações e os objetivos que alcançamos.

Essas memórias e projeções do futuro despertam entusiasmo, otimismo e curiosidade. Além disso, estão relacionadas a um sentimento de gratidão por aquilo que já se tem e até mesmo à raiva que pode ser derivada de uma perda. Mas, acima de tudo, quando sabemos que algo vai nos deixar nostálgicos, nos sentimos inspirados e motivados a saborear as experiências enquanto elas se desenvolvem.

Por outro lado, a falta de algo que vivemos atualmente está relacionada à tendência à tristeza. Assim, embora a nostalgia seja benéfica, experimentá-la prematuramente pode interferir na capacidade de aproveitar o momento. Esse ponto não se refere ao fato de as pessoas que a sentem não estarem satisfeitas com o que vivem. O que acontece é que elas se sentem mais conectadas e, portanto, têm uma maior incapacidade de renunciar ao presente.

Mulher observando o mar

O que aprender com essas descobertas?

Às vezes passamos pelos acontecimentos ou experiências da vida de forma superficial e, quando menos pensamos nisso, tudo já aconteceu e não podemos mais voltar. Portanto, saber que aquele momento será o protagonista de uma lembrança no futuro, e saber que gostaríamos de revivê-lo ainda que por um momento, pode nos ajudar a desfrutar ainda mais do presente.

Portanto, da próxima vez que você encontrar amigos, receber grandes notícias ou concluir um projeto importante, saboreie. Saia de si mesmo por um momento para compreender totalmente a essência de tudo isso. Suas experiências atuais serão as memórias do futuro. Viva-as cem por cento e da melhor maneira que você puder, pois nada dura para sempre.

  • Batcho, K. I., & Shikh, S. (2016). Anticipatory nostalgia: Missing the present before it’s gone. Personality and Individual Differences, 98, 75–84.doi:10.1016/j.paid.2016.03.088
  • Cheung, W.-Y., Hepper, E. G., Reid, C. A., Green, J. D., Wildschut, T., & Sedikides, C. (2019). Anticipated nostalgia: Looking forward to looking back. Cognition and Emotion, 1–15.doi:10.1080/02699931.2019.1649247