O desserviço, uma faca de dois gumes

janeiro 10, 2020
Os desserviços atrapalham a pessoa que os recebe. Minam seus interesses e podem representar um grande obstáculo para seus objetivos. Por outro lado, esse tipo de favor nem sempre é mal-intencionado.

Um desserviço é uma ajuda que tem intenção, efetivamente, de ser um favor, mas que termina sendo um problema. Vamos nos aprofundar um pouco mais nesse tema.

Por vezes, sem pedir, recebemos a ajuda de outras pessoas, aparentemente de maneira altruísta ou inesperada. Isso nos enche de alegria e de gratidão para com elas, que, com seus favores, nos concedem um poder transformador.

Claro que essas situações podem passar despercebidas em um mundo de constantes demandas e exigências com prazos apertados. Com isso, podemos nos esquecer de ser suficientemente gratos, especialmente com aquelas pessoas que, sem chamar atenção, movem os ventos a favor, e não contra nós.

Oferecer apoio emocional

Os mediadores entre o favor e a gratidão

A carência de demonstrações de gratidão pode se dever a uma distorção cognitiva, que torna mais saliente o negativo do que o positivo. A abstração seletiva ou o filtro seletivo é uma distorção do pensamento que te leva a sentir que o negativo é mais relevante e presente que o positivo.

No entanto, da mesma maneira que não costumamos ser suficientemente gratos, também pode acontecer de não prestarmos atenção suficiente aos eventos que, de maneira intencional ou não, nos conduzem a situações que não são do nosso agrado.

A vida não é um algoritmo matematicamente perfeito. Por isso, ações ou circunstâncias que, em um princípio, nos beneficiam, podem acabar nos prejudicando. Na maioria das vezes os resultados não são intencionais, e de fato podem acabar sendo um desserviço, representando um obstáculo para alcançar nossos objetivos.

Em outro plano, os filtros mentais constituem diferentes lentes pelas quais passamos a informação que recebemos ou os pensamentos que geramos. Todos os temos e os criamos a partir das experiências que vivemos, geralmente de maneira inconsciente. Os filtros mentais e as distorções cognitivas serão os mediadores de quão gratos ou não estaremos diante de certos favores, sejam solicitados ou oferecidos.

A condescendência, um identificador do desserviço

Em outras ocasiões, e para nosso assombro posterior, alguns dos desserviços têm origem em uma atitude mal-intencionada e, além disso, se transformam em um favor para a pessoa que “quer nos ajudar”.

Essas situações costumam envolver uma atitude condescendente. Por outro lado, podem ter como motivação única e exclusiva o benefício de quem o oferece. Por isso, os desserviços podem ser uma faca de dois gumes.

A condescendência surge quando são misturados um sentimento de superioridade com uma amabilidade mal compreendida pela pessoa que supostamente será a beneficiária. Pode acontecer que alguém esteja sendo condescendente conosco, disfarçando com um favor – que, inclusive, não pedimos – e que as consequências deste sejam prejudiciais.

Para prevenir situações como essa, que estão longe de ser uma ajuda valiosa para quem as recebe, é importante manter um certo senso crítico com as ofertas que recebemos, mesmo que a intenção seja ajudar. Por outro lado, se o prejuízo já aconteceu, podemos fazer o seguinte.

O que fazer diante do desserviço?

Podemos levar em consideração as seguintes orientações:

  • Não se culpar. Em primeiro lugar, compreender a causa da situação ou do desserviço. Se não é sua culpa, não a assuma.
  • Responsabilizar-se. Entender que a falta de culpa não nos exime da responsabilidade. Sim, também somos responsáveis por aquilo que aceitamos.
  • Avaliar a intenção e deixar ir. Avaliar se o favor é oferecido com segundas intenções.

Afinal de contas, somos humanos e, querendo ou não, todos nós erramos. Nesse sentido, o humanismo abre as portas para a compaixão e o perdão. Também é importante lembrar que muitos dos desserviços, inclusive aqueles com segundas intenções ou os mal-intencionados, ocorrem por desconhecimento.

“Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”.
-Lucas 23:34-

Mulher preocupada

O favor, como produto de mercado, deixa de ser um favor

Quando falamos de favor – o favor perfeito – costumamos nos referir a um ato desinteressado, bem-intencionado e de interesse para a pessoa que o recebe. No entanto, atualmente, parece que um favor deve ser recíproco, motivando as pessoas a fazê-los por um pseudodireito de reciprocidade.

Assim, caso não seja devolvido, por vezes, o favor adquire um falso caráter de dívida, com as inevitáveis consequências negativas que isso representa para quem supostamente é favorecido. De cara, isso já constitui, inevitavelmente, um desserviço para o destinatário.

Além disso, por vezes a não devolução do favor coloca o receptor em uma posição de inferioridade, que não passa de uma projeção. Essa projeção cria um mercado ilusório de favores e dívidas, que podem originar sentimentos negativos ou de rancor, especialmente se o “generoso” não receber uma devolução.

Por concepção social, o favor é altruísta e desinteressado. No entanto, os favores que à primeira vista não parecem interessados – e são –, sob uma atitude condescendente – quando não precisamos –, são mais suscetíveis a se tornarem desserviços. Por isso, especialmente em situações que surgem inesperadamente nas quais pode parecer que estamos recebendo um favor, pense duas vezes.

A cadeia de favores é uma ideia oposta à ideia mercantil do favor. Parte da base de que todos podemos ser altruístas, de maneira que, se favorecermos alguém sem esperar nada em troca, outra pessoa fará a mesma coisa conosco.

Festinger, L. (1975). Teoría de la disonancia cognoscitiva. Instituto de Estudios Políticos.